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Festival de Cannes. Vamos até ao fim?
Opinião Cultura 3 min. 16.07.2021
Cinema

Festival de Cannes. Vamos até ao fim?

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Festival de Cannes. Vamos até ao fim?

Foto: Raúl Reis
Opinião Cultura 3 min. 16.07.2021
Cinema

Festival de Cannes. Vamos até ao fim?

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
O primeiro a dizer-me que se calhar o festival de cinema de Cannes deste ano poderia não chegar ao fim foi Rui Tendinha.

O conhecido crítico de cinema português repetia apenas um rumor que começou a correr no fim-de-semana. "Se descobrem aqui um cluster, fecham o festival e caso arrumado, vamos todos para casa mais cedo", dizia-se a torto e a direito na Croisette.Mas o Rui não quer deixar Cannes e afirmou que, mesmo que o festival seja interrompido, ficará "por aqui a fazer peças para a SIC". Eu lembrei-lhe que já tinha havido um festival assim. 

Foi o LuxFilmFest que, em pleno início da pandemia, em março de 2020, foi obrigado a fechar portas dois ou três dias antes da entrega dos prémios. Ainda hoje há quem diga que o maior festival de cinema do Luxemburgo foi o primeiro foco da pandemia no Grão-Ducado...

Cannes não é o primeiro festival presencial do pós-pandemia – tive a sorte de participar em Kiev no Molodist, que foi, esse sim o primeiro certame na Europa a apostar numa edição ao vivo, e com gente de todo o planeta.

Mas o festival de Cannes deste ano, atrasado para julho, à espera que as condições covid melhorassem, sofre bastante com a ausência de muita gente importante.

Mas o festival de Cannes deste ano, atrasado para julho, à espera que as condições covid melhorassem, sofre bastante com a ausência de muita gente importante.

As dúvidas sobre as regras relativas às viagens, por exemplo, demoveram produtores, distribuidores, atores e tantos outros profissionais da indústria cinematográfica. Canadá e Estados Unidos são alguns dos ausentes, e a Ásia não está presente de todo.

O Marché du Film é uma sombra de si mesmo, e os pavilhões nacionais são, sobretudo, europeus. As filas para entrar nas salas não acabaram, mas um sistema de reserva de bilhetes em linha permite aos participantes no festival saberem antecipadamente se têm ou não lugar em cada projeção. Uma belíssima ferramenta que evita fazer fila durante uma hora para descobrir minutos antes do filme que a sala está cheia.

A passagem do festival de maio para julho trouxe vantagens e inconvenientes. A estabilidade meteorológica é a grande diferença relativamente ao mês de maio. Como é sabido, durante o festival de Cannes chove sempre: podem ser umas horas ou uns dias, mas a chuva faz sempre a sua aparição. E a temperatura pode baixar facilmente até aos 14 ou 15 graus, enquanto em julho, as soirées são muito mais agradáveis e melhor adaptadas aos vestidos com pouco tecido das estrelas e das starlettes. 

Por outro lado, a maioria dos festivaleiros debatem-se com gotas de suor por andarem a correr de umas salas para as outras, e as fotografias no tapete vermelho ficam assim menos compostas.

Toda esta conversa para evitar falar de cinema. Esta crónica, escrita dias antes de encerrar o festival, é sempre a mais difícil. Ninguém sabe nem imagina quais serão os filmes premiados, apesar de haver tendências e "coups de coeur", como se diz em bom francês.

O palmarés depende muito do presidente do júri e este ano o homem à frente das operações é Spike Lee. Inicialmente convidado para presidir o júri de 2020, o realizador americano Spike Lee viu o seu papel prolongado até 2021.

Lee tem uma filmografia rica e diversificada e ganhou um prémio em Cannes, num total de três presenças na competição, com “Blackkklansman”. Lenda viva do cinema ao serviço do “poder negro”, Spike Lee nunca escondeu as suas ideias políticas e sua posição perante a comunidade afro-americana que defende.

Apesar da grande abertura e diversidade do festival de Cannes, Lee é o primeiro presidente do júri de cor do festival de Cannes. Ninguém está na cabeça de Spike Lee para saber para onde se inclinará em termos de filmes mas é conhecido que, além de Denzel Washington, o seu artista preferido é Adam Driver, ator que abriu esta 74ª edição do certame no filme “Annette” de Léos Carax.

Mas como me recordou um crítico belgo-luxemburguês, Thibaut Demeyer, em conversa um dia destes no Palais, em 2005, o presidente do júri era Emir Kusturica, um grande amigo de Jim Jarmusch cujo filme "Broken Flowers" estava em competição, mas foram os irmãos Dardenne que levaram a Palma para casa. "Em Cannes nunca estamos ao abrigo de uma surpresa", afirma ainda Demeyer, e desta vez a maior surpresa seria que chovesse ...


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