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Her: O amor não existe
Nunca mais actualizo o meu sistema operativo

Her: O amor não existe

Nunca mais actualizo o meu sistema operativo
Cultura 4 min. 26.03.2014

Her: O amor não existe

Admito que passo algum tempo no Facebook. Admito mesmo que utilizo outras redes sociais e que mantenho o contacto com alguns amigos através delas. Admito ainda que me arrependo muitas vezes de ter estado demasiado tempo em frente a um ecrã a falar com gente que vejo poucas vezes em carne e osso.

Mas é preciso dizer que se não fosse a tecnologia alguns dos amigos que deixei longe não estariam em contacto comigo. Se não fosse o Facebook não saberia que o Rui escreveu um livro ou que o Bruno já é pai. Creio que as redes sociais não são bichos-papões que nos roubam a alma e a transportam para um purgatório digital.

Quem vir o “trailer” de “Her” pode ficar a pensar que o filme de Spike Jonze é sobre os malefícios da tecnologia. Nada de mais errado. Este realizador tão original propõe um dos mais inteligentes filmes da sua carreira.

Graças a um subtil sentido de humor e muita humanidade, a quarta longa metragem do homem que assinou alguns dos melhores telediscos de sempre explora emoções recicladas pela tecnologia atingindo uma profunda melancolia. “Her” é um dos filmes mais verdadeiros no que respeita às emoções humanas actualmente em exibição.

Theodore (Joaquin Phoenix) é um recém-divorciado que, num futuro próximo, faz uma actualização do sistema operativo do seu computador (curiosamente estive quase para escrever: “faz uma actualização do seu sistema operativo”. Como se o computador fizesse parte dele). O novo “software” gere a agenda de Theodore e assegura a coordenação da mesma com o seu correio electrónico e os distintos ficheiros do seu computador e da nuvem. O sistema recém-instalado traz consigo uma surpresa.

A voz de Samantha (Scarlett Johansson) passa a ser o novo interface com o utilizador. Theodore e Samantha vão desenvolver uma relação cada vez mais íntima. Um relacionamento impossível entre um homem de carne e osso e uma voz virtual que demonstra uma certa inteligência e mesmo emoções…

O filme de Jonze não fica pela superficialidade da relação entre homem e máquina. Trata-se de um excelente relato sobre a tolerância e sobre as mais profundas emoções e relações humanas. A inteligência do realizador está em conseguir vender um aspecto quase superficial do filme, para depois acabar por levar os seus espectadores para uma sátira sobre o amor. “Her” é um esboço brutal e cínico sobre o estado actual das relações entre mulheres e homens.

 O computador deste filme é esse elefante no meio da sala. O assunto omnipresente nos filmes que decidiram contar as histórias entre dois seres humanos que se relacionam. Só que no caso de “Her”, Samantha é um computador.

“Her” quer dizer “Ela”, a mulher. E além da voz de Scarlett Johansson, Spike Jonze escolheu uma panóplia de mulheres para representarem Eva em todas as suas declinações. Temos direito a uma estrela televisiva que publica fotografias suas com uma enorme barriga de grávida, mas também uma viciada em internet que se chama Sexy Kitten e tem tendências sadomasoquistas. A colecção de cromos é tão vasta que não é possível enumerá-los todos aqui. Merecem ainda referência a vizinha de Theodore que tem um matrimónio infeliz e cria um jogo de vídeo para explicar como se pode ser mãe ideal, ou o curioso encontro do protagonista com uma mulher desesperada com o passar do tempo e que procura desesperadamente um companheiro.

O anti-herói Theodore, perante esse buquê de mulheres reais bastante desequilibradas, acaba por apaixonar-se pela voz do seu computador. Uma voz que lhe transmite confiança, que até o protege e que o faz sonhar. Talvez a impossibilidade do amor físico entre ambos contribua para o aumento da emoção que sente Theodore, mas uma coisa é certa, o protagonista é um homem perdido. Perdido sobretudo porque acha que tem sérios problemas com as mulheres.

“Her” – com um certo machismo – mostra que quem tem problemas são as mulheres, até porque elas não se entendem a elas próprias. Theodore só pode ser considerado um herói porque não desiste. Theodore é um homem normal num mundo tecnológico e metrossexual onde o amor é apenas virtual.

“Her”, de Spike Jonze, com Joaquin Phoenix, Amy Adams, Scarlett Johansson, Chris Pratt, Rooney Mara e May Lindstrom.

Raúl Reis