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Hana Sofia Lopes.“Fazer esta peça é como ganhar a lotaria”
Cultura 4 9 min. 08.01.2021

Hana Sofia Lopes.“Fazer esta peça é como ganhar a lotaria”

Hana Sofia Lopes.“Fazer esta peça é como ganhar a lotaria”

Foto: António Pires
Cultura 4 9 min. 08.01.2021

Hana Sofia Lopes.“Fazer esta peça é como ganhar a lotaria”

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
A atriz lusodescendente Hana Sofia Lopes está, no meio da pandemia, num projeto de sonho: entra numa peça que vai estar na estrada até fevereiro de 2022 e que conta com alguns dos nomes grandes do teatro mundial. “Habiter le Temps” conta como aquilo que acontece num determinado momento nos condiciona durante várias gerações. Estreada numa época em que vivemos um acontecimento estranho que vai criar um antes e um depois.

Tem trabalhado mais por França e Luxemburgo ou também em Portugal?

Já não trabalho em Portugal há dois anos ou três. O problema é quando se trabalha em vários sítios é muito complicado conciliar. Eu tenho vários agentes e cada um tenta um pouco puxar a brasa à sua sardinha.

No ano passado estrearam, creio, três filmes seus, tem neste momento algum projeto cinematográfico a avançar?

Não. Estou com a peça “Habiter le Temps” até, pelo menos, fevereiro de 2022. Mas tenho mais um projeto no teatro que posso adiantar. É um projeto do Teatro Nacional do Luxemburgo, em parceria com o Teatro Nacional de São João do Porto. É sobre a emigração e está a ser um pouco escrita à medida, o que é bom, pelo Pedro Beja.

Como surgiu esta oportunidade de fazer o “Habiter le Temps?”

A oportunidade de fazer esta peça foi uma coisa incrível. Fui a um casting. Eu faço centenas deles por ano. Pensei que tinha sido mais um. Quando li a peça e fiquei muito comovida e pensei: ’a pessoa que a vai ter o prazer de interpretar este papel ganhou a lotaria’. Fui a essa audição, porque o diretor aqui do Grand Theatre, Tom Leick, disse-me que iam fazer uma co-produção e se eu queria ir a uma audição com o encenador. Fui e nem senti que me tivesse corrido extraordinariamente. “Foi mais uma”, pensei. Mas passado dois meses ligou-me o encenador a dizer que queria que fosse eu a fazer aquele papel na peça. Fiquei muito feliz.

Mas é uma senhora peça, desde os atores que participam, até à autoria do texto e o encenador. Uma espécie de “dream team”.

Só o que está escrito, por si só, já é muito bom, muito comovente e toca todo o ser humano. A questão de onde é que eu venho? Porque razão sou assim? São questões que implicam todos os seres humanos. Aquilo que foram e fizeram os nossos antepassados, que viveram nas gerações passadas, afeta o que somos hoje em dia.

A peça decorre numa casa comum em que passado, presente e futuro acabam por se influenciar e ouvir?

É, e tecnicamente isso aumenta em muito a dificuldade da nossa atuação. Nunca foi para mim tão difícil memorizar um texto como este. Sou um dos personagens da última geração, 2014. Depois em cena estão pessoas que vêm dos anos 60, do século passado e dos anos 20 desse mesmo século, e toda a gente está a falar em paralelo. Estamos sempre a dialogar, com frases, respondendo a coisas que supostamente não ouvimos.

Tudo isso se liga tanto do ponto de vista do texto como do som.

Exatamente, o encenador dizia que tudo se passava, nesses vários tempos, como se fossem diferentes naipes de instrumentos de uma orquestra filarmónica, em que o que cada um toca influencia o que os outros estão a tocar. Quando eu falo, as coisas ganham outro sentido em relação às falas que se ouvem que vêm de outro tempo – é como se eu estivesse a passar a bola ao próximo. E tudo isso, tem de encaixar ritmicamente. Foi tudo muito complicado de estudar. Não houve vez nenhuma que a gente tenha ensaiado a peça que tenha decorrido toda sem falhas. E como se nota, os outros atores são toda gente com uma grande carreira, com 20 ou 30 anos mais do que eu. Já estavam a fazer teatro ainda eu não era nascida. Tentar estar ao nível deles foi algo que me provocou muito medo.

É de facto um elenco de luxo. Acho absolutamente fantástica a Irène Jacob, nomeadamente a sua interpretação na “Dupla Vida de Verónica”, do realizador polaco Krzysztof Kieślowski.

Para além todo o seu profissionalismo, é um amor de pessoa e uma colega fantástica. Nesse filme ela ganhou o prémio de interpretação no Festival de Cannes. Quando eu passei a audição e soube que ia interpretar o papel, eu ainda não sabia quem era o elenco. O que o diretor do teatro Tom Leick me disse é que era uma co-produção com o teatro de Nancy, que iam ser representada várias vezes lá, algumas vezes no Luxemburgo e que depois iria haver uma pequena digressão. Era a única coisa que sabia. Não conhecia o encenador, não conhecia o resto do elenco. Mas depois começo a receber os emails da produção e começo a ver em CC os emails dos outros atores. E penso: o quê? o Jérôme Kircher que já foi nomeado não sei quantas vezes para o melhor ator de teatro, que é um fenómeno e já entrou em não sei quantas coisas. A maioria dos filmes que admiro o Kircher entrou. O Éric Berger que é um fenómeno e que fez, entre outras coisas, aquele filme “Tanguy”. E depois era a Maïwenn, que interpretava o papel que acabou por ficar com a Irène Jacob. Sou também grande fã dela e do seu trabalho como atriz e realizadora.

