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Fotografia do Luxemburgo conquista Portugal
Cultura 6 min. 16.10.2020

Fotografia do Luxemburgo conquista Portugal

Fotografia do Luxemburgo conquista Portugal

Foto:Paul di Felice
Cultura 6 min. 16.10.2020

Fotografia do Luxemburgo conquista Portugal

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
De Braga a Lisboa é possível ver, ao longo deste mês e até meados de novembro, o trabalho de vários fotógrafos com ligação ao Grão-Ducado.

É uma autêntica embaixada aquela que, por estes dias, representa o Luxemburgo em Portugal. Seis fotógrafos exibem os seus trabalhos em Lisboa e em Braga e a ponte entre as duas cidades é feita por Paul di Felice, que comissaria as exposições de quatro artistas visuais no festival Imago Lisboa - onde está também patente uma mostra da lusodescendente Cristina Dias de Magalhães - e se apresenta com uma exposição individual nos Encontros da Imagem, em Braga. 

Fotografias de Paul di Felice, na exposição de Braga.
Fotografias de Paul di Felice, na exposição de Braga.
Foto: Paul di Felice


Esta dupla participação explica-se por uma ligação aos eventos que já tem alguma história.   

"O Rui Prata, diretor do festival Imago Lisboa, pediu-me para ser um dos quatro comissários convidados para esta segunda edição do festival. Isto acontece, provavelmente, porque trabalho desde os anos 80 no campo da edição e os nossos caminhos já se cruzaram muitas vezes, nomeadamente em Braga, onde foi criado o primeiro festival de fotografia, e no Luxemburgo, como parte do Mês Europeu da Fotografia", conta Paul di Felice ao Contacto. 

 No festival da cidade minhota, este ano subordinado ao tema "Génesis" e onde tem patente a exposição "Dichotomies Écraniques" ("Dicotomias de Ecrã"), o fotógrafo apresenta fotografias que partem de imagens dos media para representarem dicotomias ou distâncias e onde a mensagem cruza diferentes abordagens artísticas, da linguagem poética à política e a da realidade confrontada com a ficção. 

"Desde os anos 90 que imagens dos meios de comunicação, principalmente ecrãs de televisão, me têm interessado como material de reflexão e de criação plástica", escreve Paul di Felice no texto que acompanha a mostra que pode ser vista no Museu dos Biscainhos de Braga, até 31 de outubro. 

Com essa base como ponto de partida, o fotógrafo cria dicotomias ao re-fotografar detalhes de imagens de eventos atuais que depois faz combinar com as suas fotografias diárias, "tiradas, de alguma forma, na mesma temporalidade, mas em locais diferentes do mundo". "A minha série 'Dichotomies Écraniques' foi escolhida como parte do festival de Braga sob o tema 'Génesis'. No fundo, trata-se da génese da imagem e da sua evolução através de um processo criativo que encontra as suas fontes nos acontecimentos atuais e na vida quotidiana", explica ao Contacto.  

Fotografias de Paul di Felice, na exposição de Braga.
Fotografias de Paul di Felice, na exposição de Braga.
Foto: Paul di Felice

Já no Imago Lisboa coube-lhe juntar quatro fotógrafos luxemburgueses, com olhares e perspetivas artísticas diferentes, unindo-os num percurso que pode ser visto até 8 de novembro, nas Carpintarias de São Lázaro, na capital portuguesa, com o apoio da Embaixada do Luxemburgo em Portugal. "Eu queria trabalhar no âmbito do Imago Lisboa sobre um tema que pudesse agrupar artistas cujo trabalho tenho podido acompanhar ao longo de muito tempo e com os quais já fui capaz de realizar vários projetos artísticos. Descobri muito rapidamente uma ligação que poderia unir estas diferentes linguagens fotográficas. Os conceitos de hibridismo, identidade, deslocamento, separação e delimitação estão no centro das temáticas, que evocam também as questões geopolíticas, sociais e filosóficas." 

