Escolha as suas informações

Grupo brilhante nasce em Cabo Verde
Opinião Cultura 10 min. 11.11.2022
Intelectuais

Grupo brilhante nasce em Cabo Verde

Intelectuais

Grupo brilhante nasce em Cabo Verde

Opinião Cultura 10 min. 11.11.2022
Intelectuais

Grupo brilhante nasce em Cabo Verde

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
Atenção: há um grupo de intelectuais cabo-verdianos disposto a construir uma nova configuração cultural e a fazer valer os seus pontos de vista locais, num espaço público alargado e cosmopolita.

Há um grupo de intelectuais cabo-verdianos disposto a construir uma nova configuração cultural e a fazer valer os seus pontos de vista locais, num espaço público alargado e cosmopolita. Durante três dias, num colóquio internacional sobre a questão da violência colonial, pude testemunhar o seu labor e apreciar a interacção entre os que vivem na diáspora e os que voltaram ou aqui ficaram, na esperança de poder contribuir para mudar as coisas, a partir de dentro. 

Jairzinho Lopes Pereira, nasceu no interior de Santiago, numa família muito numerosa. Aluno brilhante, licenciou-se em História na Universidade de Coimbra, doutorou-se na Finlândia e é hoje investigador da Universidade de VID, Stavanger, na Noruega. Victor Barros também passou por Coimbra, depois pela École des Hautes Études em Paris, e é hoje meu companheiro enquanto leitor diário da Biblioteca Nacional de Lisboa. 

Os dois parece que estão prontos a mudar o mundo, com os seus instrumentos analíticos, o seu rigor documental e a sua capacidade de colocar novos problemas. E não estão sós nesta tarefa, nem tão-pouco na demonstração de que vale a pena adquirir uma sólida formação intelectual, para fazer face aos problemas do presente.

Sem preocupações exaustivas, registo aqui os nomes de alguns outros membros do Grupo: Ângela Coutinho, cientista política de formação também internacional, investigadora do IPRI; Aurora Santos, historiadora cujo labor no Instituto de História Contemporânea da Nova se projecta em publicações em língua inglesa; mais Matilde Mendonça dos Santos, presidente da Biblioteca Nacional de Cabo Verde, cuja tese de doutoramento sobre a Inquisição acaba de sair na Imprensa da Universidade Católica.

O Grupo, note-se bem, não é só composto de historiadores e cientistas sociais, doutorados, com capacidade para falar várias línguas e entrar no questionamento crítico dos mais diversos assuntos. A seu lado, pelo menos nos dias em que decorreu o colóquio, pude conhecer alguns escritores interessados não só na investigação da história colonial de Cabo Verde, situada num quadro comparativo, como nos problemas da educação e organização da esfera pública de opinião. Entres os últimos, destaco os nomes de Rosário Luz, cuja escrita de intervenção despertou em mim grande interesse, e o poeta do Tarrafal, N'Gosy Nelly.

Escrevo estas notas depois de três dias de debates intensos no colóquio em que pude participar na Praia. E confesso que ainda estou contagiado pela energia de todo este grupo que identifico com a Biblioteca Nacional de Cabo Verde. Como se define a agenda desta espécie de ponta de um icebergue, composto por muitos outros intelectuais da diáspora e não só?    

Escrevo do exterior, caindo porventura na tentação de dar coerência a tendências e expectativas que estão longe de se constituir num programa. Não me levem por isso a mal, pois acho que, mesmo assim, vale a pena sistematizar algumas ideias.

A primeira diz respeito a um posicionamento sistemático do Grupo frente aos seus maiores antepassados: os escritores cabo-verdianos que, desde o século XIX, em livros, jornais e revistas, pensaram a questão da condição das ilhas e dos territórios em que viveram. Conforme escreveu, no ano passado, o referido Jairzinho Lopes Pereira – no prefácio à cuidada reedição do clássico "O Chiquinho" (1947) de Baltasar Lopes – , com a leitura deste "romance histórico de fôlego", o que está em causa é "a revisitação de um passado colectivo da nação cabo-verdiana, que o ajuda a apreender os subsequentes dramas humanos, que nos finais da centúria de Oitocentos e inícios da de Novecentos, foram lapidando a mesma nação na arte de resistir  aos flagelos do vento leste, bailando com o vento na desgraça, como muito bem cantou o poeta Ovídio Martins".   

