Escolha as suas informações

"Glória". Lição de História na Netflix
Opinião Cultura 1 3 min. 14.11.2021
Crítica de cinema

"Glória". Lição de História na Netflix

Crítica de cinema

"Glória". Lição de História na Netflix

Opinião Cultura 1 3 min. 14.11.2021
Crítica de cinema

"Glória". Lição de História na Netflix

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
A primeira série portuguesa produzida para a Netflix é uma história intrigante com um enredo não permite distrações.

Estamos no final dos anos 60. Um general russo dirige-se ao estúdio da rádio Free Europe para gravar um apelo aos soldados soviéticos para que se recusem a invadir a Checoslováquia.

Logo a seguir, em Portugal, um homem num carro leva a gravação da entrevista para outro local, mas o carro é atacado por dois homens mascarados e armados. O mensageiro entrega a fita.

Quarenta e oito horas antes, em Lisboa, João Vidal, filho de um secretário de Estado português, está prestes a deixar o conforto da casa dos pais por um novo emprego no meio do nada, numa terra ribatejana chamada Glória.

João vai trabalhar para a RARET, um braço secreto da rádio Free Europe que retransmite a programação da emissora ocidental para países comunistas.

Ao chegar a Glória, João Vidal conhece o chefe americano James Wilson e janta com o seu velho colega de faculdade Gonçalo. Os engenheiros da RARET têm por função encontrar soluções quando os soviéticos detetam e interferem nas frequências da rádio.

Uma rápida transação de navalhas vai revelar que João é, nada mais nada menos do que um espião do KGB.

Até aqui não estraguei nenhum do prazer de visionar “Glória”, a primeira série portuguesa produzida para a Netflix. Vai ver que a história é intrigante e o enredo não permite distrações. Este talvez seja mesmo demasiado complicado nos dois primeiros episódios, por causa da multiplicidade de personagens que pode fazer alguns espetadores desistir.Não desista. Deleite-se com os escândalos, a política, o drama e também algumas histórias de amor. É obrigatório ir até ao fim para descobrir o mistério que envolve cada uma das personagens e garanto que todas elas têm algo de inesperado. 

“Glória” é uma série emocionante devido ao enredo envolvente e ao excelente elenco. O público reconhecerá uma série de grandes nomes do cinema, das novelas e do teatro português, mas há também atores estrangeiros de qualidade que desempenham papéis centrais.

A série tem 10 episódios que contêm toda a emoção necessária. Cada um deles começa com uma nova missão e acaba por terminar com mais suspense do que no início.

Mas “Glória” vale sobretudo por ser uma combinação muito interessante de espionagem e História. A série ajudará portugueses a revisitar a história e relembrar os movimentos políticos dos anos 60 e 70. E para os seus amigos estrangeiros será exótica e, muito provavelmente, uma revelação.

Pedro Lopes, que escreveu a série, fez um bom trabalho com o mundo que criou à volta de João, num contexto bastante invulgar para uma série de espionagem. Em vez de um argumento que envolva armas ou questões militares, a intriga central constrói-se em torno da guerra da informação que, naquela época, se fazia pelas ondas de rádio. A ação, centrada na RARET, revela um aspeto da Guerra Fria pouco conhecido, mas fundamental na luta pela informação e pela desinformação. Se hoje temos o Facebook e outras redes sociais, nos anos 60 e 70, a rádio era crucial na guerra entre os países ocidentais e o bloco soviético.

Sem este contexto bem específico, “Glória” seria apenas mais uma série de espionagem com a Guerra Fria como pano de fundo, com espiões e contra-espiões que nunca percebemos bem para que lado trabalham.

João Vidal, a personagem central, tem uma posição clara na guerra que se trava nos bastidores, mas o seu objetivo principal é passar despercebido e ser considerado apenas como qualquer outro engenheiro. O jovem irrita-se quando é colocado numa casa chique a pedido dos seus poderosos pais. Ele quer ser discreto e qualquer ostentação chama atenção. Mas a família Vidal também lhe oferece cobertura: ninguém acredita que o filho do secretário de Estado possa trabalhar para os soviéticos. Ele que até lutou na guerra em África...E esse é outro elemento intrigante que deixa vontade de ver “Glória” apesar das dificuldades iniciais: por que razão João Vidal defende e trabalha para o bloco soviético? 

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.