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História em BD conta como só por pouco a seleção natural foi atribuída a Darwin
Cultura 3 min. 28.09.2019

História em BD conta como só por pouco a seleção natural foi atribuída a Darwin

História em BD conta como só por pouco a seleção natural foi atribuída a Darwin

Cultura 3 min. 28.09.2019

História em BD conta como só por pouco a seleção natural foi atribuída a Darwin

O livro da coleção “Descobridores” agora publicado em português explica a ciência por trás da origem das espécies, mas também as histórias ligadas à publicação da teoria.

Numa manhã de junho de 1858, uma carruagem viaja entre Londres e Down, na altura uma aldeia a alguma distância da cidade. Apesar de o cocheiro não poupar o chicote, um dos passageiros grita-lhe constantemente que vá ainda mais depressa. Chama-se Thomas Huxley, é biólogo, e vai acompanhado de Charles Lyell, o grande geólogo do seu tempo. Os dois têm um bom motivo para se dirigir à casa de Darwin em Down numa corrida desenfreada.

É com este episódio dramático que abre o segundo volume da nova biografia de Darwin em banda desenhada. Durante a viagem de circum-navegação a bordo do Beagle ou mais tarde, em Inglaterra, Darwin não fez uma descoberta que de um dia para o outro tenha modificado a sua imagem do mundo. Pelo contrário, recolheu espécimes, observou fósseis já conhecidos antes da sua partida e outros que os naturalistas do seu tempo iam colecionando entusiasticamente e refletiu. Refletiu tanto que o motivo destes homens para fustigarem os cavalos é anunciar-lhe que um outro naturalista e viajante, Alfred Russel Wallace, mais jovem e arrojado, pelo menos no que diz respeito a desafiar convenções sociais, está prestes a publicar um artigo em que defende uma ideia semelhante à que Darwin levou várias décadas a amadurecer.

As biografias de grandes homens — e da Madame Curie, claro — foram uma tradição da literatura juvenil que parecia perdida, ou talvez só substituída pelos biopics dos heróis do nosso tempo. Mas para fazer uma história com substância não há como um grande descobridor, músico (Beethoven surdo à frente de uma orquestra), ou até alpinista (um belíssimo subgénero manchado pelas selfies no Evereste, mas que deu grandes alegrias a muitos adolescentes).

Este Darwin em banda desenhada tem alguma afinidade com essa tradição. O dramatismo mantém-se até ao fim, o ritmo nunca abranda e quem não conhece a história quer saber como acaba. Além disso Christian Clot, que escreveu o argumento, é ele próprio um explorador, à maneira moderna, e a experiência de viajante e homem do mar dá um condimento particular ao livro.

Voltando ao princípio da história e à prioridade na publicação, há uma nuance na forma como a atitude de Darwin é apresentada que o faz parecer mais nobre do que é habitual, com uma postura mais à altura da figura histórica que merece ter um livro numa coleção de biografias de grandes descobridores, tudo isto com um toque de autenticidade que Christian Clot foi buscar aos diários de Darwin. O mesmo se aplica à cena do encontro da Sociedade Britânica para o Avanço da Ciência, onde se deu um confronto famoso entre Huxley, conhecido como o “Buldogue de Darwin”, e o bispo de Oxford. A perspetiva que aqui se apresenta está claramente mais bem contada que de costume. De resto, o dossiê documental do livro também é interessante. Só não podemos contar como tudo acaba, embora as histórias de terror com o criacionismo nas escolas americanas levem a recear que ainda não tenha realmente acabado.

A coleção agora traduzida em português tem sido um êxito em várias línguas. Aparece em muitas lojas de museus por toda a Europa, cada vez mais hábeis a escolher produtos atraentes para as crianças e que justifiquem a aprovação dos que os pagam: o grafismo e a qualidade do traço aliciam os filhos e o conteúdo os pais. Mas todos leem.

Isabel Pedrome

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