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Há poesia em movimento nas paredes da gare de Esch
Cultura 12 7 min. 04.11.2021
Arte urbana

Há poesia em movimento nas paredes da gare de Esch

O artista açoriano António Correia, de 45 anos, anda desde 18 de outubro a pintar um mural na gare da segunda maior cidade do Luxemburgo.
Arte urbana

Há poesia em movimento nas paredes da gare de Esch

O artista açoriano António Correia, de 45 anos, anda desde 18 de outubro a pintar um mural na gare da segunda maior cidade do Luxemburgo.
Foto: António Pires
Cultura 12 7 min. 04.11.2021
Arte urbana

Há poesia em movimento nas paredes da gare de Esch

Tiago RODRIGUES
Tiago RODRIGUES
O artista de rua português Pantonio está a dar uma nova cor à gare de Esch-sur-Alzette. Inspirado pelas suas origens, o açoriano quer levar o mar aonde ele não existe. E mostrar poesia às pessoas que todos os dias se apressam entre aquelas paredes.

Quem por estes dias passa na estação de comboios de Esch-sur-Alzette tem uma agradável surpresa. Ou vai tendo, a cada dia que passa, um novo motivo para parar e olhar. Aquelas paredes, que antes estavam despidas em branco e borratadas com alguns rabiscos, estão agora cheias e profundas como o mar do oceano. As cores são o azul claro, o branco e o vermelho acastanhado, como o minério da história de Esch. As figuras são pássaros que se confundem com peixes, humanos em barcos e ondas. O mural estende-se ao longo de 150 metros, preenchê-lo exige mais de 60 litros de tinta. Um quadro vivo que transforma a gare num aquário gigante, que nos engole no caminho entre as carruagens e a rua.

Em frente à obra de arte, está o artista. De botas e calças largas, pintalgadas com as cores que escapam da parede, e uma camisola laranja que se mistura com um colete refletor, António Correia pode muito bem passar por um qualquer funcionário da gare. Mas ali é Pantonio, artista de 45 anos, vindo da ilha Terceira, nos Açores. Foi convidado pelo Kulturfabrik para pintar o mural no âmbito do projeto artístico Kufa’s Urban Art Esch, que promove iniciativas de sensibilização e educação para a arte naquela cidade. “Conheci a pessoa que faz a curadoria num festival em França. Ele gostou do meu trabalho e achou que se devia fazer qualquer coisa em Esch, também por causa da comunidade portuguesa”, conta.

Tentei que este mural fosse como uma história de banda desenhada que se vai descobrindo, com algum significado.

António Correia, artista de rua

A ideia era inserir a pintura numa zona de muito movimento, como a estação de comboios. “As pessoas movem-se todos os dias para o trabalho, para as suas vidas. No mural há uma série de animais e coisas mais orgânicas que estão em transporte diário, em movimento. A minha ideia é pô-las a transportar o tempo, um relógio, um telemóvel, coisas que se compram e que fazem parte do dia a dia, neste lado mais efémero”, disse o artista, explicando que a viagem é feita por pessoas mas “acompanhada pelos instintos animais”. O mural já tem o conceito, mas ainda não foi batizado, porque o autor “a cada dia muda de ideias”.

Nas obras de Pantonio predominam geralmente as cores escuras, como o azul e o preto, mas neste caso o açoriano optou por algo mais leve, tendo em conta o local e a dimensão da pintura. “Tentei que não fosse algo muito pesado, que fosse como uma história de banda desenhada que se vai descobrindo, com algum significado. Para que todos os dias as pessoas possam descobrir um novo pormenor”. Além disso, há uma ligação com o mar e a cultura portuguesa. “É engraçado, porque às vezes as pessoas perguntam por que é que estou a pintar coisas que se parecem com o mar quando não há mar aqui. É precisamente por isso, para tentar trazer qualquer coisa que não existe cá”.

Falar português no estrangeiro

Enquanto conversamos com António, as pessoas que vão entrando ou saindo da estação olham e comentam. A certa altura foi interrompido por uma mulher, que lhe disse em francês “très jolie!”, ao que ele respondeu “merci beaucoup”, só para depois receber novo comentário, agora em português: “Está bonito!”, disse ela. “Ainda não está acabado”, explicou ele. “Não? Já tenho aqui passado mais vezes e vi que tinha uma cor, depois outra…”. “Vai-se aos detalhes, pouco a pouco”, afirmou António. “Não é para se fazer, é para se ir fazendo. Muito bem, parabéns!”, exclamou a mulher. “Muito obrigado”, retribuiu o artista.

Quando cheguei aqui não sabia se estava em Portugal, só ouvia pessoas a falar português.

