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Gutland: País dos brandos costumes
Vou fugir para este campo de milho que estes luxemburgueses estão loucos!

Gutland: País dos brandos costumes

Vou fugir para este campo de milho que estes luxemburgueses estão loucos!
Cultura 2 min. 20.06.2018

Gutland: País dos brandos costumes

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Ando há algumas semanas para escrever sobre este filme, mas tive de o ver uma segunda vez para saber o que penso sobre ele. Depois de ter assistido à estreia luxemburguesa no LuxFilmFest, regressei ao cinema para poder rever as minhas impressões, muito mais do que para rever o filme.

“Gutland” é uma produção puramente luxemburguesa, ou não fosse o realizador um jovem com as suas raizes no Sri Lanka e na Bélgica. É um “estrangeiro”, nascido em 1983 no Grão-ducado, a assinar um dos filmes que melhor mostram o “Luxemburgo profundo”.

Govinda Van Maele criou um “thriller” rural que descamba para o fantástico durante a segunda metade. E uso esta palavra, com toda a sua carga depreciativa, porque “Gutland” teria sido um bom filme se não decidisse mudar de género a dois terços do caminho para o final.

É difícil continuar as minhas queixas sobre a forma como a mudança de género é má para o filme sem estragar a descoberta desta história, por isso ficamos apenas com esta reclamação de fundo.

Jens, um alemão, aparece numa aldeia luxemburguesa, à procura de emprego. Lentamente se vai descobrindo o passado deste homem que, aparentemente, quer apenas trabalho nas colheitas, mas que traz consigo uma história. Acompanhando Jens, o público será surpreendido com muitos segredos que os outros membros da pequena comunidade escondem.

O ritmo de “Gutland” é lento, mas não aborrece. Van Maele escolheu deixar crescer a tensão calma e pausadamente para o público literalmente participar na comunidade de Schandelsmillen. Para quem vive no Luxemburgo e, sobretudo, numa das aldeias rurais, será fácil identificar arquétipos e “conhecer” muitas das personagens, incluindo o estereótipo da família portuguesa.

A informação é fornecida a conta-gotas, graças a um belo argumento, da autoria de Govinda Van Maele mas também de Razvan Radulescu, que fez o trabalho de “script doctor”.

Cada momento da vida do alemão Jens é revelado de forma inquietante. O seu recrutamento na banda de música é tratado com tal qualidade que ficamos à espera que o pior possa acontecer; um olhar entre o forasteiro e a mulher de um agricultor é mais preocupante do que um duelo no faroeste. A capacidade de criar esta tensão, e uma certa claustrofobia, é uma das grandes virtudes do argumento e da realização. Os atores principais contribuem imenso com as suas prestações para o ambiente de secretismo, enquanto que Marco Lorenzini e companhia dão o toque de luxemburguesismo necessário para obter credibilidade. Destaque para a prestação de Vicky Krieps que, pouco depois da rodagem de “Gutland”, se tornou inacessível para produções desta dimensão por causa da sua participação no oscarizado “Phantom Thread”, de Paul Thomas Anderson.

Govinda Van Maele assinou com “Gutland” a sua primeira longa metragem e conseguiu levar esta obra a vários festivais, incluindo a honra de fazer o encerramento do festival do Luxemburgo.

A grande virtude deste filme incompleto é fornecer um retrato do país agrícola, das pequenas comunidades que vivem quase em autarcia num Estado que fica no centro da União Europeia, e que tem metade de estrangeiros na sua população. “Gutland” é uma bela metáfora do Luxemburgo dos brandos costumes onde as aparências iludem e, de um ponto de vista sociológico, é um dos mais interessantes filmes luxemburgueses do século XXI.

“Gutland”, de Govinda Van Maele, com Frederick Lau, Vicky Krieps, Pit Bukowski, Gerdy Zint, Leo Folschette e Marco Lorenzini.


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