Por sua vez, este ano foi a vez de Matilde Santos reeditar "Contra mar e vento" (1972), livro do médico cabo-verdiano e reputado nutricionista Teixeira de Sousa. Este elenco de reedições críticas, acompanhadas de prefácios ou estudos introdutórios irá, em breve, ser enriquecido com um outro livro apresentado por Victor Barros. Mas a sucessão de títulos e autores prevista é mais vasta: da reedição dos textos de Pedro Cardoso à da revista Claridade, sem esquecer as obras de António Carreira. 

Essa preocupação, quase filológica, pelos textos que formam o cânone da cultura cabo-verdiana, é extensiva à documentação e espólios dos intelectuais, em fase de integração e tratamento na Biblioteca Nacional. Trata-se de uma linha de acção que é indissociável da questão social. Surgem, aqui, diferentes modos de colocar os problemas: das fomes causadas por uma ecologia adversa às vagas sucessivas de emigração; dos legados coloniais que drenaram a população, incluindo contingentes de mão-de-obra barata, sem esquecer  alguns dos seus grupos mais válidos, desviando-os do desenvolvimento produtivo, a começar pela agricultura e pecuária; da questão da água e do seu aproveitamento à questão dos recursos naturais; do aproveitamento geoestratégico das ilhas às fontes de energia e produção de energia eléctrica; das potencialidades do turismo à actividade bancária ou financeira, etc.

Em qualquer dos pontos acabados de enunciar, notei que existia, no Grupo, uma profunda consciência tanto do legado colonial português, como das novas influências e interesses que surgem tanto por parte da China, como dos Estados Unidos, pondo em causa a autonomia da nação. Tais formas de consciência baseiam-se em exemplos concretos, que surgiram ao longo de conversas e no debate do colóquio. 

Aqui é a Carris de Lisboa que veio a Cabo Verde recrutar motoristas de autocarro, oferecendo-lhes melhores salários, mas bloqueando a rede interna de autocarros que acabou por ficar sem profissionais. Ali é a construção de um enorme casino chinês, na Praia, a troco de uma série de contrapartidas que suscitam dúvidas aos cidadãos. Noutro caso, é a construção por parte das autoridades norte-americanas de equipamentos, nomeadamente de um liceu, a troco de concessões em terrenos.

Diria, ainda, a respeito da relação da questão social com o legado colonial que, contrariamente a configurações intelectuais precedentes, o quadro das referências deixou de estar limitado pelo mundo que se exprime em língua portuguesa. É que já não é só o legado colonial que marca a sociedade cabo-verdiana. Num mundo cada vez mais internacionalizado – globalizado como se tem vindo a generalizar sem, contudo, se atender às desigualdades, ao sofrimento e à frustração das expectativas – as respostas protagonizadas pelos intelectuais têm de ser igualmente internacionais. Que não haja dúvidas: esta é a única forma que os cabo-verdianos têm para responder ou, pelo menos, atenuar os termos de tantas trocas desiguais. A lusofonia é, hoje, uma miragem arcaica que só a diplomacia portuguesa continua a alimentar.

A lusofonia é, hoje, uma miragem arcaica que só a diplomacia portuguesa continua a alimentar.

Diogo Ramada Curto

O que pude ver por parte do Grupo da Biblioteca Nacional de Cabo Verde não se limita, pois, a um mero retomar das denúncias e da atribuição de responsabilidades ao colonialismo português. Claro que a história deste mesmo colonialismo e de todas os modos de violência física e simbólica, incluindo nestes últimos as discriminações de género e os diferentes modos de racismo, tem de continuar a ser feita. Se possível, fazendo variar as escalas de análise e procurando perceber o caso de Cabo Verde como padrão a comparar com outros casos, nomeadamente africanos. Todavia, o mais importante é não reduzir os problemas do presente a uma mera questão de legados e, na medida em que for possível fazer a história de Cabo Verde, poder-se-á compreender melhor que a história – rigorosa, crítica e analítica – não obriga, mas liberta.

