Escolha as suas informações

Galvão Teles. “O primeiro filme feito no Luxemburgo deixou-me uma mossa na cabeça”
Cultura 10 min. 15.11.2019

Galvão Teles. “O primeiro filme feito no Luxemburgo deixou-me uma mossa na cabeça”

Galvão Teles. “O primeiro filme feito no Luxemburgo deixou-me uma mossa na cabeça”

Cultura 10 min. 15.11.2019

Galvão Teles. “O primeiro filme feito no Luxemburgo deixou-me uma mossa na cabeça”

Vanessa CASTANHEIRA
Vanessa CASTANHEIRA
Luís e Gonçalo Galvão Teles vieram ao Luxemburgo para o Festival de Cinema Português. Ao Contacto falaram da dificuldade que é filmar em Portugal, do filme que os juntou não como pai e filho, mas como cineastas e dos momentos que Luís recorda na sua passagem pelo Grão-ducado e a sua relação com o cinema luxemburguês.

São duas gerações de cineastas, mas de uma família com longa tradição em Direito. Como é que o cinema se tornou um projeto para a vida e de família?

Luís Galvão Teles: Na família não havia tradição artística ou cinematográfica nenhuma e fazia-me falta. Ouvia-se alguma música clássica, mas não existia tradição cultural e nos anos 60 descobri os cineclubes.

Gonçalo Galvão Teles: Eu fui ao contrário. Reagi e fui para Direito convicto porque tinha educação artística a mais. O meu pai veio para o Luxemburgo quando eu tinha 13 anos e começámos a descobrir a Europa. Já sabia que íamos conhecer uma catedral ou um museu. O que eu queria era ver o estádio do Nápoles onde jogava o Maradona. [risos]

Porque razão mudou de opinião?

GGT: Não foi apenas uma coisa, só o Benfica é que é só um, mas lembro-me do dia em que uma monitora me disse que era impossível seguir Direito com a criatividade que tinha. Marcou-me porque nessa área não nos pedem para ter pensamento crítico ou criativo. A meio do curso senti que era limitador.

Já o Luís conhece bem o Luxemburgo. Foi jurista no Tribunal de Justiça Europeu. Como descreve os anos que passou cá?

GGT: Foi aquela altura da vida em que tive tempo. Foram momentos fantásticos.

A sua história cruza-se com a do cinema luxemburguês e participou inclusive na primeira longa-metragem. Recorda-se desses primeiros passos da filmologia do país?

LGT: Participei no “Schacko Klak”. Ainda hoje tenho um hematona na cabeça por causa da filmagem. Como na altura não havia GPS, eu tinha apenas umas noções vagas do local das filmagens e numa estrada apertada, a grande velocidade e com o tejadilho aberto embati num buraco e bati com a cabeça. O primeiro filme feito no Luxemburgo deixou-me uma mossa na cabeça.

A ligação ao cinema luxemburguês continuou?

LGT: Continuou e o Luxemburgo deu-me uma recompensa ao considerar-me um dos pioneiros do audiovisual no país. Continuei a trabalhar com a Samsa, que é também sócia-fundadora da minha sociedade [Fado Filmes]. Depois veio “O retrato de família”, que foi parcialmente rodado no Luxemburgo. Também o “Elas”, um projeto bem mais ambicioso, foi produção da Samsa e coprodução minha e que teve a participação de atrizes internacionais como Miou-Miou, Marthe Keller, Marisa Berenson, Carmen Maura, entre outras, viajou por todo o mundo e foi quase todo gravado cá.

O seu plano era ficar tanto tempo (18 anos)?

LGT: Cheguei ao Luxemburgo com a ideia de ficar um ano e voltar para fazer filmes em Portugal. Tal como acontece no panorama dos livros de Thomas Mann fui ficando, fui ficando, fui ficando e só voltei muitos anos depois.

Quais os locais que tem mais na memória?

LGT: Bridel continua a ser uma referência. Foi o primeiro local que visitei para viver, era uma casa e ao fim de um mês estava lá a morar, ao fim de um ano tinha comprado a casa. Era ao lado do bosque. Tinha finalmente encontrado o meu pouso. Sabia que o Luxemburgo era uma passagem. Era uma passagem em que tinha de me reencontrar e de reencontrar a minha relação com o cinema porque as coisas em Portugal estavam muito complicadas. Encontrei em Bridel o ponto que foi a base da minha vida durante os anos que estive cá.

Porque diz que se tinha de reencontrar com o cinema?

