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Famel Top Secret: Os entusiastas
“Famel Top Secret”, sobre as populares motas portuguesas com o mesmo nome, estreia sexta-feira no cinema Ariston

Famel Top Secret: Os entusiastas

“Famel Top Secret”, sobre as populares motas portuguesas com o mesmo nome, estreia sexta-feira no cinema Ariston
Cultura 4 min. 03.12.2014

Famel Top Secret: Os entusiastas

Portugal esteve quase sempre ausente do mercado automóvel e das motas. Como fabricante, obviamente. No domínio das quatro rodas, houve tentativas que marcaram a história. Quem não se lembra do jipe UMM, que ainda hoje é procurado pelos mais nostálgicos?

Portugal esteve quase sempre ausente do mercado automóvel e das motas. Como fabricante, obviamente. No domínio das quatro rodas, houve tentativas que marcaram a história. Quem não se lembra do jipe UMM, que ainda hoje é procurado pelos mais nostálgicos?

Nas motas (ou devo dizer motorizadas?), o universo é mais vasto mas não deixa de ser limitado. Pior: a maioria das tentativas de criar um veículo de duas rodas luso ficaram para a História. Ou seja, tal como o UMM, as motorizadas lusitanas não resistiram às impiedosas leis do mercado.

A FAMEL é uma das marcas portuguesas que já não está entre nós. Melhor, está, porque as motas sobreviveram, mas já nenhuma delas se fabrica. Apesar do tempo volvido, o entusiasmo em torno das FAMEL é tanto que até no Luxemburgo há algumas.

Outro entusiasta, um engenheiro de Guimarães, decidiu comprar os direitos da marca e pensa comercializar uma nova FAMEL que até poderá vir a ser eléctrica, para estar de acordo com os novos tempos que vivemos.

As motas portuguesas vêm a propósito da projecção do filme “Famel Top Secret”. Esta produção é o resultado de muita energia de vários entusiastas apaixonados por cinema e pelas FAMEL. “Famel Top Secret” é uma sequela de um filme de fim de curso realizado por Jorge Montereal, intitulado “O Segredo da Famel”.

Essa primeira produção existe quase por milagre. O realizador, estudante de cinema, precisava de criar um trabalho de fim de curso e encontrou um entusiasta como ele. Pedro Anjos co-produziu, protagonizou e promoveu o filme. Encontrei o actor e o realizador em Cannes em Maio e senti o entusiasmo, a alegria de terem conseguido fazer um filme, quase sem meios, quase sem actores, quase sem nada. E estavam orgulhosos por terem conseguido realizar um segundo milagre ao produzirem “Famel Top Secret”.

Os milagres também se multiplicam, e esta semana, em Portugal, a Lusomundo garante a projecção em dezenas de cinemas da segunda aventura da FAMEL.

E esta semana também, o filme vem ao Luxemburgo para inaugurar uma aventura de entusiastas que desde há décadas tentam trazer mais cinema português ao Grão-Ducado.

Incluo-me nesse grupo restrito de líricos que acreditam que numa comunidade de mais de cem mil pessoas há certamente umas centenas que querem ir ao cinema ver filmes portugueses.

Depois de varias tentativas individuais ou privadas para lançar mostras de cinema lusitano, há quatro anos atrás, a Embaixada e o Camões meteram mãos à obra e inventaram a Quinzena de Cinema Português. Mais uma vez está por trás um entusiasta. O embaixador de então era um declarado cinéfilo. E, sobretudo, tivemos a sorte de a sua sucessora manter a chama, tal como aconteceu do lado do Instituto Camões do Luxemburgo.

Permitam-me agora um pormenor pessoal. Apesar de satisfeito com a Quinzena, sempre defendi que ver cinema “lá de baixo” uma vez por ano não chega. Preguei a convencidos e a minha velha ideia de um cineclube vingou, graças à vontade daqueles a quem devemos a Quinzena, a quem se associou outro entusiasta, o responsável dos cinema do grupo Caramba. Apanham-se assim dois coelhos de uma cajadada (matar não é politicamente correcto): há filmes todo o ano e descentraliza-se.

Inaugurar tal iniciativa com um filme popular como “Famel Top Secret” não é um acaso. Portugal e os portugueses viveram anos divorciados do seu cinema. As obras de arte que os nossos realizadores foram produzindo mereceram o reconhecimento de alguma crítica e de diversos festivais, mas o público em geral foi-se afastando. É importante que o cinema português passe a ser considerado “potável”. Esse movimento passa pela projecção de obras de todos os tipos e para todos os públicos.

Há um trabalho a fazer, sobretudo junto dos mais jovens, dos adolescentes, que estão entre os principais clientes de cinema nas salas do Grão-Ducado. O cinema português, sobretudo graças às televisões, tem produzido mais do que “art house”, mas muita gente ainda não sabe disso. O potencial de novos entusiastas de cinema português é enorme. 

Raúl Reis

“Famel Top Secret”, de Jorge Montereal, com Pedro Anjos, Merche Romero, Vítor Norte, José Carlos Pereira, Fátima Preto, Futre e Dani. 


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