Sob estes tópicos, Paul di Felice levou até à capital trabalhos de Pasha Rafiy, Patrick Galbats, Silja Yvette e do lusodescendente Marco Godinho. Cada um deles oferece uma visão reflexiva e individual sobre as questões mais abrangentes e universais que enumerou. "Mais do que documentar uma situação, os fotógrafos selecionados optam por expressar a sua prática artística abordando sujeitos reais de uma forma muito pessoal, com uma variedade de visões, passando de pontos de vista objetivos para reflexões subjetivas e tratando esses sujeitos ou assuntos de forma periférica", detalha. 

Unidos pela ligação ao Luxemburgo, cada um dos elementos deste grupo de fotógrafos tem também diferentes origens, pelo que os trabalhos acabam por refletir tanto a multiplicidade cultural do Grão-Ducado, como influências de outros contextos nacionais. "O artista luxemburguês de origem húngara, Patrick Galbats questiona, com a sua série 'Hit Me One More Time', a situação política, através de imagens que transformam as banalidades quotidianas em sinais repressivos de nacionalismo populista", descreve Paul di Felice. 

Mais pessoal e introspetivo é, segundo o fotógrafo e curador, o trabalho apresentado por Marco Godinho, criado durante as filmagens do seu vídeo "Left to Their Own Fate" ("Deixado ao Seu Próprio Destino"), apresentado na Bienal de Veneza de 2019, no Pavilhão do Luxemburgo. As fotografias do artista luso-luxemburguês "partilham a atmosfera refinada do filme, documentando a ação com o seu irmão, um ator de teatro". "Como acontece muitas vezes nas suas obras artísticas multimédia, a concetualização do dispositivo de apresentação desconstrói a representação, tornando mais complexas as referências filosóficas, poéticas e políticas da imagem", refere Paul di Felice sobre esse trabalho. 

Por sua vez, Pasha Rafiy mostra na sua nova série, intitulada "Tehrangels", o confronto entre os lugares que tem fotografado, nos EUA e no Irão. "Ao jogar com as semelhanças de determinados detalhes e situações, ele descontextualiza os lugares e desafia o espectador no seu processo de identificação. E a beleza interior que emana do confronto das fotografias esbate as fronteiras entre nações inimigas", exemplifica o curador. 

O leque de fotógrafos representados no Imago Lisboa, sob curadoria de Paul di Felice, fica completo com a fotógrafa de origem alemã Silja Yvette, cujas fotografias evocativas criam aquilo a que a própria designa de "um diálogo de híbridos dicotómicos". Nas suas fotografias, a artista visual evoca lugares que são o resultado de uma materialização de noções abstratas como as de tensão, força e expansão.  

Toda esta diversidade, que traduz parte da riqueza do Grão-Ducado, torna simultaneamente desafiante tentar encontrar uma linguagem que o sintetize e que possa refletir uma arte da fotografia luxemburguesa. "É uma questão difícil porque pressuporia uma arte da fotografia específica do Luxemburgo. O que é ótimo nestes artistas é o seu multiculturalismo: o Marco Godinho, luxemburguês-português que vive entre a França, o Luxemburgo e a Alemanha; o Patrick Galbats, um luxemburguês de origem húngara que vive em Bruxelas; o Pasha Rafiy, um iraniano-luxemburguês que vive em Munique; e a Silja Yvette, originária da Grande Região (do lado alemão) e que vive em Berlim". 

Se há então palavra que possa definir este grupo é "internacionalização", onde o Luxemburgo assume, ao mesmo tempo, um papel confluente, centralizador e expansivo de diferentes origens, culturas e manifestações. "Eles são artistas internacionais e é esta dimensão internacional que se torna, felizmente, cada vez mais característica para a fotografia e a arte, em geral, no Luxemburgo", assinala Paul di Felice. 

No Imago Lisboa, há ainda para ver uma exposição individual da luso-luxemburguesa Cristina Dias de Magalhães, que apresenta o seu mais recente trabalho, "Instincts. Same But Different".

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