No texto de Rasmus Lindberg, que ganhou em 2013 o importante prémio Ibsen, fala-se de qualquer coisa que aconteceu na primeira geração que marca definitivamente todas as outras gerações e ao mesmo tempo constrói-se uma situação em que existe um diálogo contínuo entre os vários tempos. Esse acontecimento traumático é um caso de violência doméstica?

Descobrir o que de facto sucedeu é a pergunta da peça. Ao longo da peça as pessoas vão-se confrontando se as informações que têm, que lhes foram passadas, e se essas informações são de facto fieis ao que realmente sucedeu. Uma pessoa simultaneamente tem acesso ao que aconteceu ao mesmo tempo que vê como as gerações seguintes interpretam e acham que sucedeu na realidade. Isto é das questões mais existencialistas que temos hoje em dia: por que é que eu sou da maneira que sou? Até que ponto aquilo que sucedeu no tempo dos meus bisavós me condicionou e tem uma influencia sobre mim hoje em dia?

E acha que tem?

Não acho, tenho a certeza. Já li muita coisa de psicologia sobre esse assunto, até para me preparar para a peça. Tudo o que acontece numa geração vai influenciar até três gerações seguintes. Por exemplo, se a sua mãe ou a sua avó viveu uma situação de violência doméstica ou uma perda gigante, isso vai influenciar a maneira como o vai educar, o ambiente da sua infância, e isso vai condicionar a sua vida.

O próprio julgamento social do que aconteceu numa determinada época é também às vezes mutável com o progresso e a tomada de consciência. Há situações que há uns anos eram reportadas apenas como prostituição que hoje se percebe que são pedofilia. Como aconteceu em casos conhecidos como o da Casa Pia, que foram inicialmente noticiados como prostituição de jovens e só depois se percebeu que era pedofilia.

Isso acontece com o tempo, mas também varia no espaço. Há países que têm uma cultura e até uma legislação que desculpabiliza crimes como a violência doméstica. Mas é preciso perceber que a violência doméstica é um fenómeno transversal que atinge toda a sociedade em vários países, não é uma coisa de pobres e limitada a algumas pessoas. Está presente em gente com características muito diferentes.

Como é representar isso, é necessário buscar experiências vividas? Há algo de cada um nessa representação?

No meu caso, a minha personagem não vivenciou nenhuma experiência de violência doméstica. Existe um quadro de violência psicológica e eu não percebo a razão que a minha companheira, eu estou numa relação lésbica na peça, reage de uma determinada forma. Durante a peça é que percebo que o comportamento psicológico dela é muito influenciado pelo que aconteceu. Sou mais uma espécie de observadora da situação, alguém que está a tentar desvendar o que se passou e a razão das coisas e as várias camadas da sua psicologia.

Como foi ensaiar em pandemia?

Foi muito complicado. Para já eu estava a fazer outra peça aqui no Luxemburgo, "Hedda Gabler” de Henrik Ibsen. Não parei de trabalhar desde maio. As férias de Natal foram a primeira semana em que descansei. Já nessa peça no Luxemburgo foi muito complicado. Estamos permanentemente a ensaiar de máscara. Na peça, temos uma coreografia e um monólogo gigante no final que faz que seja muito cansativo ensaiar e projetar a voz quando se está com uma máscara.

Quando atuam é sem máscara, quais são os cuidados que têm?

Temos que fazer testes uma vez por semana. A situação existente isola-nos muito. Temos que ser responsáveis. Até porque as minhas ações podem acarretar o fim de uma peça. Se eu não tiver cuidado e ficar contagiada toda a peça pára. Nesta nova peça uma pessoa teve covid e tivemos que parar. Por sorte, foi numa altura que não estávamos a ensaiar por eu ter que acabar uma representações no Luxemburgo da “ Hedda Gabler”. Tivemos sorte nos ensaios, mas a dois dias da estreia, em Nancy,o Governo francês encerrou os teatros, inicialmente até 7 de janeiro e agora foi prolongado não sabe até quando.

A peça está por estrear?

Fizemos apenas uma estreia a 15 de dezembro mas só para profissionais da mesma área. Havia 150 pessoas, só profissionais, o pior público e mais exigente de sempre (risos). Normalmente quando há uma estreia a gente pensa: “Estão profissionais na sala, mas não faz mal, porque estão os meus amigos e a minha família”. Desta vez, não. Era só o público mais complicado e exigente.

Mas gostaram ao menos?

As críticas foram excelentes.

E com a pandemia quando é que é será possível ver a peça no Luxemburgo?

Não sabemos. As cinco primeiras datas da digressão foram adiadas. Esta semana éramos para estar aqui no Grão-Ducado, já não vamos fazer. Só mais tarde. Estamos dependentes se estas medidas em França se vão manter. Mesmo as atuações em fevereiro na Suíça não sabemos se vão ser possíveis. Foi-nos oferecida a possibilidade de ser gravado e difundido em televisão, mas isso acabava por inviabilizar a ida da peça a muitos teatros importantes, porque já tinha saído na televisão. De qualquer forma, a nossa digressão a sério começa em outubro. A partir dai temos quase 40 datas e esperemos que a pandemia já esteja mais controlada. Estaremos até fevereiro de 2022, em muitos teatros de França, na Bélgica, na Suíça, no Luxemburgo. Se for um grande sucesso pode ser que seja prolongado.

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