Festival de Cannes

Filmes, dúvidas e um festival

O 70° Festival de Cannes começa hoje e decorre até 28 de maio.

Um dos mais conhecidos críticos luxemburgueses disse-me há já alguns meses que tinha tomado a decisão de não ir este ano ao festival de Cannes. Duvidei e perguntei-lhe porquê. Disse-me que não tinha vontade de ver os filmes que Cannes lhe propõe; porque são pretensiosos ou porque são sempre dos mesmos autores.

Concordo plenamente e pude verificar que o meu amigo confirmou na sua crónica desta semana a decisão de não fazer a viagem até ao sul de França.

Eu cá por mim não consigo desistir de ir até à Croisette. O festival de Cannes é uma montra obrigatória para quem gosta de ver cinema mas, por vezes, também sofro com a mesma falta de paciência que irrita o meu amigo.

Thierry Frémaux é o selecionador-mor do maior festival do mundo. Este ano o francês afirma ter visto (certamente com a ajuda de uma vasta equipa) 1.930 longas metragens. No final só 49 chegaram à seleção oficial. Frémaux defende que a seleção não representa um “estilo cannense” mas o estado do cinema neste momento. Talvez. Mas fica sempre a dúvida quando se começa a contar o número de “habitués” na competição.

Nesta 70ª edição do maior festival de cinema do mundo contei pelo menos uma dúzia de realizadores que já passaram por Cannes e que até já ganharam prémios: Michael Haneke, Yorgos Lanthimos, Todd Haynes, Lynne Ramsay, Hong Sang-soo, Francois Ozon, entre outros.

O festival de Cannes é “alérgico” à televisão mas este ano fez duas exceções. David Lynch apresenta os dois primeiros episódios do seu regresso a “Twin Peaks”, enquanto que Jane Campion ante-estreia “Top of the Lake”.

A maior polémica do pré-festival de 2017 também tem a ver com o pequeno ecrã. Os selecionadores acharam por bem projetar obras produzidas pela empresa americana de “streaming” Netflix, assim como pela Amazon. Acontece que os filmes produzidos por estas organizações nunca passam nas salas de cinema, limitando-se às plataformas em linha. Esta situação já levou a um esclarecimento por parte dos organizadores do festival: só podem competir em Cannes filmes que venham a ter projeção nas salas de cinema. Falta saber se esta é ou não uma boa ideia ou se não será uma mera tentativa de remar contra a maré. A chegada de operadores de “streaming” europeus ao mercado talvez acalme muitos ânimos exaltados.

Portugal volta a ter uma presença discreta mas as pequenas pérolas lusas que visitam a Croisette este ano podem fazer um brilharete. Para a semana já saberemos um pouco mais.

Feitas estas considerações cabe-me encerrar este espaço e ir a correr fazer as malas que os artistas já estão a começar a subir a escadaria ornada de um belo tapete vermelho...