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Gravity: Houston, temos um enorme problema
Clooney e Bullock a tentar reparar a máquina de café

Gravity: Houston, temos um enorme problema

Clooney e Bullock a tentar reparar a máquina de café
Cultura 4 min. 27.11.2013

Gravity: Houston, temos um enorme problema

A conquista do espaço é dos episódios mais impressionantes da história da Humanidade no século XX. Na altura em que se celebra o 50o aniversário da morte de John Fitzgerald Kennedy, o presidente americano que mais investiu na descoberta do espaço, o filme "Gravity" assume uma importância acrescida.

A saga espacial interessou o cinema ainda antes de se realizarem as primeiras viagens no cosmos. A corrida protagonizada por russos e americanos incentivou o cinema de Hollywood a aproveitar o filão, participando na campanha do lado dos Estados Unidos.

Algumas décadas depois, a conquista do espaço já não é uma guerra entre países mas uma cooperação mais ou menos hipócrita, que levou, inclusivamente, à criação de estações comuns entre vários Estados.

"Gravity", de Alfonso Cuarón, mostra extremamente bem que em órbita da Terra todos somos simplesmente humanos e que o passaporte conta muito pouco. As primeiras imagens conseguem representar com perfeição a insignificância de um ser humano algures entre a Terra e a Lua, flutuando numa frágil maquineta que se destrói tão facilmente como se fosse um brinquedo em cartão.

Dizem os especialistas que o filme assinado por Cuarón mostra muito bem a vida no espaço: a dificuldade de desapertar um parafuso ou substituir um simples circuito impresso. Tanto a Estação Espacial Internacional como o "shuttle" são reproduzidos com um realismo surpreendente.

Também é verdade que os astronautas se passeiam atados para não se perderem no espaço interestelar e que dispõem de complicados fatos para estarem fora da nave.

Ainda segundo os especialistas, os fatos usados por Matt Kowalski (George Clooney) e Ryan Stone (Sandra Bullock) não são a última palavra da tecnologia, datando dos anos 80 (talvez a produção os tenha comprado em saldo de fim de época). Os passeios espaciais usando os propulsores também não são realistas – afirma quem sabe, e que não sou eu –, pois nenhum astronauta no seu perfeito juízo se passearia à volta da nave espacial sem estar atado a ela. Mas, neste caso, vale a pena sacrificar o realismo: Kowalski às voltinhas no espaço durante a reparação da nave é um dos momentos visuais mais agradáveis de "Gravity".

Apesar de a acção se passar no espaço, este é um dos filmes mais claustrofóbicos dos últimos anos. Talvez seja o efeito psicológico do risco de sufocar por falta de oxigénio ou o enorme vazio que acaba por se tornar esmagador, mas, na verdade, a sensação de peso e de clausura é imensa.Se no início do filme a presença da divertida personagem de Kowalski atenua a tensão, desde que as primeiras explosões acontecem o público não tem mais descanso. Temos a honra de acompanhar – percalços.

O realizador não se limita a mostrar uma saga cheia de riscos. Cuarón – que escreveu o argumento com o seu irmão e uma ajudinha de Clooney – diverte-se a integrar referências a outros filmes ou à própria história da conquista espacial. A mais divertida é a escolha do nome Kowalski, e a mais subtil o facto de a voz de Houston ser a do actor Ed Harris, um repetente em filmes de astronautas.

Mas "Gravity" não é um filme de homens. A heroína é uma mulher. Ryan Stone que, por acaso (?) até tem nome de homem, é a protagonista de "Gravity". Depois de duras provas para a tripulação da nave espacial, a cientista-astronauta vai ficar sozinha no espaço à procura de soluções para uma situação que parece desesperada.

A contribuição de Bullock para o resultado final é determinante, apesar de correr o risco de ser esquecida diante de tantos e tão brilhantes efeitos especiais. A actriz assina talvez o melhor papel da sua carreira; uma prestação que é exigente fisicamente e que depende quase sempre de expressões faciais e pouco mais. Muitas vezes, a protagonista tem de dizer tudo sem falar, o que torna o seu desempenho muito mais louvável.

Finalmente, "Gravity" é talvez o mais válido filme em 3D produzido até agora. Cuarón conseguiu utilizar esta tecnologia de forma brilhante e com visão. As três dimensões permitem uma verdadeira imersão no espaço (se é que isto faz sentido) e contribuem para o referido efeito de claustrofobia (o que também parece um contra-senso). Um conselho: veja "Gravity" no cinema e apenas em 3D por muito bom que possam ser o seu "home cinema" e o ecrã XPTO.

"Gravity", de Alfonso Cuarón, com Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris, Orto Ignatiussen, Amy Warren e Phaldut Sharma.

Raúl Reis