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As histórias mais incríveis da Eurovisão
Cultura 4 7 26 min. 07.05.2022
Eurovisão

As histórias mais incríveis da Eurovisão

Este ano todas as esperanças estão concentradas em Maro, com o tema "Saudade, Saudade".
Eurovisão

As histórias mais incríveis da Eurovisão

Este ano todas as esperanças estão concentradas em Maro, com o tema "Saudade, Saudade".
Foto: Matteo Rasero/LaPresse via ZUMA
Cultura 4 7 26 min. 07.05.2022
Eurovisão

As histórias mais incríveis da Eurovisão

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Com honrosa excepção de Salvador Sobral e um 6º lugar de Lúcia Moniz, o historial das participações portuguesas no Festival Eurovisão da Canção são uma espécie de psicose depressiva. No entanto, histórias não faltam. O festival RTP da Canção foi um dia Grande Prémio TV da Canção Portuguesa. Atravessou a ditadura para a democracia. Mas, tirando 2017, que encheu de alegria a cidade de Kiev, Portugal sempre viu o pódium por um canudo. Eis algumas histórias ocultas dos portugueses na Eurovisão.

1969. No ano em que o Homem foi à Lua, Portugal imperialista, envolvido numa guerra colonial que já ia longa e sangrenta, não ia a lado algum. Era um país cinzento, em que tudo faltava menos a ditadura, a censura, a opressão, a pobreza. Qualquer vírgula fora dos cânones do regime era um acontecimento subversivo. A oposição fazia-se na clandestinidade. Ou nas entrelinhas. Havia Deus, Pátria, Família, não sendo arbitrária a ordem dos factores e, logo a seguir ao glorioso e à festa brava, pontificava o Grande Prémio TV da Canção Portuguesa. No panorama musical português, era a Meca das canções. A presença da música nacional no Festival Eurovisão da Canção, assim designado desde 1968, era mais ou menos como a missão Apollo das variedades.

O Festival Eurovisão da Canção não se modernizara apenas no nome. Em 1968 foi pela primeira vez transmitido a cores. A tecnologia não foi propriamente um fenómeno igualitário. Apenas alguns países puderam ver o festival pela TV, ao vivo e a cores. Uma minoria privilegiada, constituída pela Alemanha, França, Holanda, Noruega, Suiça e Suécia. Aos outros, incluíndo Portugal, restava a pálida conjugação de preto e branco. Depois do sucesso planetário que foi o Festival Eurovisão da Canção de 1968, o evento de 1969 era fruto mais do que apetecido. O festival doméstico enchia diariamente as páginas dos jornais, depois, claro, de submetidas as prosas ao azul do lápis. A censura era uma instituição a todos os títulos omnipresente, com sonhos eróticos de omnisciência e a sensibilidade católica, apostólica, romana de uma virgem ofendida. 

Mas, como todos os instrumentos totalitários, tinha variadíssimos defeitos de fabrico. Era necessário usar de subtilezas para contornar o seu jugo, que fazia sentir o seu peso num evento de enorme expressão popular como era o Grande Prémio TV da Canção Portuguesa, que parecia inspirado numa prova de ciclismo, outro dos entretenimentos da nação. No grande prémio do cançonetismo, a canção de intervenção era tão bem vinda como o diabo numa homilia. Em 1968, um tema de Zeca Afonso tinha sido afastado da competição, sem apelo nem agravo. O que, aliás, se tornaria prática recorrente para um leque de artistas incómodos. O título da canção de Zeca Afonso não podia ser mais apropriado à semiótica da situação: "Vejam Bem".


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O travo Doce do preconceito
Ainda hoje as Doce não sabem se era elas que não estavam preparadas para este país ou se era este país que não estava preparado para elas. Desde os anos 80 que não se falava tanto delas como agora. Foi noutro tempo, noutra vida. Uma vida que regressou para lhes fazer alguma justiça. E também para as atormentar. O tempo não foi doce para elas.

