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iConfess: “Há muita gente em Portugal que precisava de se confessar”
Cultura 7 min. 03.04.2014

iConfess: “Há muita gente em Portugal que precisava de se confessar”

iConfess: “Há muita gente em Portugal que precisava de se confessar”

Foto: Joaquim Valente
Cultura 7 min. 03.04.2014

iConfess: “Há muita gente em Portugal que precisava de se confessar”

O que tem a ver um confessionário feito de cortiça com a crise do capitalismo e o esgotamento dos recursos? E será que algum dia vamos ser obrigados a comer insectos? Bruno Carvalho, comissário português da exposição “Never for Money, Always for Love”, explica.

Uma das peças mais emblemáticas da exposição “Never for Money, Always for Love”, que hoje abre portas no Mudam, é um confessionário feito em cortiça. Da autoria de Bruno Carvalho, a peça, que já foi apresentada na Experimenta Design 2013, em Lisboa, é uma leitura possível da forma como a tecnologia influencia a comunicação entre as pessoas.

Baptizado “iConfess” (o nome significa literalmente “eu confesso“, e é também um piscar de olhos aos gadgets do género do iPad), a peça tem a forma de um banco de cortiça onde se podem sentar duas pessoas. Uma parede separa-as, tornando impossível o contacto visual directo. Para comunicarem, ”confessor” e ”confessado” são assim obrigados a recorrer a dois iPads integrados nas placas de aglomerado de cortiça negra.

“Hoje a vida quase foi substituída por ecrãs”, explica o designer Bruno Carvalho, comissário da exposição que reúne a partir desta quarta-feira sete designers portugueses e seis luxemburgueses no Mudam.

“Cada vez mais tudo passa por um ecrã, incluindo a comunicação das pessoas, com o conceito da amizade a ser completamente redefinido pelo Facebook e o amor pela tecnologia, como vimos no filme ’Her’, do Spike Jonze. Hoje em dia a pressão é tão grande, o ritmo é tão acelerado, que a paciência das pessoas começa a escassear, e não estão sequer para se chatear com ter uma relação. E o computador vai tornar-se o melhor amigo do homem, porque está sempre disponível”, defende Bruno Carvalho.

“Estes softwares são feitos para ajudar, mas a sua utilização em massa está a mudar conceitos que até hoje eram sólidos e que integravam a nossa sociedade, como a amizade, o amor e as relações entre as pessoas”.

Por detrás da ideia do confessionário feito com placas de isolamento da empresa portuguesa Sofalca, usadas normalmente na construção civil, estão as dificuldades introduzidas pela tecnologia e pela busca desenfreada daquilo a que o filósofo Anselm Jappe (que inspira o designer português e a exposição no Mudam) chama “produtivismo”. O confronto no mesmo espaço entre a realidade e a virtualidade faz pensar também na sociedade do espectáculo de Guy Debord, um dos autores seminais na obra do filósofo alemão.

Quando foi apresentado em Portugal, o iConfess estava instalado sozinho na capela da Ermida, o que permitia explorar um pormenor curioso: colocados tão próximos um do outro, os dois iPads criavam interferências e faziam ruído.

No Luxemburgo, o confessionário vai estar num local de passagem que dá acesso ao pavilhão Henry J. e Erna D. Leir do Mudam, onde vai ser exibida a mostra “Never for Money, Always for Love”, e o designer optou por não ter o som ligado, mas conta a história para ilustrar “o ruído que a tecnologia cria entre as pessoas”.

“Eu já tenho de criar estratégias para conseguir trabalhar, tem de se desligar as coisas para se conseguir trabalhar. É este abuso, este super-uso que as pessoas dão às coisas, este uso e consumo exagerado, que cria depois uma série de ansiedades e tem um impacto que gera novos problemas”, explica.

“Esse é um dos problemas actuais, o de a tecnologia no fundo não resolver os problemas. Resolve uma coisa específica mas traz outras circunstâncias às quais as pessoas são forçadas a adaptar-se. Somos nós que criamos a tecnologia, mas depois temos de andar atrás ela. E não temos tempo de nos adaptarmos, porque atrás de uma novidade vem outra. A tecnologia serviria supostamente para nos libertar, mas é o contrário: as pessoas hoje têm um ritmo cada vez mais acelerado”.

