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Festival de Cannes. Alternativas à realidade
Terry Gilliam, o Dom Quixote do Festival de Cannes 2018.

Festival de Cannes. Alternativas à realidade

Terry Gilliam, o Dom Quixote do Festival de Cannes 2018.
Cultura 3 min. 23.05.2018

Festival de Cannes. Alternativas à realidade

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
O meu “coup de coeur” de Cannes do festival foi para um filme luso-brasileiro chamado “O Grande Circo Místico”. Aliás, Portugal e Brasil andaram de mãos dadas nesta edição do (ainda) maior festival de cinema do mundo.

Além do “Circo”, de Cacá Diegues, o “nosso” João Salaviza obteve o prémio do júri na secção paralela Un Certain Regard, com uma coprodução luso-brasileira intitulada “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos”.

E “Diamantino”, de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, é também um filme transatlântico porque o realizador português nasceu nos EUA e o seu companheiro na direção é norte-americano. O protagonista, Carlotto Cotta, nasceu em França, o que faz de “Diamantino” uma película detentora de um certo “espírito emigrante”. E convém não esquecer que este curioso filme sobre um futebolista (que não é Cristiano Ronaldo, insiste Gabriel Abrantes) conquistou o prémio máximo da Semana da Crítica, sendo descrito pelo responsável da mostra como “a melhor coisa desde a invenção do LSD”.

“O Grande Circo Místico” era a única longa metragem portuguesa na seleção oficial, tendo sido projetado naquilo a que os organizadores chamam uma Sessão Especial. Entre os produtores está a Fado Filmes, de Luís e Gonçalo Galvão Teles (que têm forte ligação ao Luxemburgo). Pai e filho são realizadores, produtores e argumentistas “pelo amor ao cinema”. Gonçalo é também professor universitário da arte que escolheu porque, diz, não pode viver sem fazer algo criativo.

Os Galvão Teles – e eu partilho a emoção – estão apaixonados pelo festival de imagens que é “O Grande Circo Místico”: história romântica sobre as dificuldades de viver como artista contra ventos e marés. Luís Galvão Teles diz reivindicar “um novo-novo cinema que dê prioridade à criatividade e à magia”. Por seu lado, o realizador Cacá Diegues afirmou que esta obra é a súmula de todos os filmes que realizou anteriormente, pretendendo “criar uma alternativa à realidade”.

Se outros realizadores selecionados no festival de Cannes deste ano seguissem o conselho do mestre brasileiro, talvez tivéssemos visto filmes melhores e menos pessimistas. Os trabalhos em concurso não eram de elevada qualidade e destacaram-se sobretudo por serem extremamente pessimistas.

Os discursos dos realizadores sucederam-se e repetiram-se: eu quero defender esta causa, ou desejo chamar a atenção para aquele drama, ou pretendo revelar uma dramática realidade...

Os jurados, com Cate Blanchett à frente, mergulharam de cabeça no mal-estar reinante e estabeleceram palmarés de qualidade duvidosa mas que reflete todas as desgraças que afligem a Humanidade. O Spike Lee é mau, “Capharnaüm” é pretencioso e a Palma de Ouro foi para um dos filmes mais fraquinhos do japonês Kore-eda.

Salvam-se no palmarés o excelente “Cold War”, de Paweł Pawlikowski, um realizador em alta que ainda tem muito para dar ao cinema, e o brilhante “Girl” de Lukas Dhont, um jovem realizador belga que, apoiado num ator de 15 anos absolutamente brilhante, assina um filme difícil, mas que vai ficar na história do cinema.

A 71ª edição do festival de Cannes foi ótima para as cores portuguesas. Além dos filmes anteriormente referidos, Portugal esteve na secção paralela ACID com três filmes, mostrou “A Ilha dos Amores” de Paulo Rocha no Cannes Classics, teve excelente curta metragem na semana da crítica, presidiu ao júri ecuménico através de Inês Mendes Gil, e o festival encerrou com uma coprodução portuguesa.

O filme “The Man Who Killed Don Quixote”, de Terry Gilliam, esteve no centro das polémicas e abriu uma trincheira jurídica entre o Festival de Cannes e o produtor Paulo Branco que até tentou impedir a projeção. A justiça francesa não lhe deu (completamente) razão e o maior festival do mundo encerrou com mais uma coprodução portuguesa, rodada em boa parte em Tomar, e com Joana Ribeiro no principal papel feminino. Terry Gilliam, com mais loucura do que Cacá Diegues, fez sonhar e ofereceu uma pista para o ano: e se a seleção tivesse filmes mais criativos e mágicos?


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