Por muito que o regime se esforçasse (isso era inegável), não era possível controlar todas as movimentações e os expedientes que a imaginação colocava ao serviço da subversão. Pelos interstícios da censura, que demonstrava escasso talento para alcançar os significados ocultos e uma clara desvantagem para decantar a qualidade das metáforas e eufemismos, que passavam pelos seus filtros como armas invisíveis ao raio-X do Estado Novo. Ao Grande Prémio TV da Canção Portuguesa de 1969, com a nação num estado de excitação de certo modo lunar, concorreram 319 canções. Uma grossa fatia das canções eram submetidas a concurso com pseudónimos, que iam de "Elefante Branco" ou "Mozart" (ambos clássicos na sua área), aos mais enigmáticos, como "Carapau", ou mesmo desafiantes, como "Ping-Pong". 

Nesse ano, a RTP convidou Amália Rodrigues para as reuniões do júri, mas a "diva" do fado tinha mais que fazer. Desde que começaram as participações portuguesas no Festival Eurovisão da Canção que decorria uma discussão nacional sobre a não-participação dos grandes nomes da canção portuguesa no seu maior palco, com Amália Rodrigues à cabeça e Carlos do Carmo ainda na sombra, já para não falar (nem se podia) de alguns esquerdistas que davam à costa, como o inevitável Zeca Afonso ou José Mário Branco. À época, o Grande Prémio TV da Canção Portuguesa não se realizava nos estúdios da RTP no Lumiar, mas no Teatro São Luiz, ao Chiado, mesmo ao lado da sede da PIDE, na rua António Maria Cardoso.

Para o Teatro São Luiz escorria a nata da sociedade portuguesa, magníficos exemplares da estética Estado Novo, dentro dos seus melhores smokings (alguns alugados) e dos casacos de 'vison', símbolo inalienável de classe, combinando com os penteados de laca, estilo metrópole. Lá fora, uma geração morria em África, mas não havia problema pois podiam acompanhar o festival pela rádio. Em Portugal continental, o povo juntava-se nos cafés ou amontoava-se em casa dos que tinham um televisor. Assistiram ao Grande Prémio TV da Canção Portuguesa perto de 2,5 milhões de portugueses, em pouco mais de 300 mil aparelhos de televisão. O regime, pouco dado ajuntamentos, condescendia neste.

Até hoje não se sabe porque categoria de milagre conseguiu a "Desfolhada Portuguesa" ser a grande vencedora da noite. Uma argolada histórica da censura, para gáudio secreto do povo, que se manifestou como pôde nessa noite, manifestando-se em massa quando Simone de Oliveira, que já não era uma estreante no Festival Eurovisão da Canção, partiu da estação de Santa Apolónia, em Lisboa, em direcção a Madrid, pela rota ferroviária de duas ditaduras. Ao longo do percurso, milhares de pessoas acenavam, exibindo cartazes de apoio. A pedido expresso de sua excelência, o marquês de Fronteira, o comboio fez uma paragem excepcional na estação do Marvão, para um banho de multidão. Lá ia Simone de Oliveira, com todos os sonhos de uma nação na bagagem, passar para o mundo uma mensagem. 

Simone de Oliveira participou no Festival Eurovisão da Canção em 1969 com a música "Desfolhada".
Simone de Oliveira participou no Festival Eurovisão da Canção em 1969 com a música "Desfolhada".
Foto: DR

Todos, menos a censura, percebiam o impacto deste acontecimento. A letra da "Desfolhada" continha heresias de primeira água, como aquela frase: "quem faz um filho, fá-lo por gosto". Uma escandaleira, que o regime não foi a tempo de reparar. À volta deste tema, que se tornou icónico, reunia-se um repasto para a censura. A música era de Nuno Nazareth Fernandes (pseudónimo "Terrear") e a letra de José Carlos Ary dos Santos (Água & Fogo), um jovem poeta, que nesse mesmo ano tinha aderido ao PCP, que não escondia, pecados dos pecados, a sua homossexualidade. A canção, aliás, foi entregue primeiro em papel de embrulho, com um título suficientemente neutro: "Lenda Encontrada".

