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Filme "El buen patrón". Patrão fora
Opinião Cultura 1 3 min. 19.06.2022
Crítica de cinema

Filme "El buen patrón". Patrão fora

A criação interpretativa De Javier Bardem é de uma profundidade surpreendente.
Crítica de cinema

Filme "El buen patrón". Patrão fora

A criação interpretativa De Javier Bardem é de uma profundidade surpreendente.
Foto: Fernando Marrero
Opinião Cultura 1 3 min. 19.06.2022
Crítica de cinema

Filme "El buen patrón". Patrão fora

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Javier Bardem acrescenta mais uma prestação à galeria de criações inesquecíveis que povoam a sua filmografia.

O realizador espanhol Fernando León de Aranoa decidiu contar a história daquilo a que, em bom português, se chama "lobos em pele de cordeiro". O seu mais recente filme, vencedor dos prémios Goya, chama-se "El buen patrón" e é uma inteligente tragicomédia sobre uma personagem de enorme complexidade com a qual Javier Bardem acrescenta mais uma prestação à galeria de criações inesquecíveis que povoam a sua filmografia.

Julio Blanco é dono de uma empresa que se dedica ao fabrico de balanças de precisão. O patrão tem uma espécie de carisma inquestionável, uma elevadíssima consideração por si mesmo e um ego à prova de bala. Blanco tenta continuamente parecer simpático e amigo de alguns empregados sobre os quais exerce um estranho magnetismo.

Longe da seriedade de documentários que assinou, ou da abordagem sociológica de outros dos seus filmes, sobretudo "Los lunes al sol", o realizador León de Aranoa aposta aqui na sátira como ingrediente e tempero de um enredo que é essencialmene engraçado.

Não se pode deixar de rir bastantes vezes com as aventuras e desventuras de Julio Blanco, determinado a superar todos os obstáculos que o separam do enésimo prémio empresarial com o qual decorar a parede da sua casa e que, para ele, será tão mais importante do que o primeiro. Mas como naqueles filmes de mafiosos nos quais gostamos do "capo", apesar de sabermos que ele é amoral e sem escrúpulos, damos connosco a simpatizar com um patrão que nenhum de nós na vida real gostaria de ter como chefe. E isso é, no mínimo, perturbador e talvez diga algumas coisas sobre nós próprios.

Felizmente, não há um discurso ideológico claro neste filme, que nunca escolhe a retórica panfletária sobre a luta da classe trabalhadora. Tudo o que León de Aranoa retrata, com extrema nitidez e alguma raiva, é feito através do filtro aparentemente inofensivo do humor.

Mas, apesar da ligeireza e do permanente humor, as segundas leituras deste mundo empresarial rude e de um patrão tão extremo podem ir muito longe. León de Aranoa deixa claro que, tal como naquela empresa, no mundo impera o princípio do "cada um por si". Ao mostrar as misérias da vida na empresa de balanças, León de Aranoa revela, ao mesmo tempo, as de grande parte de uma sociedade sem escrúpulos, princípios morais, ética ou boa educação. Tudo isto sob o signo da Justiça, já que o próprio patrão está convencido de que é justo, tal como as balanças que vende.

Além de algumas reviravoltas mal resolvidas, como é o caso extraconjugal da personagem de Manolo Solo, se há algo a ser censurado em "El buen patrón" é que o papel principal é tão forte no argumento, e a interpretação de Bardem tão capital, que a personagem acaba por açambarcar o filme. A transformação física é simplesmente impressionante para quem vê o verdadeiro Javier Bardem nas capas das revistas e nas suas aparições públicas por estes dias.

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§A sua criação interpretativa é de uma profundidade surpreendente em todos os aspetos que compõem a presença de uma pessoa: postura, maneira de se mover, tom de voz, cadência ao falar, e uma gestual com a qual expressa todas as suas sensações para acompanhar algumas frases que são hilariantes, mais pela forma como são ditas do que pelo seu sentido.

O resto do elenco sobrevive com grande dignidade diante do tsunami Bardem. Destaca-se o sempre credível Celso Bugallo, um hilariante Fernando Albizu como segurança, além dos excelentes Sonia Almarcha, Manolo Solo e a jovem Almudena Amor.

"El buen patrón" representa o regresso de Fernando León de Aranoa ao caminho do cinema social. Foi neste género que, em meados dos anos 90 do século passado, irrompeu no cinema espanhol com títulos como "Familia", o já referido "Lunes al sol", "Barrio" ou "Princesas". Este cineasta, pouco conhecido fora das fronteiras espanholas efetua uma clara mudança de género que, sem dúvida, o torna mais acessível, mesmo que a sua mensagem perca alguma força.

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