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"I fiori persi". A pandemia que nunca existiu
Opinião Cultura 1 3 min. 08.05.2022
Crítica de cinema

"I fiori persi". A pandemia que nunca existiu

Crítica de cinema

"I fiori persi". A pandemia que nunca existiu

Opinião Cultura 1 3 min. 08.05.2022
Crítica de cinema

"I fiori persi". A pandemia que nunca existiu

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Está neste momento nas salas luxemburguesas um filme bom para negacionistas.

Poucas coisas me irritam mais do que os negacionistas. Conheço alguns. Tenho amigos assim. Tenho amigos que acham que a pandemia foi uma treta, que a covid foi uma gripezinha, como disse o malfadado presidente do Brasil. Tenho amigos que, no dia em que as máscaras deixaram de ser obrigatórias, colocaram uma só para gozar com os "carneiros" e para festejar o regresso daquilo a que chamam liberdade.

A pandemia existiu. Que o digam as famílias de muitos mortos e de muitos doentes com graves sequelas. Os negacionistas dirão que foi outra coisa, que foi gripe, que foi um vírus feito na China, ou o raio que os parta. Enfim, os negacionistas da pandemia dão-me vontade de dizer coisas assim: que vão para o raio que os parta (e que Santa Bárbara me perdoe!).

A mãe de Fabrizio Maltese vai falecer, vítima de covid, deixando Fabrizio sozinho em casa com o pai, ambos num luto difícil, confinados com as lembranças da mãe e a frágil saúde do pai.

Está neste momento nas salas luxemburguesas um filme bom para negacionistas. O seu autor é italiano, mas fez a sua carreira profissional no Luxemburgo, como fotógrafo e como cineasta.

Fabrizio Maltese gosta de filmar como quem tira fotografias. Gosta de pessoas que se mexem em frente à câmara, à semelhança do que fazia o rei do cinema português do século XX, Manoel de Oliveira. A câmara não mexe, quem mexe são os atores, dizia o mestre. Maltese podia ter sido discípulo de Oliveira, não sei se alguma vez viu um filme do realizador português, mas na próxima vez que o cruzar vou colocar-lhe a questão.

"I fiori persi" é um filme simples, rodado com um telemóvel. Fabrizio Maltese foi até à sua Itália natal para estar junto dos pais, idosos, sobretudo porque o seu progenitor teve de ser operado. Nessa altura, o cineasta não sabia que a covid-19 estava a aparecer e que a pandemia se preparava para mudar o mundo.

Chegado a Viterbo, na região de Lazio, Maltese vai acompanhar a operação cirúrgica do seu pai, mas a pandemia – que fortemente atacou aquela zona de Itália – vai prendê-lo na casa dos pais, e atacá-los.

A mãe de Fabrizio Maltese vai falecer, vítima de covid, deixando Fabrizio sozinho em casa com o pai, ambos num luto difícil, confinados com as lembranças da mãe e a frágil saúde do pai.

"I fiori persi" é um documentário singelo, com fortíssimos momentos de emoção, porque o telemóvel do realizador impõe-se no meio da sala de estar familiar. Lágrimas, histórias e momentos como a duríssima seleção dos objetos pessoais da mãe, transformam este documentário num dos melhores relatos da pandemia.

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

O filme de Maltese é a doença vista de dentro, vista do ponto de vista das emoções, vista do interior de uma casa-prisão porque não se pode sair. Mas a prisão é também emocional: pai e filho vão ter de viver juntos um drama que não esperavam e gerir um luto improvável.

A presença da mãe é global, mas o seu nome não é dito, como se fosse proibido ou, se calhar, porque as lágrimas se soltariam ao dizer mãe ou ao pronunciar o seu nome.

Fabrizio, e o pai Maurizio, aceitaram a exposição dos sentimentos neste documentário. Para o filho, o filme foi uma forma de sobreviver, de gerir a dor. Para o pai, naquela altura deve ter sido um choque que o velho senhor aceitou por respeito pelo filho.

Hoje, sei que a família Maltese tem orgulho na obra de Fabrizio. O pai até se deslocou ao LuxFilmFest para partilhar a sua experiência como "ator". Ambos fizeram o seu luto e "I fiori persi" é a melhor homenagem que um filho podia fazer a uma mãe que perdeu.

O documentário tem defeitos, bastantes. Tem sobretudo elementos pseudo-poéticos que não faziam falta, mas o resto é tão genuíno que vale bem uma visita ao cinema. E, já agora, se o estimado leitor for um pobre negacionista, não sabe o bem que lhe fazia...

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