Poucos saberão que esta canção não foi escrita para Simone de Oliveira, mas para Elisa Lisboa, uma jovem actriz do Teatro Experimental de Cascais. A poucos dias do certame nacional, Elisa Lisboa, assoberbada com a vida de actriz, desistiu, apresentando razões pessoais e um atestado médico, com diagnóstico de 'laringotraqueíte'. E assim se chamou Simone de Oliveira para canção que até hoje a acompanha. O enorme sucesso da "Desfolhada" em Portugal não teve o mesmo resultado no Teatro Real de Madrid, palco do Festival Eurovisão da Canção 1969, pela primeira vez transmitido a cores para todos os países, a primeira vez em que se usou um quadro electrónico para apresentar a pontuação. 

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No 'bas-fond' do festival alvitrava-se que a "Desfolhada" ia ganhar, mas a realidade foi outra, embora não muito diferente do que era a realidade das participações portuguesas na Eurovisão. Mais de 200 milhões de telespectadores, em 40 países, viram a "Desfolhada" desfolhar-se para penúltimo lugar, com míseros quatro pontos. Em Portugal, toda a gente considerou que Simone de Oliveira tinha ganho. Em Lisboa, foi recebida em apoteose. Curiosamente, até o Estado Novo lavraria o seu desencanto por tamanha injustiça à música nacional. Em protesto, Portugal não se faria representar no Festival Eurovisão da Canção do ano seguinte (1970). Na prática, quem pagou as favas foi Sérgio Borges, o vencedor sem passaporte do festival doméstico.

A fugir da cauda

O Festival Eurovisão da Canção, uma ideia do suiço Marcel Bezençon, existia desde 1956. A primeira participação portuguesa fora em 1964. A Europa das canções não parecia lá muito interessada no cancioneiro português. Por muito que Portugal rezasse aos deuses das canções, o destino e as mais "bizarras" votações colocavam-nos sempre nos primeiros lugares do fim. António Calvário, que fez a estreia de Portugal no Festival Eurovisão da Canção, no Eurovision Song Contest ou no Concours Eurovision de la Chanson, como lhe quisessem chamar, levando ao palco do mundo, directamente da cidade de Copenhaga (Dinamarca) o tema "Oração", que ficou em último, sem sequer um pontinho para trazer para casa. Um "failure", um fiasco, uma 'débacle', como os senhores da Eurovisão lhe quisessem chamar. 

Em Portugal, chamaram-lhe uma injustiça gritante, que não era substântivo ou adjectivo que a censura recomendasse. Por amor de Deus, dizia-se, escreveu-se, bradou-se aos céus, a canção do Calvário, comparada com a concorrência, nem era assim tão má como a Europa a tinha pintado. De tão triste e nula pontuação, houve quem lesse também uma mensagem claramente política, coisa que a Europa nem se deu ao trabalho de negar. De todo o modo, o mais excitante deste festival foi um acto de sabotagem. Um homem interrompeu o festival em directo, com um cartaz, escrito em inglês, para a mensagem ser global: "Boycott Franco & Salazar". Se não fosse triste a realidade, quase que passava por fã de uma dupla sertaneja.

Em 1965, sim, seria a estreia oficial de Simone de Oliveira na Eurovisão, defendendo a canção "Sol de Inverno", que mereceu da globalidade do júri um ponto, o primeiro de Portugal na história da Eurovisão, mas que tinha o mesmo sabor a nada. Outra vez, Portugal ficava em último lugar. O vencedor desse ano foi o Luxemburgo. Em Portugal, começava a cheirar a esturro institucional. Como se sabe, conspirações se faziam por menos. Ao que parece, havia um 'parti pris' contra o nacional-cançonetismo. Ou seria para com a própria ditadura? Não, isso é que não.

No ano seguinte, para tirar teimas no Festival Eurovisão da Canção, realizado no Luxemburgo, Madalena Iglésias, que se tornaria arqui-rival artística de Simone de Oliveira, uma espécie de Sporting-Benfica da canção, conseguiu um resultado bastante melhor, com a famosa "Ele e Ela", conquistando um honroso 13º lugar, com seis pontos, um pecúlio de esperança para o futuro, que parecia um augúrio digno de uma canção como "O Vento Mudou", de Eduardo Nascimento, em 1967. Nascimento foi o primeiro cantor negro a ganhar o Grande Prémio TV da Canção Portuguesa e o segundo a pisar o palco de um Festival Eurovisão da Canção, onde conquistaria o 12º lugar, em Viena (Áustria). Em 1968, Carlos Mendes, com "Verão", fazia a sua estreia na Eurovisão. No estrangeiro dizia-se que era uma canção ao melhor estilo 'chanson'. Mas o júri considerou outra coisa. Ainda assim, conseguiu um 11º lugar. O problema é que eram apenas 17 os países participantes.