LGT: Depois daquele sonho do 25 de abril e da Revolução e do cinema de rua, como o que fizemos no 1 de Maio com o “O Colectivo” e da minha primeira longa-metragem “A Confederação”, entrámos em recessão revolucionária. Chegaram os anos 80 e 90, as coisas começaram a ser difíceis e eu cometi o erro, embora não o considere como tal , de fazer uma comédia. No cinema português, a comédia era considerada um pecado. Era uma comédia, ainda por cima com o meu grande amigo Nicolau Breyner, que estava conotado à direita enquanto eu estava à esquerda. E fui massacrado.

Porquê massacrado?

LGT: Pela crítica, porque uma pessoa realizou um filme como a “Confederação” que era uma espécie de repensar a revolução em função do futuro e não admitiu que o cinema pudesse ser uma fonte de entretenimento para um realizador e para um actor. O cinema pode ser político, comédia, dramático ou, por exemplo, uma fonte de entretenimento. O cinema tem pode ter todas essas potencialidades.

Veio revoltado?

LGT: Revoltado não, mas disposto a começar de novo.

Gostaria de voltar?

LGT: Gostava de voltar para aquela casa perto do bosque e escrever.

E quem gostava de reencontrar?

LGT: O fisioterapeuta que me ajudou na alura e que era capaz de me resolver esta dor de costas. [risos]

Vieram ao Luxemburgo no âmbito do Festival de Cinema Português com “Gelo”, o filme que vos juntou na correalização. Era um projeto ambicionado entre pai e filho e entre realizadores?

LGT: Ao início não estava decidido, mas tanto a arte como o cinema são simultâneamente individuais e coletivos. Talvez o cinema seja mais e em “Gelo” só um de nós não chegava. Uma das formas mais interessantes de criar é criar conjuntamente e aqui foi desafiarmo-nos um ao outro.

GGT: O financiamento para fazer “Gelo” chegou com condições difíceis de pressão porque tinha de ser gravado naquele momento o que levou o meu pai a uma pressão muito grande. Era um filme complexo e eu tinha de reescrever para o adaptar à rodagem. A certa altura estávamos a trabalhar em conjunto no argumento e na realização.

“Gelo” retrata a vida, a morte, as memórias e as vivências num género de ficção científica?

LGT: Uma ficção científica especial. O género responde a determinadas regras e “Gelo” é uma ficção livre sobre o imaginário do futuro. Não queriamos fazer fição, mas um tema de ficção científica,

GGT:Não sou um cineasta nem especialista de género. Adoro cinema de personagens que são sempre a componente mais importante e “Gelo” tinha personagens da fantasia e da ficção.

Além deste filme que marcou o arranque do festival há ainda a comédia. “Refrigerantes e canções de amor” no programa do festival. Um registo totalmente diferente.

LGT: Entre a comédia e a farsa porque é mais arquétipa, menos realista e com personagens mais esquemáticas e com tipificação de situações. É um argumento do Nuno Markl e foi tratado com raios de sátira.

O Luís também não se deixa fechar num género cinematográfico?

LGT: Se olharmos para a minha filmografia como realizador ela é um zig zag. Para mim, o cinema é uma descoberta e cada filme é uma aventura. Depois da reflexão que fizemos em “Gelo” surgiu esta oportunidade e apeteceu-me divertir-me a fazer um filme. Divertir-me musicalmente e fisicamente e não só pelo prazer intelectual.

“Nothing Ever Happened”, o filme do Gonçalo, recebeu o apoio financeiro do Eurimages. Estes apoios são importantes?

GGT: Bem, foi um apoio de 160 mil euros e o filme tinha um orçamento de um milhão e meio e que não conseguimos atingir, mas este tipo de fundo funciona logo como reconhecimento o nosso trabalho. Ter o apoio do Eurimages é ter um selo de qualidade ou uma chancela.

LGT: O Eurimage apoia filmes em cooprodução e abre portas com outros países e produtores. Contribuiu para a internacionalização dos filmes. Há outros fundos, mas este coloca-nos logo no mercado internacional com uma posição diferente.

E os apoios financeiros portugueses?

GGT: É melhor não falar. É sempre um recomeço e uma espera.

Porquê?

LGT: A burocracia é terrível. Há a utilização do direito para controlar as pessoas através de virgulas e de subtextos. Hoje estamos a tentar cumprir regras jurídicas e não a fazer filmes. A burocracia é infernal, com recursos e mais recursos, concursos atrasados, não há cativações por causa do orçamento europeu. É um sistema que despreza a cultura.

