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Há uma nova movida cultural em Bourglinster
Cultura 17 4 min. 29.04.2021

Há uma nova movida cultural em Bourglinster

Há uma nova movida cultural em Bourglinster

Foto: António Pires
Cultura 17 4 min. 29.04.2021

Há uma nova movida cultural em Bourglinster

Ricardo J. Rodrigues
Ricardo J. Rodrigues
Tomaram conta dos antigos estábulos do castelo e agora prometem impregnar de arte uma aldeia inteira. O coletivo K+A reúne fotógrafos, videógrafos, encenadores, humoristas e bailarinos. No próximo fim de semana estreiam-se com uma exposição de fotografia e várias atuações de dança no espaço Les Annexes, em Bourglinster.

"Isto é só o começo", e Claudia Urhausen, coreógrafa e dançarina luxemburguesa com raízes portuguesas, abre os braços e dá uma pirueta junto ao portão do castelo de Bourglinster. Toda ela é alegria pelo que está prestes a acontecer. No próximo fim de semana apresenta-se ao mundo – e ao Luxemburgo – o K+A, acrónimo de Kolektiv des Annexes, um coletivo de artistas que promete transformar a pequena aldeia do centro do país num laboratório experimental de cultura.

A sede do grupo é precisamente Les Annexes, um centro de criatividade montado nos antigos estábulos do castelo. O espaço estava já semi-ocupado por sete projetos culturais – ateliers de pintura e artes visuais, desenho e filme, além de uma livraria social chamada Les Amis du Livre. No início de abril juntaram-se-lhe os K+A, que ganharam um concurso público do ministério da Cultura para ocupar aquele espaço e, a partir dali, tentar desenvolver culturalmente a região nos próximos três anos.

Têm ao seu dispor um conjunto de salas de exposições e ensaios, ateliers e arrecadações. São nove artistas – fotógrafos, videógrafos, encenadores, humoristas e bailarinos. Ao fim de um mês com as chaves de Les Annexes na mão, montaram uma festa. Claudia ri-se: "Somos um bocado loucos."

A apresentação de sexta feira, 30 de abril, está reservada a convidados. Mas sábado e domingo, 1 e 2 de maio, as portas abrem-se ao público das 11h00 às 18h00. Haverá várias performances de dança entre as duas e as quatro da tarde, com passos de hip hop a ocuparem uma sala de espelhos, outros mais clássicos no grande espaço aberto que o coletivo gere.

Também aí estará em exposição (até julho), a mostra "Entre Ombre et Lumière", que reúne o trabalho de três fotógrafos: o luso-luxemburguês Daniel Fragoso, também conhecido por Black Magic Tea, o luxemburguês Christian Kieffer, que entre outros trabalhos apresenta uma série de retratos dos habitantes de Bourglinster, e o fotojornalista colombiano Luis Carlos Ayala, que ainda na semana passada foi alvejado (sem ferimentos mortais) por milícias colombianas enquanto preparava uma reportagem sobre a exploração dos povos indígenas.

Mas, como dizia Claudia Urhausen à porta do castelo de Bourglinster, isto é só o começo. O coletivo tem um plano traçado para que os próximos meses, que passa pela organização de workshops de criação, mesas redondas, projetos de vídeo e formação nas escolas da região. "Traremos pessoas de for a e tentaremos trazer para o meio do campo o melhor que se faz em várias áreas da cultura", explica Georges Rischette, o coordenador do K+A. Georges foi também presidente da associação DanceXperience ao longo da última década. "Queremos trabalhar em várias formas de arte, do teatro à literatura, da música ao vídeo, da fotografia à arte urbana, com a dança a servir de elemento de ligação entre todas as disciplinas."

A dança contemporânea, área em que Claudia é especialista, é um dos pratos fortes que os K+A vão servir. "Estamos muito interessados em trazer a street art e as influências mais urbanas para o meio da aldeia. Porque é que não haveremos de ter uma coreografia feita por alguém com experiência em parkour", pergunta. Georges concorda com ela. "É preciso desmistificar o ambiente da rua, levá-lo a todo o lado. A cultura, e as novas linguagens da cultura, também têm de ser desenvolvidas a partir do meio rural."

A diversidade do K+A é a fórmula em que apostam para conseguir isso. Se é inegável que a maior parte do coletivo é constituído por dançarinos, a verdade é que mesmo no corpo do bailado as influências são diversas. Há gente que chega da escola clássica, da dança contemporânea, do hip hop. E também há gente que traz novidades – como Daniel Fragoso na fotografia, Diogo dos Santos no vídeo ou Saïf Eddine Settif no humor e na stand up comedy. "Vamos conversar uns com os outros, experimentar uns com os outros, criar uns com os outros. Não somos uma produtora de eventos, somos um laboratório", diz Georges Rischette.

A localização para fazê-lo, dizem todos, é inspiradora. De Les Annexes a primeira vista que se tem é sobre o castelo, e logo a seguir sobre o emaranhado de casas medievais que tornam Bourglinster uma das povoações mais pitorescas do Luxemburgo. Foi aqui que decorreram grande parte das gravações de Capitani, a série luxemburguesa que tem marcado pontos na Netflix. É aqui que funciona um dos mais badalados restaurantes do país (La Distillerie). Então se a terra já era espaço para as artes gastronómicas e audiovisuais, agora há um coletivo a querer transformá-la em aldeia para todas as outras artes. A movida está prestes a começar.

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