Já que em 1970 Portugal esteve ausente, só em 1971 a canção nacional conseguiu deixar a sua marca na Eurovisão. Mesmo com a canção envolta em polémica, pois a crítica não a tinha considerado digna vencedora em Portugal (todos achavam que era melhor a canção de Paulo de Carvalho), Tonicha, uma jovem "refrescante", com "pernas para usar calções atrevidos" consegue o melhor resultado até então, com o tema "Menina do Alto da Serra", que a colocou nos tops da Eurovisão, alcançando um épico 9º lugar, com 83 pontos. 

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O sistema de pontuação do Festival Eurovisão da Canção tinha entretanto alterado. Em Dublin, Tonicha conseguiu contornar o nervosismo. Dias antes, a cantora inglesa tinha sido raptada. Em Portugal, não ganhou apenas o festival. Ganhou também um televisor topo de gama, da marca Siemens. Paulo de Carvalho, então soldado de Infantaria no quartel da Amadora, teve de pedir autorização para participar no festival e não gostou que a sua canção "Flor sem Tempo" tivesse sido preterida.

Em 1972, Carlos Mendes venceu de novo o certame nacional, desta feita com o tema "A Festa da Vida". Conseguiria Portugal ainda melhor? "Íamos ver, íamos ver", escreveu Mário Castrim, o mais mordaz dos críticos. A nação pedia TV a cores e menos cheiro a naftalina no festival. Pelo meio do cinzentismo, lá ganhou "A Festa da Vida", que nos ia representar na Escócia. Em Edimburgo, Carlos Mendes seria convidado para assistir a um espectáculo, ficando colocado no mesmo camarote onde tinha lugar cativo a rainha de Inglaterra. O jovem estudante de arquitectura ficou bastante admirado, quando os artistas se desfaziam em vénias protocolares para o seu camarote. Ele agradeceu a deferência, acenando. 

Diria mais tarde: "acho que eles devem ter pensado que eu era embaixador de Cuba, ou coisa que o valha". No que interessava, o festival da Eurovisão, a coisa também não correu mal. Pelo contrário. Carlos Mendes obteve a quarta melhor pontuação de sempre na história das participações portuguesas na Eurovisão, um 7º lugar, com 90 pontos. O Luxemburgo deu-lhe a pontuação máxima (10 pontos). Foi a primeira vez que tal aconteceu. Se tal facto não merecia ser comemorado, poucos seriam. A comitiva portuguesa foi para um restaurante italiano, comer e beber até de madrugada. 

O que só por milagre não acabou num conflito diplomático e em voz de prisão para os comensais portugueses. Era domingo. Ao domingo, na Escócia, eram proibidas as bebidas alcoólicas. Apressadamente, partiu a ressaca para Portugal. Recentemente, o cantor contaria que, antes do festival da Eurovisão, foi abordado por um representante da RTP que lhe pediu um honroso 3º lugar. A vitória é que não dava jeito, pois a RTP não teria meios ou verba para organizar tamanho evento em Portugal. Na Escócia, venceu o Luxemburgo, com um cantor nascido na Grécia: Vicky Leandros.

Sob a falsa fragância da Primavera Marcelista, a canção vencedora do festival da canção nacional de 1973 foi a "Tourada", com letra de Ary dos Santos, interpretada por Fernando Tordo. Apesar das partituras terem sido entregues sem o nome dos autores, esta canção era um verdadeiro desassossego para o regime. Ary dos Santos, que no ano anterior tinha sido "banido" do Grande Prémio TV da Canção, desta vez era autor de seis das letras de dez canções finalistas. A "Tourada" tinha como rival "É Por Isso que Eu Vivo", interpretada por Paco Bandeira, igualmente com letra de Ary dos Santos. 

