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George Steiner. "Uma espécie de sobrevivente".
Cultura 5 min. 04.02.2020

George Steiner. "Uma espécie de sobrevivente".

George Steiner. "Uma espécie de sobrevivente".

Boris Roessler/dpa
Cultura 5 min. 04.02.2020

George Steiner. "Uma espécie de sobrevivente".

Escreveu sobre a Europa entre muitas coisas. Era um pensador em que a escrita tocava a genialidade. Para ele, só a tradução permitia atingir o significado das coisas. Morreu um dia depois do Brexit.

Desapareceu esta segunda-feira, com 90 anos: George Steiner deixou o número dos vivos. Nada fazia prever que fosse tão tarde. " Na minha escola em Paris, onde havia muitos judeus, só dois sobreviveram. Todos os outros foram mortos. Portanto, é um milagre ter sobrevivido", confessou em entrevista ao semanário português Expresso.  

Até ao último dia continuava a traduzir livros, todas as manhãs. Fazia-o apenas como um exercício para se manter vivo. " Todos os dias acordo e vou para o escritório — onde tenho grande parte da minha biblioteca — e escolho um livro qualquer. Abro-o ao acaso e traduzo um fragmento. Faço-o para treinar as minhas quatro línguas, pois não quero que fiquem enferrujadas", disse na citada conversa. 

As línguas fizeram-no ficar Europa. Quando a família fugiu dos nazis, decidiu não ir para os EUA.  "[As línguas]  são o centro da minha vida interior e a razão por que acabei por ficar na Europa, o continente de onde a minha família fugiu. Na América teria tido mais oportunidades profissionais, mas é uma civilização monoglota e não está interessada em línguas estrangeiras. Então, só ficando na Europa teria a possibilidade de usar as outras línguas", confessou na citada entrevista. Um habito que começou no berço. "  A minha mãe costumava iniciar uma frase numa língua e acabá-la noutra, sem sequer se aperceber! Portanto, para mim, o francês, o alemão e o inglês eram completamente nativos. O italiano veio um pouco mais tarde".

Para falar verdade, também foi Hitler que o obrigou a decidir. " Eu tinha ido visitar o meu pai a Nova Iorque. Almoçámos juntos num restaurante que ele adorava. Contei-lhe que tinha tido duas ótimas propostas de duas universidades americanas de topo. Repare, os meus dois filhos já eram nascidos, eu tinha uma família para sustentar. Portanto, esta era uma decisão da maior importância para as nossas vidas. Ele já estava doente. Ficou a pensar e limitou-se a comentar: 'Só tu podes decidir. Mas se deixares a Europa Hitler terá ganho.' Liguei à minha mulher, que estava aqui em Cambridge, e disse-lhe: 'Não suportaria sentir de novo o desprezo contido nessa frase do meu pai. Seja o que for que tivermos que fazer, ficamos na Europa.'"  

Steiner, Francis George. Nasceu em Paris no dia 23 de abril de 1929, filho de pais judeus, que emigraram de uma Viena já antissemita, aos 11 anos levado para Nova Iorque, depois de ter mais uma vez escapado à morte em Paris.  Quase todos os seus colegas judeus do Lycée Janson-de-Sailly foram mortos pelos nazis. Estudou em Chicago e Harvard, depois em Oxford. Steiner falava de como ler literatura após Freud, Marx e Lévi-Strauss. Passou os melhores anos da sua vida a lecionar literatura comparada perante alunos de todo o mundo. Escreveu para a “New Yorker”durante mais de trinta anos.

O nazismo e o Holocausto foram temas dominantes na obra de George Steiner, que viveu fascinado com a linguagem e com o poder da literatura a par da sua impotência face a acontecimentos como o extermínio dos judeus durante a II Guerra Mundial.

"Espanta-me, por ingénuo que possa parecer às pessoas, que se possa usar a linguagem para amar, construir, perdoar, mas também para torturar, para odiar, para destruir e para aniquilar", afirmou em 1990 em palestras na Universidade de Glasgow (Escócia).

A nossa cultura é filha de um desastre primordial e mítico que formou as línguas. Como se a queda da torre de Babel por vontade de Deus, que dividiu os povos e multiplicou as línguas fosse o pecado original que nos permite pensar.  

Segundo Eduardo Sterzi, num interessante artigo sobre Steiner, “Dialética do desastre”: “ 'A Morte da Tragédia' e 'Depois de Babel', separados por pouco mais de uma década em suas primeiras edições, são, ainda hoje, possivelmente os mais altos cumes na vasta e multifária bibliografia de George Steiner. Ambos oferecem demonstrações irrefragáveis daquela húbris intelectual tão característica de sua obra, daquela desmesura de rematado polímata que não se intimida mesmo diante dos maiores desafios, e antes os persegue com gosto, com paixão”. Conforme analisa Sterzi, todos os escritos de Steiner “são, no fundo, lamentos pela perda de alguns padrões exemplares de civilização; padrões que, no entanto, talvez nunca tenham existido integralmente senão como ideais (sendo a relutância em admitir essa provável inexistência o limite maior de sua crítica cultural, mas também a razão de sua singularidade frente à apatia disseminada das rotinas de leitura)”. Segundo o crítico brasileiro, Depois de Babel, que, nas suas palavras, "apresenta-se, à primeira vista, como um estudo sobre a tradução, mas é também um magistral exercício de literatura comparada e de filosofia da linguagem”. Steiner deixa explícita a dialética inerente ao declínio: a “ruína de Babel” pode ser um “fardo”, mas é também “esplendor”. Não por acaso, o estudo é dedicado aos poetas, aqueles que, de acordo com Steiner, dão “vida à linguagem” e sabem que “o ocorrido em Babel foi tanto um desastre quanto (e essa é a etimologia da palavra desastre) uma chuva de estrelas sobre o ser humano, uma chuva fecundante”. De acordo com Sterzi, a “ideia central do livro […] é a de uma coincidência integral entre compreender e traduzir e, portanto (o que pode soar mais controverso), entre tradução e linguagem – e, dada a primordialidade da linguagem na configuração da cultura, entre tradução e cultura. […] Propõe Steiner, "a cultura é uma sequência de traduções e transformações de constantes".  


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