António Correia, artista de rua

Aquele diálogo é o resumo do dia do açoriano na gare. “Há imensa gente que diz que está bonito. Algumas colocam questões, dizem que as figuras parecem golfinhos mas pássaros ao mesmo tempo. Gosto disso, porque é esse o nosso papel, fazer questionar. E há outras que se sentem um pouco perdidas”, revelou entre risos. Muitas dessas pessoas falam em português, o que é uma “coisa nova” para o artista, que tem estado a pintar por esse mundo fora. “Quando cheguei aqui não sabia se estava em Portugal, só ouvia pessoas a falar português”.

Apesar de já ter dado a volta ao globo em trabalho, é a primeira vez que António visita o Luxemburgo. Começou a pintar o mural no dia 18 de outubro e o plano era terminá-lo até ao 31, mas está a “tomar um pouco mais de tempo nos detalhes”, então vai continuar até domingo, dia 7, porque “não há necessidade de apressar”. Teve a “sorte” de estar a dormir mesmo ao lado da gare, então às nove começa o dia de trabalho – e só termina por volta das 18h. Uma rotina a que não estava tão habituado. “É diferente de quando estou em estúdio, onde pinto durante a noite e me perco nas horas”.

Antes de chegar ao Grão-Ducado, estava “um pouco nervoso e com poucas expectativas”, tinha receio de que o dia a dia fosse “um pouco chato”, por ter de pintar dentro da estação e passar dias lá fechado. Mas afinal revelou-se uma surpresa. “Pela organização, pelo tratamento humano, depois do dia de trabalho vamos sempre jogar qualquer coisa ou beber um copo. Já fui à cidade passear e tenho andado pela natureza”, conta o açoriano, dizendo estar muito contente com a experiência no país. “Depois isso nota-se no trabalho. Fica mais leve e com uma energia menos negativa”.

Nos últimos 10 anos, António tem andado a viajar e a pintar pelo mundo. O seu trabalho está diretamente ligado à pessoa que é e as suas origens, inspirado nas “ilhas no meio do mar” e nas “influências da natureza”. Com o pincel cria personagens e animais fantásticos, como coelhos, peixes, baleias, tartarugas, sempre em movimento.

Falta poesia às pessoas

Alguns traços são como cordas que evocam a pesca e o mundo marinho dos Açores e da tradição portuguesa. Antes, todo o seu trabalho tinha “bastantes ideias e mensagens mais críticas”, mas, agora, o artista olha para a criação de uma forma diferente. “Apercebi-me que o que faltava às pessoas era um pouco de poesia”.

É essa “poesia em movimento” que caracteriza a obra de Pantonio e também a razão para a escolha desse nome artístico. “As minhas formas são simplificadas e eu gosto de simplificar as coisas. Por brincadeira, e porque gosto de filosofia, está ligado ao panteísmo, que é precisamente isso, a crença de que tudo está conectado. O começo de uma figura é o fim de outra”, justificou. O nome tem também ligação com a pantomima, a arte de comunicar por gestos. “Para mim isso é o desenho. Gestos sem palavras, mas é comunicação”.

Quero contribuir para que as pessoas comecem a reparar nas pequenas coisas e a pensar: ‘se calhar isto quer dizer algo’.

António Correia, artista de rua

Quanto ao impacto que António deseja que a sua obra tenha na gare de Esch, o objetivo passa sobretudo por fazer com que as pessoas “abrandem o ritmo de vez em quando”. “Se for uma parede completamente branca, as pessoas passam sem reparar em nada. O que eu quero é contribuir para que as pessoas comecem a reparar nas pequenas coisas e a pensar: ‘se calhar isto quer dizer algo’”. O português deu o exemplo de uma pessoa que passa na estação todos os dias e foi acompanhando a evolução da pintura. “Ao início pensava que eram bonecos sem significado, mas depois parou e estava a falar com um amigo e a dizer ‘afinal há aqui um plano de ideias’”.

A intenção do artista não é tanto que as pessoas “andem a tirar fotografias”, mas que parem para olhar. “Não é por acaso que a minha linguagem não é muito explícita. Leva algum tempo a perceber, umas vezes parece uma coisa, noutras parece outra. Gosto disso, cria alguma confusão e ao mesmo tempo dá vida ao sítio. Não é tanto fazer os desenhos bonitos, mas dar uma energia diferente ao espaço”, esclareceu.

Depois do Luxemburgo, o próximo projeto de António é uma viagem ao Senegal, onde vai estar numa escola a fazer um workshop com as crianças, e lá vai passar o Natal. Tem também uma grande exposição em perspetiva. De resto, vai pintando, sem grandes planos. “É igual à pintura, vai-se indo por aí fora”.

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