A "Tourada" tinha tudo para ganhar e tudo para não poder ganhar. Antes do festival, a letra fora discutida à exaustão e o próprio presidente da RTP foi chamado ao secretário de Estado da Informação e Turismo, para analisar todo o tumulto que se gerara em torno da letra da canção. O certo é que a canção avançou e ganhou, para desagrado de Paco Bandeira, júbilo do povo e fúria do Sindicato dos Toureiros, assim como do Grupo Sector 1, apologista dos touros de morte. A canção, diziam, era uma ofensa e uma provocação à nobre arte do tauromaquia. Tinham intenções de pegar de caras este tema, mas a faena foi de pouca dura.

No Luxemburgo, Fernando Tordo tinha de enfrentar um desafio maior. Sir Harry Roger Webb, na altura, assim como agora, conhecido por Cliff Richard. Com os famosíssimos Shadows, que Fernando Tordo idolatrava, era um adversário com o poder e uma máquina promocional de mil ganadarias. O discípulo português estava ciente do desafio. E, apesar do chocalho – neste tema era "instrumento" fundamental -, se ter perdido algures no aeroporto de Paris, Tordo prometia festa rija neste festival, que tinha como anfitrião o Luxemburgo. O que, aliás, se concretizou, embora a "Tourada" tivesse um resultado modesto em comparação com os anos transactos: 10º lugar.

E depois do adeus

Portugal rezava pela mudança, mas de uma revolução nem sequer suspeitava. O último Grande Prémio TV da Canção da ditadura foi 'business as usual'. Para não variar, os proscritos de eleição ficavam "estrategicamente" de fora. Sérgio Godinho, Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso e companhia não tinham lugar no palco do Estado Novo. Segundo Jorge Mangorrinha, investigador universitário que tem aprofundado a história das participações portuguesas nos festivais da Eurovisão e as suas implicações políticas, nesse certame mais de duas centenas de canções foram não só censuradas, como retiradas sequer da hipótese de competir. Longe, muito longe, estaria o regime de imaginar que seria a canção vencedora uma das duas senhas da revolução.

A música "E depois do Adeus" conseguiu apenas 3 pontos na Eurovisão de 1974. Os vencedores desta edição foram os Abba, com "Waterloo".
A música "E depois do Adeus" conseguiu apenas 3 pontos na Eurovisão de 1974. Os vencedores desta edição foram os Abba, com "Waterloo".
Foto: DR

Paulo de Carvalho era o favorito, mas não era o único. José Cid estava presente, assim como o Duo Ouro Negro, Artur Garcia ou até Helena Isabel (actriz e ex-mulher de Paulo de Carvalho), que por seis vezes participou no festival da canção. A grande rivalidade, porém, era mesmo entre Paulo de Carvalho e José Cid, algo que ainda hoje se mantém. "E Depois do Adeus", a canção imortalizada na voz de Paulo de Carvalho, para sempre um dos símbolos da revolução dos cravos, tinha a letra de José Niza e música de José Calvário. Niza contaria que a canção lhe surgiu inusitadamente num voo intercontinental. O título original era "Adeus", mas já existia outro tema com o mesmo título (interpretado por Júlia Barroso) e os autores tiveram de mudá-lo para poder participar no Grande Prémio TV da Canção Portuguesa. Mais de três milhões de telespectadores portugueses assistiram a este festival, um dos mais concorridos até então, com bilhete para Brighton, Inglaterra.

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Nos ensaios para o Festival Eurovisão da Canção 1974, mais uma vez a canção portuguesa tinha bons prenúncios. Diz-se que os agentes de Ella Fitzgerald, ali presentes em busca de talentos, quiseram comprar os direitos da canção. Estes seriam reclamados pelo povo português no dia 25 de Abril que, estando tão perto, parecia ainda uma galáxia distante. Porém, Portugal voltou ao primeiro degrau de quem sobe, com apenas três pontos. Neste festival, foi um quarteto sueco o grande vencedor da noite, os Abba, com "Waterloo", cujo título original, por estranho, era "Honey Pie".

