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"Hálito Azul" e "The One". Entre a sala de cinema e a sala de estar
Opinião Cultura 4 min. 20.03.2021

"Hálito Azul" e "The One". Entre a sala de cinema e a sala de estar

"The One", a nova série disponível na Netflix, tem dois portugueses: Albano Jerónimo (na foto) e Miguel Amorim.

"Hálito Azul" e "The One". Entre a sala de cinema e a sala de estar

"The One", a nova série disponível na Netflix, tem dois portugueses: Albano Jerónimo (na foto) e Miguel Amorim.
Foto: DR
Opinião Cultura 4 min. 20.03.2021

"Hálito Azul" e "The One". Entre a sala de cinema e a sala de estar

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Esta semana a atualidade Netflix na Europa passa por uma série com dois atores portugueses e que foi rodada, ainda que simbolicamente, em Portugal. Esta semana também chega ao Luxemburgo mais um filme do Cineclube Português.

A obra que pode ver no cinema Utopia a partir desta, quarta-feira, é um documentário do vimaranense Rodrigo Areias inspirado em duas obras de Raul Brandão "Os Pescadores" e "As Ilhas Desconhecidas".

Os Açores são a vedeta desta "docuficção" que conta a história de uma vila piscatória esmagada contra o oceano pela encosta de um vulcão. Ribeira Quente, na ilha de São Miguel, vive os últimos dias de uma atividade piscatória tal como a conhecemos. A vida continua, mesmo com o peixe a escassear e todos os habitantes lutam arduamente por dias melhores.

Rodrigo Areias leva-nos até à Ribeira Quente para compor uma malha de narrativas deambulantes que cruzam pessoas, personagens e fantasmas que coexistem num território singular e complexo. "Hálito Azul" documenta, a meio caminho entre o antropológico e o poético, esse espaço específico e as pessoas que o habitam, que vivem e morrem no mar, e que, com o decorrer dos séculos, o foram moldando à medida das suas necessidades. Mas o filme também se interessa pelo processo inverso, pelo fascínio que o homem vai alimentando acerca das superstições e mitos locais.

Com argumento de Rodrigo Areias e Eduardo Brito, "Hálito Azul" apresenta habitantes reais da vila pitoresca que serve de base à história, misturando-os com personagens de ficção, interpretadas por Tânia Dinis e José Medeiros que nos conduzem pelas linhas narrativas da obra de Raul Brandão.

"Hálito Azul" é uma produção portuguesa.
"Hálito Azul" é uma produção portuguesa.
Foto: DR

Ver "Hálito Azul" é dramático, mas também é um passeio em balão de ar quente sobre aquela comunidade que o realizador filma sem incomodar, ao som da música de HiFi Kub e de The Legendary Tigerman em acordes oníricos que fazem esquecer as dificuldades daquelas pessoas.

Se "Hálito Azul" é uma obra perfeita para se ver no grande ecrã de uma sala de cinema, "The One", a nova série disponível na Netflix, já está disponível na sua sala de estar há alguns dias. Logo que a plataforma lançou a série, precipitei-me para a ver de enfiada, sobretudo porque há dois atores portugueses: Albano Jerónimo e Miguel Amorim. Jerónimo tem um papel de relevo nesta série, um tanto inquietante, inspirada no romance homónimo de John Marrs.

Estamos num futuro muito próximo no qual os computadores podem analisar o ADN e definir quem é o seu parceiro perfeito. A ideia não é totalmente nova: os utilizadores da plataforma da Amazon já devem ter visto "Soulmates", enquanto que a Netflix propõe "Osmose". E antes disso ainda, quem tiver melhor memória recordará o arrepiante episódio de Black Mirror, "Hang the DJ", que tinha exatamente a mesma premissa. "The One" não traz nada de novo no domínio dos tinders do futuro, a não ser que o êxito da nova invenção é tão grande que toda a população se precipita para saber quem é a sua alma-gémea. Pior, esta série tenta explicar tão bem como funciona o emparelhamento que não consegue ser verosímil pois a teoria está cheia de buracos.

Se conseguirmos esquecer esse defeito, podemos tentar concentrar-nos nos aspetos de "thriller" policial, mas também desse ângulo "The One" estraga grande parte do suspense pois fornece muitas informações demasiado cedo.

Rebecca Webb é uma cientista brilhante e a implacável presidente da empresa que inventou o sistema que permite descobrir as almas-gémeas. Ela lançou o projeto com o brilhante cientista James que se dedicou desde então a uma pacífica vida no campo. Será que essa opção tem algo que ver com o desaparecimento e morte de um amigo comum?

A alma-gémea de Rebecca é a personagem interpretada por Albano Jerónimo. O charmoso surfista Matheus – que devia ser brasileiro mas fala português de Portugal com palavrões e tudo – é um bom rapaz, preocupado apenas em fazer feliz o seu irmão Fábio. Ambos vão ficar envolvidos nas teias de Rebecca Webb e em crimes sucessivos.

A estilosa série vale a pena se for vista a dois e se o casal decidir começar a debater se fariam ou não o teste para encontrar a alma gémea. Garanto que a discussão que daí poderá sair será muito mais interessante do que "The One"...

"Hálito Azul" de Rodrigo Areias, com José Medeiros e Tânia Dinis.

"The One" de Howard Overman, com Hannah Ware, Dimitri Leonidas, Stephen Campbell Moore, Albano Jerónimo e Miguel Amorim.


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