Ângela Coutinho, entre outros membros do grupo, explicou-me a sua preocupação pela educação e a necessidade de investir verdadeiramente na grande riqueza de Cabo Verde: o seu povo, sobretudo, os seus jovens. A formação de professores tem de ser de uma grande exigência. O que implica, desde logo, uma preocupação constante em disponibilizar livros e construir bibliotecas, incluindo nestas as novas tecnologias da comunicação. Só a educação pode formar cidadãos preparados para a vida democrática, no respeito pela representação política de todos e pela sua responsabilização.

Assim, numa entrevista à Rádio Cabo Verde, dada enquanto assistia à conferência, arrisquei uma sugestão: porque não procurar criar um largo consórcio de instituições e de representações diplomáticas com o objectivo de oferecer a Cabo Verde a grande biblioteca sobre África do Engenheiro Daniel Nunes. Construída ao longo de uma vida por um cabo-verdiano que sempre demonstrou orgulho nas suas raízes, trazer para a Praia, associando-a à Biblioteca Nacional, a maior biblioteca privada sobre África e a escravatura seria um gesto melhor do que todas as famigeradas reparações. Funcionaria como um enorme estímulo à investigação, sem o qual não pode haver ensino ao mais alto nível, permitindo a formação e sedimentação de um escol [elite] .

Ao longo da conferência, fui testemunha da exigência de critérios e das altas metas de debate que todos os membros do Grupo revelaram. Por isso, posso afirmar com toda a certeza que, de um ponto de vista cultural, Cabo Verde não dispõe apenas de um rico património popular, em que se baseia a sua criatividade musical. É que também existe nas ilhas uma rica tradição de criação literária (com um forte pendor autobiográfico e com evidentes preocupações sociais e de resistência política). A que se soma, agora, numa linha em que a obra de António Carreira constitui um dos melhores exemplos, o interesse renovado pela investigação histórica e social do Grupo da Biblioteca Nacional.    

Durante três dias, estivemos encerrados a aprender e a debater na Biblioteca Nacional. À noite, confirmei a impressão que tinha retido de uma viagem anterior: a gastronomia, sobretudo do peixe, é feita no respeito pelos produtos, sem procurar elaborações escusadas. Que bom!

E no dia seguinte à conferência, ainda fui ao Arquivo Nacional, instalado na antiga Alfândega, para ver a parte do legado colonial que mais me interessa. A riqueza da documentação ali existente, infelizmente, não despertou nenhum interesse da parte dos responsáveis portugueses. É certo que o tratamento de um arquivo colonial coloca tantos problemas que acaba por não interessar a ninguém, a não ser eventualmente a um punhado de historiadores. Sobretudo, não oferece a oportunidade de encher o olho, ainda por cima é uma tarefa cara, porque não pode ser limitada às mágicas digitalizações. A conservação do papel, o restauro, as caixas sem acidez, a catalogação, os índices, etc. são operações morosas.

A Fundação Gulbenkian, por exemplo, há alguns anos, ficou-se por uma espécie de inventário do património construído e publicou acerca dele quatro volumes, sobre igrejas, fortalezas, quase nada sobre cidades e pouco sobre palácios e casas.  Porque não estender esse exemplo, agora, a novas formas de cooperação com os arquivos da Praia, S. Tomé, Luanda, Benguela ou Maputo? É que do moribundo Instituto Camões, neste domínio, já nada se espera, nem sequer a presença na abertura do referido colóquio para o qual tinham sido convidados portugueses... pela Universidade de VID, Stavanger, na Noruega.

 (Autor escreve ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.)

 

O Contacto tem uma nova aplicação móvel de notícias. Descarregue aqui para Android e iOS. Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.