Em Portugal, Paulo de Carvalho foi recebido como se tivesse ganho, tendo ficado em último lugar. Entre o furacão mundial que foram os Abba e uma certa nostalgia romântica da canção portuguesa, abrirara-se uma clareira imensa, que importava ser discutida a fundo na nação. De qualquer maneira, Portugal teria mais em que pensar. A ditadura tinha os dias contados. Vinha aí o admirável mundo novo.

O Grande Prémio TV da Canção Portuguesa, que tresandava a defunto, passou a Festival RTP da Canção. O festival de 1975 foi um espelho do período revolucionário em curso. Um misto de Ipiranga e Woodstock, feito para romper com os opúsculos da ditadura. Lá se foram os formalismos e as fatiotas de domingo, impondo-se a estética da liberdade. Quanto mais despenteados os cabelos, melhor. Calças à boca de sino, indumentária 'flower-power', socas e sapatos rotos, uma doce anarquia à procura de apanhar o comboio da civilização, que tinha chegado com 48 anos de atraso. O festival transformou-se num imenso comício, com canções pelo meio. Neste festival irrompeu em fúria José Mário Branco, voz maior do Grupo de Acção Cultural Vozes na Luta. A maquilhagem tinha mudado, mas muitas da canções ainda tinham o 'rigor mortis' do passado. A sua canção tinha um título elucidativo e um ponto de exclamação intrínseco: "Alerta".

O vencedor da noite revolucionária foi Duarte Mendes, que era oficial do Exército, com o tema "Madrugada". Como metáfora, não estava mal. Depois da vitória, a grande discussão era se o intérprete se devia apresentar no palco da Eurovisão, em Estocolmo, em uniforme militar, o que não chegou a acontecer. Os ventos de mudança que sopravam de Portugal não tiveram impacto na Eurovisão. A primeira pontuação de Portugal enquanto país democrático, foi um 16º lugar, entre 19 países concorrentes. Nem que Duarte Mendes tivesse ficado atrás do último isso importaria. Portugal já não voltava atrás. Mais tranquilo, o Festival RTP da Canção de 1976, consagrou Carlos do Carmo como grande vencedor, com o tema "Uma Flor de Verde Pinho", com letra de Manuel Alegre e música de José Niza. Entregaram aos autores um prémio de 25 mil escudos Ana Zanatti e Eládio Clímaco. Niza e Alegre, ambos deputados à Assembleia Constituinte, entregaram o valor do prémio ao PS, nas mãos de Mário Soares.

"Sobe, Sobe, Balão Sobe“, de Manuela Bravo conquistou um honroso 9º lugar na Europa.
"Sobe, Sobe, Balão Sobe“, de Manuela Bravo conquistou um honroso 9º lugar na Europa.
Foto: Lusa/Arquivo

Portugal subia, subia, como um balão metafísico, algo premonitório, mas no Festival Eurovisão da Canção encontrava sempre um intransponível pântano pontual, sempre à procura da proverbial pedrada no charco. As décadas passaram, os estilos oscilaram entre o tradicional e o pimba, o pop e o antropológico, a cultura, as mais diversas decantações de sub-cultura, a nostalgia dos Descobrimentos, as raízes do fado, o electrónico, o acústico, a densidade intelectual, o 'la-la-la', o romantismo, o pragmatismo, o choque, o clássico, o alternativo, a religião, a liberdade, o amor, o desgosto, a traição, a saudade, o destino, o satírico, o onírico, condimentos de jazz, pitadas de blues, variações de bossanova, projectos de gospel, onomatopeias, minimal repetitivo, declamatório, o elogio, a elegia, poemas infinitos, refrões do princípio ao fim, esquissos de metal, laivos de grunge, as múltiplas variantes do soft ao hard-rock. 

De tudo se tentou, incluindo a exclusão da língua-mãe, para encantar o grande júri da Eurovisão. Mas os resultados foram quase sempre desilusões, ao ponto do Festival RTP da Canção se encontrar um dia como menos audiência do que as palmilhas adelgaçantes nas televendas. Até mesmo os concorrentes davam a impressão de estar a concorrer para a RTP Memória. Com melhores, mas quase sempre com piores resultados, Portugal teve de esperar ao até ao ano da graça de 2017. Quem mais nos podia resgatar desta tragédia, sem contar com a Troika? O Salvador.

