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Festival de Cannes 2017: Netflix, Amazon e outros inimigos do cinema
 “The Meyerowitz Stories”, do sul-coreano Bong Joon-ho, é um dos filmes em competição.

Festival de Cannes 2017: Netflix, Amazon e outros inimigos do cinema

“The Meyerowitz Stories”, do sul-coreano Bong Joon-ho, é um dos filmes em competição.
Cultura 3 min. 26.05.2017

Festival de Cannes 2017: Netflix, Amazon e outros inimigos do cinema

França. Este ano o Festival de Cannes voltou a provar que o país de Voltaire, de Sartre, de Balzac e que serviu de inspiração e acolhimento para tantos criadores nos dois últimos séculos parece cada vez mais parado no tempo.

França. Um país de charme, de beleza, de luxo, de gastronomia, de artistas, de paisagens e monumentos surpreendentes. A França de 2017 é também um país extremamente conservador, reacionário, avesso à mudança. Este ano o Festival de Cannes voltou a provar que o país de Voltaire, de Sartre, de Balzac e que serviu de inspiração e acolhimento para tantos criadores nos dois últimos séculos parece cada vez mais parado no tempo.

Pela primeira vez a plataforma de “streaming” de cinema Netflix está presente na competição com duas produções: “Okja”, uma aventura fantástica com Tilda Swinton, assinada pelo sul-coreano Bong Joon-ho, e “The Meyerowitz Stories” (na fotografia), uma comédia realizada pelo norte-americano Noah Baumbach. A Netflix é a plataforma mais popular do mundo, presente em cerca de 150 países e – segundo muitos criadores que ouvimos durante o festival – faz mais pelo cinema do que as tradicionais estruturas de produção e de meios de distribuição. Já em 2016, a grande novidade tinha sido a presença de vários filmes com chancela da Amazon que apenas propõe as suas produções na plataforma internet que gere.

Neste ano, as coisas complicaram-se devido a uma tomada de posição da federação que agrega os proprietários das salas de cinema de França: os exibidores manifestaram inquietação pelo facto de os dois filmes da Netflix estarem disponíveis apenas para os consumidores de streaming.

Os donos das salas temem uma secundarização ou mesmo o desaparecimento das tradicionais salas de cinema. Os organizadores do festival de Cannes resolveram o problema, como tantas vezes se faz em França, com uma “lei”.

O festival deu também conta do facto de ter “solicitado em vão” à Netflix que aceitasse a passagem dos filmes no circuito tradicional, mas decidiu que a partir de 2018, “qualquer filme que queira estar na competição de Cannes deverá garantir previamente a sua distribuição nas salas francesas”.

A solução encontrada pelos senhores que mandam no festival não é uma solução. Os serviços de VOD (“video on demand”) estão em crescimento e compreende-se porquê. As razões são muitas mas a facilidade e a sensação de disponibilidade estarão entre as principais explicações para o êxito da Netflix, da Amazon Prime ou de outros serviços em linha.

Que podem fazer os cinemas para assegurarem a sua existência? O desafio não é simples e ninguém tem a solução-milagre, mas talvez seja melhor conhecer o inimigo do que proibi-lo ou fugir dele, que é o que o festival de Cannes está a fazer ao “obrigar” os filmes a concurso a terem um contrato de projeção nas salas de cinema (obviamente) francesas.

Durante aquele que ainda é o maior festival de cinema do mundo, porque ali se compram e vendem mais filmes do que em qualquer outro sítio, foram lançadas ideias de futuro para os cinemas tradicionais: simplificar compra de bilhetes, informação concisa e rápida sobre filmes exibidos e, sobretudo, serem seletivos ao escolherem um determinado tipo de conteúdo para criar ou se adaptar a uma clientela específica.

Sejam quais forem as soluções encontradas, os cinemas precisam de criatividade e de pensar fora dos habituais silos que dominam os sistemas de distribuição. Como dizia um professor americano durante o Fórum Europeu de Cinema que teve lugar na segunda-feira em Cannes, seria bom “evitar que os cinemas se transformassem em museus”. Olha, museus! Aí está algo em que os franceses são ótimos!

Raúl Reis, em Cannes

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