GGT: É uma questão de vontade política. Voltou-se a falar de ultrapassar o 1% [de orçamento] para a cultura, mas ouvimos isso desde sempre e o meu pai está cá há 50 anos.

Não há vontade política?

GGT: A cultura está sempre sujeita a critérios economicistas. Embora isto seja mais a luta do meu pai, disse-o na presença do atual primeiro-ministro [António Costa] na estreia de “Soldado Milhões”. Temos de decidir se somos um país que faz coisas ou se também queremos ser um país que conta a história das pessoas que o fazem e fizeram. Um país sem cultura não é nada. Não estamos a falar de 20%, mas em ultraspassar o 1% de forma a apostar na política cultural e educacional.

Estão-se a produzir mais filmes em Portugal?

LGT: Desdobram-se os subsídios para que haja muitos produtos. Nunca houve um trabalho sério para termos uma mini-indústria com condições decentes para que os nossos filmes tivessem a qualidade média do cinema europeu. Temos um nicho de cinema de arte que consegue entrar em festivais, mas não há condições para cinema narrativo com histórias de gentes que merecem ser contadas. A sociedade portuguesa está cheia de temas que têm de ser contados.

No entanto, com todas as dificuldades o cinema português tem tido um reconhecimento notório além-fronteiras. Há especificidades ou é um case study?

GGT: O cinema português é de facto um case study, no sentido, em que é um país pequeno, com filmografia escaça quando comparada com outros paises, mas que consegue ter uma penetração enorme em festivais e premiações. Em cinco anos, Portugal ganhou três vezes Urso de Ouro, no Festival de Berlim, com as curta-metragens de Leonor Teles, Diogo Costa Amarante e João Salaviza. Não há nenhuma cinematografia no mundo que tenha conseguido três grandes prémios em tão curto espaço de tempo. Os reconhecimentos sucedem-se, mas continuamos com dificuldade em penetrar no mercado internacional.

Também tem sucesso nas salas portuguesas?

GGT: Este ano está a ser excecional com “Snu”que em janeiro ou fevereiro já tinha mais espetadores que o filme mais visto de 2018. Depois explodiu com “Variações”, um sucesso como há muito não se via no cinema português e, agora, com “Herdade”, que até está mais para festival do que para sala, mas que tem mais de 80 mil espetadores. No entanto, é um paradoxo ser-se mais reconhecido internacionalmente que dentro de Portugal.

Como resumem os 100 anos do cinema português?

GGT: É um protótipo. Para fazer bom cinema tem que se deixar os cineastas fazerem cinema. Há que criar condições.

LGT: É estabelecer bases, dar importância às empresas de produção. Precisamos de ter as bases para pelo menos uma uma mini-indústria.

Porquê um protótipo?

GGT: Porque não há uma rede instalada. Por exemplo, o Pedro Almodóvar ou o Woody Allen têm uma máquina montada e acabam um filme e já estão a pensar noutro. Já o Miguel Gomes, com o sucesso de “Tabu” que lhe permitiu fazer o ambicioso “Mil e uma noites”, está aos papéis e não consegue reunir condições. 


Notícias relacionadas

Sara Sampaio no Grão-Ducado?
Vamos poder ver a top model, sem asas, no filme "Carga" que passa no Festival de Cinema Português no Luxemburgo. Um acontecimento com outras descobertas, como a "Peregrinação" de João Botelho.
Crítica de cinema: Devagar devagarinho
Há décadas que milito para que os portugueses do Luxemburgo possam ver cinema português no Grão-ducado. As obras portuguesas continuam a ser exceção nas salas e as raras oportunidades são as mostras organizadas por estruturas associativas ou pela Embaixada de Portugal no Luxemburgo.
“A Canção de Lisboa” é um dos maiores êxitos de bilheteira de 2016. O filme será projetado no Luxemburgo no dia 15 de novembro.
Quinzena de Cinema Português no Luxemburgo: Como manter excelentes relações com a família
Todos sabemos que quando vamos “lá abaixo” não temos tempo para filmes. Já todos passámos à porta de um multiplex num centro comercial e pensámos: “Amanhã vou ver este filme português”. E todos nós acabamos por preferir ir apanhar sol numa esplanada ou decidimos aceitar o convite da tia Maria José para jantar, ela que já nos anda a dizer para ir lá a casa há três Verões...
Quando a francesa Fanny Ardant dirige uma paleta de grandes actores europeus, o resultado chama-se “Cadências Obstinadas”