O Longo caminho da glória

Até ao final da gloriosa década de 70, Portugal manteve-se a salvo dos últimos lugares da Eurovisão, assim como nunca ameaçou os primeiros. Aquela conversa gasta de ser o virtual favorito conseguiu atravessar a ditadura, para se instalar confortavelmente no meio da tabela. Não era bom, nem era mau. Só mesmo em 1979 a canção portuguesa lá experimentou um travo de Top 10. Manuela Bravo, esfusiante de cor e alegria, com um penteado que a perseguiria a vida inteira, cantou o "Sobe, Sobe, Balão Sobe" como se não houvesse amanhã, conquistando um 9º lugar. Já no início da década de 80, José Cid conseguiu melhor, um 7º lugar com "Um Grande, Grande Amor". 

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A partir daí, ao contrário do balão, foi sempre a descer, com a honrosa excepção de Maria Guinot, que em 1984 conseguiu um 11º lugar, com "Silêncio e Tanta Gente". Foi necessário chegar aos anos 90 para regressar aos 10 +. Em 1991, "Lusitana Paixão", interpretada por Dulce Pontes, conseguiu um 8º lugar com sabor a pouco. Em Portugal, a crítica ao gosto eurovisivo, digamos assim, foi contundente. Por estranho, a função do Festival RTP da Canção tinha cumprido o seu desígnio de catapulta. A carreira de Dulce Pontes foi explosiva, levando-a a palcos de todo o mundo, incluindo o Royal Albert Hall (Londres) e o Carnegie Hall, de Nova Iorque, partilhando a voz com a de Caetano Veloso ou de Cesária Évora, na altura do "casamento" musical com Ennio Morricone, icónico compositor italiano.

Em 1993, eis que Portugal apresenta Anabela, da Cova da Piedade para o mundo, com "A Cidade (até ser dia)", que lhe valeu um 10º lugar na Eurovisão e um bilhete vitalício de actriz/cantante no universo La Féria, que é mais ou menos um matrix dos velhos tempos do Parque Mayer, versão redux. Anabela, nascida em 1976, já conviveu melhor com o epíteto de eterna "menina do festival". Em 1994, Sara Tavares reconquistou um 8º lugar, com "Chamar a Música". Em 1996, refrescante aleluia, Portugal conseguiria o melhor resultado até então, um 6º lugar para Lúcia Moniz (filha de Carlos Alberto Moniz), com "O Meu Coração Não Tem Cor". 

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O ano seguinte, por outro lado, foi para esquecer. Pela terceira vez na história da Eurovisão, Portugal ficava em último, talvez porque Célia Lawson quis fazer da temporalidade uma retroversão invertida, apresentando um epitáfio de preâmbulo: "Antes do Adeus". Para a participação nacional do Festival Eurovisão da Canção, foi como uma premonição a título póstumo, lenta e dolorosa. No ano 2000 não se confirmaram as mais diferentes profecias do fim do mundo. Até hoje não se sabe como é que a Eurovisão, entretanto transformada numa máquina de marketing, recuperou da segunda ausência/desistência oficial de Portugal no festival. Quem ficou a perder foi uma rapariga chamada Liana, que ganhou o certame doméstico com algo que não se concretizaria: "Sonhos Mágicos". 

Em 2002, a desgraça ainda foi maior. Portugal desistiu de novo, apresentando à Eurovisão um atestado de coisa nenhuma, sob a vaga explicação de "problemas na delegação". Agradeceu a Letónia, que concorreu pela primeira vez ao festival Eurovisão da Canção, ganhando-o. Houve quem acusasse a Europa das canções de excesso de hospitalidade. A partir de 2004, que coincidiu com a alteração do sistema de pontuação da Eurovisão, incluindo semi-finais e as respectivas finais, foi como se uma nuvem negra se abatesse sobre Portugal, que iniciou uma longa série de não-acessos às finais. Em Portugal, tentou-se de tudo. No ano seguinte (2005), pela primeira vez na história da Eurovisão, Portugal concorre com uma canção a duas línguas. O titulo diz tudo, embora a letra não dissesse nada: "Coisas de Nada (Gonna Make You Dance)", das NonStop, obtendo desde logo a pior classificação de sempre nas semi-finais.

