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Festival de Cannes: Entre palhaços e futebolistas
Vincent Cassel, o francês mais brasileiro da Sétima Arte, em “O Grande Circo Místico”.

Festival de Cannes: Entre palhaços e futebolistas

Vincent Cassel, o francês mais brasileiro da Sétima Arte, em “O Grande Circo Místico”.
Cultura 3 min. 16.05.2018

Festival de Cannes: Entre palhaços e futebolistas

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
O meu “coup de coeur” de Cannes é até agora um filme luso-brasileiro. A única longa metragem portuguesa na seleção oficial é um belíssimo filme do brasileiro Cacá Diegues: “O Grande Circo Místico”.

O “Circo” foi projetado naquilo a que os organizadores chamam uma Sessão Especial, em presença do realizador e mestre do cinema brasileiro Cacá Diegues. Thierry Frémaux, coordenador-geral do festival não poupou elogios ao decano cineasta brasileiro na sessão inaugural da película.

Entre os produtores está a portuguesa Fado Filmes, de Luís e Gonçalo Galvão Teles (que têm uma forte ligação ao Luxemburgo). Pai e filho são realizadores, produtores e argumentistas “pelo amor ao cinema”. Gonçalo é também professor universitário da arte que escolheu porque, diz, não pode viver sem fazer algo criativo. Não recusa a herança do pai Luís, mas acha que o cinema não tem de estar nos genes e admite mesmo que um dos seus rebentos já lhe terá dito que não quer ser “realista” de cinema como o pai.

O realizador Cacá Diegues afirmou que esta obra “é a súmula de todos os filmes que realizei anteriormente (…) Acredito que os filmes devem criar uma alternativa à realidade diante de nós. É sobre isso que são os meus filmes e este acima de todos os outros”.

“O Grande Circo Místico” foi rodado em Portugal, com o apoio do Circo Vítor Cardinali para a construção de uma aldeia e tenda de circo para as filmagens, que decorreram em Lisboa e arredores. No centro da história estão os 100 anos de existência do Grande Circo e as cinco gerações da família que o dirigiram. Através do eterno mestre-de-cerimónias Celavi, os espectadores acompanham as aventuras, amores, desgraças e desamores da Família Kieps, do apogeu do circo até à sua decadência, culminando o filme num final surpreendente que, como a obra no seu todo, conjuga realidade e fantasia num universo místico.

A longa-metragem adapta um célebre poema do grande poeta brasileiro Jorge de Lima ao som da banda sonora original de Chico Buarque e Edu Lobo. A dar vida e cor aos personagens está um elenco internacional de atores entre os quais se contam os portugueses Nuno Lopes, Luísa Cruz, Albano Jerónimo e David Almeida, os franceses Vincent Cassel e Catherine Mouchet, os brasileiros António Fagundes, Mariana Ximenes, Juliano Cazarré, Jesuíta Barbosa, Bruna Linzmeyer e Luiza Mariani e ainda o polaco Dawid Ogrodnike.

Mas nem só de circo vive o festival de Cannes. É preciso salientar que os outros portugueses foram muito bem recebidos nas outras mostras paralelas (no momento em que escrevo, João Salaviza ainda não viu a sua obra projetada na secção Un Certain Regard).

Na ACID, as três longas metragens lusas de Teresa Villaverde, Leonor Teles e Pedro Cabeleira, obtiveram um belo acolhimento, assim como a curta metragem “Amor Avenidas Novas”, de Duarte Coimbra, que passou na Semana da Crítica. Trata-se de uma nostálgica e musical canção sobre o amor, dirigida por um jovem diplomado em cinema de 22 anos.

A “segunda” coprodução luso-brasileira é um filme sobre futebol. “Diamantino”, de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, está em competição na 57ª edição da Semana da Crítica do Festival de Cannes. O filme conta a história de um jogador de futebol que é capaz de sozinho suplantar os defesas mais formidáveis. Muitos descreveram esta obra como o filme mais delirante presente em Cannes, apesar de o festival ainda não ter acabado...

E o final da 71ª edição será com outra obra com assinatura portuguesa: o filme “The Man Who Killed Don Quixote”, de Terry Gilliam, esteve no centro de todas as polémicas e abriu uma trincheira jurídica entre o Festival de Cannes e o produtor Paulo Branco que tentou impedir a projeção. A justiça francesa não lhe deu (completamente) razão e o maior festival do mundo vai encerrar com mais uma coprodução portuguesa, rodada em boa parte por terras lusitanas, apesar de contar a história mais emblemática da literatura espanhola.


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