O designer português garante que a peça não representa uma crítica à religião, antes pelo contrário. A mundialização deixou muitos sem referências, e o regresso a antigos valores é uma tendência, defende.

“Há uma certa tendência de regressar à procura de espiritualidade, que se pode traduzir também no regresso à religião, na procura de um conforto que se perdeu com a crise que se instalou. A religião tem esse poder: as pessoas ouvem-se, estão mais perto, têm tempo para falar, sentem-se mais apoiadas”, diz.

“Eu não sou praticante, mas percebo esse lado da religião. A religião, quer se acredite ou não, quer se pratique ou não, era um elemento de referência social. As referências também eram transmitidas nas igrejas, pelos padres, pelos serviços à comunidade, e isso era referencial. E neste momento de abertura total, as referências perderam-se, e eu acho que as pessoas não sabem lidar muito bem com isso”.

Crise do capitalismo leva a questionar papel do design

 

Para o designer, que viveu quatro anos na Holanda e trabalhou no estúdio do designer premiado Maarten Baas, a inclusão do iConfess faz todo o sentido numa exposição em que o mote é a crise actual do capitalismo, que não poupou Portugal.

“Há muita gente em Portugal que se devia confessar. Confessar também liberta o espírito. O padre também servia para isso: a pessoa sente-se liberta, desanuvia. Eu acho que há pessoas que têm responsabilidade no estado actual do país, e esta peça também é para essas pessoas. É uma provocação”, diz Bruno Carvalho ao CONTACTO. E admite que gostava que alguma igreja lhe comprasse o confessionário.

“Sim, um padre mais progressista, mais tecnológico, já que o novo Papa também é amigo das novas tecnologias e é uma mente mais aberta. Acho que até já há um confessionário virtual no site da Igreja católica...”.

Entre os biscoitos feitos com farinha de insectos da designer Susana Soares (”criar quintas de insectos, em termos de pegada ecológica, tem um impacto muito menor que criar uma vaca”, recorda Bruno Carvalho), as capas de cadeiras feitas com os tradicionais Lenços de Namorados, de Rui Pereira, ou as roupas versáteis de Daniela Pais, que podem ser vestidas em várias ocasiões, o iConfess é mais um dos objectos que explora os desafios que o design enfrenta: o excesso de produção e consumo, o esgotamento dos recursos, a massificação e “o fetichismo da mercadoria” de que já falava Marx e que Anselm Jappe denuncia nos seus ensaios.

“A crise confronta-nos com o paradoxo fundador da sociedade capitalista: a produção de bens ou serviços não é para ela um fim, mas apenas um meio. O único fim é a multiplicação do dinheiro, é investir um euro para conseguir dois”, escreve o filósofo alemão, cujas teses servem de premissa à abordagem dos 13 designers.

É a mesma compulsão pelo lucro que leva as grandes indústrias do design a produzir todos os anos mais e mais cadeiras, numa tentativa constante de multiplicar o valor, explica Bruno Carvalho. E se o designer não é um revolucionário, deve em todo o caso estar atento aos sinais que o rodeiam, a começar pela crise, defende o comissário português.

“Eu nunca quis fazer mais uma cadeira, que normalmente é o objecto fétiche do designer, um objecto bastante complexo, porque envolve a ergonomia e o conforto do corpo humano. Eu gosto mais de lidar com os sentimentos e emoções que o objecto desperta do que com questões de conforto. Porque nós precisamos é de estar desconfortáveis. A Natália Correia dizia que as revoluções têm de se fazer de pés descalços, e realmente é isso. A pessoa se está confortável diz mal, critica, mas continua confortável. Se a pessoa estiver desconfortável tem mais necessidade de agir, e por isso eu acho que este é o momento certo para Portugal poder mudar as mentalidades”, defende.

Paula Telo Alves