Levou algum tempo a recuperar de tal pancada. Mas a Eurovisão não perdia pela demora. Em 2007, Portugal apresentou-se na Eurovisão com Sabrina (não confundir com algum instrumento de limpeza), que rebentou com a escala em termos linguísticos, apresentando uma canção que, para espanto, mais parecia esperanto. "Dança Comigo (Vem ser Feliz)" misturava o português (já agora), com castelhano, inglês e francês. Não passámos das semi-finais. Só em 2008 é que Portugal consegue qualificar-se para uma final, ficando em 13º lugar, com "Senhora do Mar (águas negras)", interpretada por Vânia Fernandes, que ainda assim ficou em 13º lugar, embora tenha ficado de uma vez por todas claro que Portugal tinha vencido o festival das previsões, uma das especialidades portuguesas, que em 2011, dentro de um certo desespero, elegeu como vencedores os Homens da Luta, com o tema "A Luta é Alegria", que nem não registou qualquer milagre para atingir a final. 

Em 2013, Portugal exerceu a terceira ausência da Eurovisão, que se repetiria em 2016. A primeira teve como pretexto o trajecto de insucesso, a segunda, dificuldades financeiras e logísticas. Ninguém deu cavaco à coincidência dessas duas desistências terem como palco a Suécia, que assim de assumia como a grande potência da Eurovisão. Portugal, por seu lado, assumia a sua tímida condição de estertor, para irromper da tumba das canções com uma canção vinda dos deuses, de um coração a necessitar de transplante.

Quando Salvador Sobral ganhou o Festival da Eurovisão, no que era então a cidade de Kiev, Ucrânia, parecia que o cosmos andava a tricotar milagres por Portugal. Foi como um conto de fadas. Um ano antes, em 2016, a selecção nacional derrotou a França na final em Saint-Denis, em pleno Stade de France, e Portugal tornou-se pela primeira vez campeão europeu de futebol, das raras ocasiões em que uma nação entra em delírio colectivo e que os jogadores de futebol se passeiam pela cidade de autocarro. António Guterres seria nomeado secretário-geral das Nações Unidas. Quanto a isso, não há muito acrescentar. A não ser o facto de António Guterres ser o único secretário-geral da ONU a ter participado num festival da canção. Nos tempos em que foi primeiro-ministro, Guterres gravou um vídeo de alento, transmitido na apresentação da canção portuguesa, em Oslo, em 1996. Lúcia Moniz agradeceu. Em Kiev, Salvador Sobral foi supreendido pela quantidade de crianças que sabiam falar português.

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Depois da retumbante vitória de "Amar pelos Dois", com letra da Luísa Sobral e interpretação de Salvador Sobral, a fasquia ficou elevadíssima para o Festival Eurovisão da Canção 2018, pela primeira vez realizado em Portugal. "O Jardim", de Cláudia Pascoal, mesmo jogando em casa, ficou um último lugar. No ano seguinte, em Israel, foi a vez do extravagante Conan Osíris (um misto de rapaz do futuro com o deus dos mortos, na mitologia egípcia), que se despediu da sex-shop onde trabalhava, para mostrar o que valia "Telemóveis", um psicodrama cantado sobre alguém que perdia o telemóvel. 

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Em 2020, seria Elisa a grande vencedora do Festival RTP da Canção, com o tema "Medo de Sentir". Nessa altura, o medo era outro: a pandemia. O Festival Eurovisão da Canção não se realizou. Em 2021, os representantes portugueses foram os Black Mamba, com "Love is on My Side", que passou à final, ficando em 12º lugar. Para o festival que aí vem, em Turim, todas as esperanças estão concentradas em Maro, com o tema "Saudade, Saudade", bilingue. Apenas "Saudade" não podia ser, por óbvios direitos de autor. Pela primeira vez na história da Eurovisão, este será transmitido para os Estados Unidos da América. Em tese, as audiências terão um crescimento exponencial. Será?

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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