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Filmpräis e Discovery Zone: A semana do cinema luxemburguês
Adivinha quantos Óscares ganhou o Luxemburgo...

Filmpräis e Discovery Zone: A semana do cinema luxemburguês

Adivinha quantos Óscares ganhou o Luxemburgo...
Cultura 4 min. 12.03.2014

Filmpräis e Discovery Zone: A semana do cinema luxemburguês

Na madrugada de domingo, o Luxemburgo descobriu que um filmezinho simpático sobre um homenzinho que mais parece o resultado do acasalamento entre um bidão e um robô da saga "Star Wars" podia dar tantas alegrias a tanta gente.

O Óscar para "Mr Hublot" originou uma vaga de justificado nacionalismo, em que se agitaram orçamentos em vez de bandeiras e ideias em vez de passaportes. Para quem cá vive, o vencedor do Óscar para a melhor curta-metragem de animação é um filme luxemburguês, digam o que disserem franceses ou belgas.

A excitação durou até à entrega dos galardões da academia de cinema luxemburguesa: os Filmpräis. O Luxemburgo também tem a sua academia e os seus "académicos", que são, sobretudo, realizadores, actores, produtores, mas também críticos, entre os quais este vosso amigo. Fundada em 2012 pelas associações que representam estas profissões, a D'Filmakademie tem como objectivo encorajar a criação cinematográfica nacional e promover o cinema luxemburguês. Para que a academia pudesse funcionar e pagar as facturas de um evento como a entrega dos prémios, juntaram-se a ela o Film Fund e o CNA – Centre National de l'Audiovisuel.

A cerimónia dos Filmpräis teve lugar sexta-feira com a presença de quase todos os profissionais da Sétima Arte luxemburguesa. Segundo a academia, existem no país cerca de 700 pessoas que vivem do cinema; na festa de sexta-feira deviam estar cerca de 500.

O evento mereceu ainda a presença do primeiro-ministro, Xavier Bettel, e de dois ou três ministros. O simpático "Mr Hublot" voltou a ser consagrado. Uma feliz coincidência com o resultado dos Óscares de Hollywood, já que os membros da academia de cá foram obrigados a encerrar a votação dias antes da cerimónia americana.

Contudo, o grande vencedor da noite foi o filme com mais êxito junto do grande público em toda a história do cinema do Grão-Ducado: "Doudege Wénkel" obteve o prémio principal, mas acumulou ainda o prémio para a melhor contribuição artística, entregue ao protagonista Jules Werner, e para a melhor contribuição técnica, obtido pelo chefe de fotografia, Jako Raybaut.

Foi uma festa com muita gente importante, com um imenso trabalho de cobertura de imagem – efectuado por portugueses, diga-se de passagem – e com jantar incluído.

O fausto da cerimónia dos Óscares luxemburgueses tornou a sessão de encerramento do outro momento alto da cinefilia luxemburguesa ainda mais tristonha e lamentável. O festival de cinema da cidade do Luxemburgo, o Discovery Zone, entregou os seus prémios no dia seguinte, sábado. Mas não contou com ministros, tendo inclusivamente a anunciada ministra da Cultura, Maggy Nagel, presente na véspera no Filmpräis, enviado um secretário para a representar. As presenças políticas relevantes foram a burgomestre Lydie Polfer, que não podia escapar, já que o festival leva o nome da sua cidade, e Colette Flesch, presidente da associação sem fins lucrativos que gere o Discovery Zone.

A cerimónia de entrega de prémios foi marcada por ausências inaceitáveis, por exemplo, de membros dos diferentes júris. Aliás, a edição 2014 do festival conheceu a sua primeira ausência quando Julie Gayet, anunciada para fazer parte do júri, informou a organização algumas semanas antes que afinal agora já não podia vir ao Luxemburgo.

Mais do que justificada foi a ausência do realizador do filme vencedor do prémio principal do festival. "Manuscripts don't Burn", de Mohammad Rasoulof, foi a obra seleccionada pelos jurados, mas o realizador está em prisão domiciliária. Uma das razões para que Rasoulof não possa sair do seu país, o Irão, é porque o seu filme conta a história de dois assassinos contratados que têm por missão matar um escritor... incómodo para o regime.

O público do Discovery Zone não fez uma opção tão política como os jurados. Os espectadores votaram durante o festival e escolheram o original filme de Spike Jonze, "Her", no qual um homem se apaixona pela voz do seu computador.

O festival trouxe ao Luxemburgo uma série de filmes interessantes, mas ainda não conseguiu afirmar-se claramente como o festival número um do país. Estranhamente, e apesar de dispor de um orçamento invejável, o Discovery continua a ter resultados de público semelhantes ao outro grande evento cinematográfico luxemburguês que é o CinÉast.

Raúl Reis