Exposição

Portugal e Luxemburgo estabeleceram relações diplomáticas há 125 anos

O Grão-Duque Adolphe (1817-1905), esquerda, e El-Rei D. Carlos (1863-1908)
O Grão-Duque Adolphe (1817-1905), esquerda, e El-Rei D. Carlos (1863-1908)
Foto: UGDA / Ivo Guimarães

Uma exposição que assinala os 125 anos das relações diplomáticas entre Portugal e o Grão-Ducado está patente ao público no Museu Nacional de História e de Arte do Luxemburgo. A mostra foi inaugurada segunda-feira pelos presidentes dos parlamentos dos dois países.

O rei Dom Carlos de Portugal (1863-1908) provavelmente nunca se cruzou com o grão-duque Adolphe do Luxemburgo (1863-1908), mas na segunda-feira os dois “receberam” Eduardo Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, e o seu homólogo luxemburguês, Mars Di Bartolomeo, presidente da Câmara dos Deputados, no Museu Nacional de História e de Arte (MNHA). Os bustos dos dois soberanos acolhem o visitante na exposição comemorativa do estabelecimento das relações diplomáticas entre Portugal e o Grão-Ducado há 125 anos que aquele museu propõe.

O presidente do Parlamento luxemburguês, Mars di Bartolomeo (sedundo à direita), e o seu homólogo português, Eduardo Ferro Rodrigues (à direita), inauguraram a exposição na segunda-feira
O presidente do Parlamento luxemburguês, Mars di Bartolomeo (sedundo à direita), e o seu homólogo português, Eduardo Ferro Rodrigues (à direita), inauguraram a exposição na segunda-feira
Foto: Manuel Dias

Ao CONTACTO, Ferro Rodrigues falou da importância histórica desta exposição, que considera “um marco” na história diplomática dos dois países. Esta mostra, para a qual a Assembleia da República emprestou o busto do rei D. Carlos “demonstra como Portugal esteve na primeira linha desses reconhecimentos naquela fase” da independência e soberania do Luxemburgo. “Foi também uma ocasião para demonstrar a capacidade de colaboração entre o Estado luxemburguês e o português e mais concretamente entre a Assembleia da República e o museu [Nacional de História e Arte do Luxemburgo]”, disse ainda Ferro Rodrigues.

Carlos Pereira Marques, embaixador de Portugal no Luxemburgo, esteve na iniciativa desta exposição
Carlos Pereira Marques, embaixador de Portugal no Luxemburgo, esteve na iniciativa desta exposição
Foto: Manuel Dias

A génese desta exposição começa há cinco meses em Lisboa. “Esta efeméride foi evocada pela primeira vez em Maio, quando Jean Asselborn [ministro dos Negócios Estrangeiros luxemburguês] esteve em visita oficial a Portugal. Na embaixada pensámos que faria todo o sentido assinalá-la de forma mais significativa”, conta o embaixador de Portugal Carlos Pereira Marques, que esteve na iniciativa desta exposição.

“E pensámos que a altura ideal para inaugurar a exposição seria por ocasião da visita ao Luxemburgo da segunda figura do Estado português”, diz, referindo-se à visita de três dias que Ferro Rodrigues está a efectuar ao Grão-Ducado desde segunda-feira e que termina hoje.

Grã-Cruz da Coroa de Carvalho que o visconde de Pindela recebeu do grão-duque Adolphe
Grã-Cruz da Coroa de Carvalho que o visconde de Pindela recebeu do grão-duque Adolphe
Foto: Ivo Guimarães

A sala que a exposição ocupa no museu é pequena, mas algumas das 30 a 40 peças, documentos e objectos que foram reunidos para esta ocasião nunca tinham sido mostrados antes e marcam a data de 22 de Julho de 1891 quando o primeiro embaixador de Portugal no Luxemburgo, o visconde de Pindela, foi recebido pelo primeiro soberano luxemburguês a residir no Grão-Ducado, o grão-duque Adolphe.

As peças expostas vêm dos Arquivos Nacionais do Luxemburgo, do Museu da Assembleia da República, do Instituto Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros, da Associação dos Amigos do Arquivo Histórico Diplomático de Portugal e da família Pindela, que guardou religiosamente documentação e objectos pessoais do primeiro embaixador de Portugal no Luxemburgo.

O bicorne do visconde de Pindela, que fazia parte da farda diplomática
O bicorne do visconde de Pindela, que fazia parte da farda diplomática
Foto: Ivo Guimarães

“Os descendentes do visconde de Pindela mostraram-se muito disponíveis, auxiliaram-nos muito na preparação da mostra, é uma família antiga portuguesa de perto de Vila Nova de Famalicão, cujas origens remontam ao séc. XV”, explica Pereira Marques, que contactou pessoalmente os descendentes do visconde para os efeitos desta mostra.

“A exposição centra-se no estabelecimento das relações diplomáticas e da figura do primeiro embaixador, que tinha relações muito estreitas com a família real e com o rei D. Carlos, era um homem interessantíssimo, de uma grande cultura, irmão do conde de Arnoso, que pertenceu aos ’Vencidos da Vida’” [grupo de intelectuais que incluia Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro e Eça de Queirós], explica Pereira Marques, acrescentando que toda a documentação que veio de Lisboa foi traduzida para francês pelo pessoal da embaixada.

O visconde de Pindela vem ao Luxemburgo em 1891 e conta o que vê”, diz Pereira Marques.

“O visconde de Pindela veio apresentar as credenciais na véspera da aclamação do grão-duque Adolphe em Julho de 1891. Ficou cá três dias, é convidado para jantar no castelo de Walferdange e conta o que vê. No relatório que envia para Lisboa fala da ’Joyeuse Entrée’ [aclamação que ainda hoje acontece quando um soberano luxemburguês sobe ao trono, como foi o caso para o grão-duque Henri em 2000 e 2001, ndR], que se assemelha muito à actual festa nacional luxemburguesa”, diz Pereira Marques.

Nesse jantar, o grão-duque Adolphe ofereceu uma rosa à mulher do embaixador português, que foi conservada pela família e que também vai estar na exposição. Uma rosa que mostra um pouco da personalidade do soberano luxemburguês.

O Visconde de Pindela, Vicente Pinheiro Lobo Machado de Melo e Almada (1852-1922) e a mulher, Maria Amália de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos (1858-1918)
O Visconde de Pindela, Vicente Pinheiro Lobo Machado de Melo e Almada (1852-1922) e a mulher, Maria Amália de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos (1858-1918)
Foto: Ivo Guimarães

“O grão-duque Adolphe era um homem com uma grande fortuna, sem muitas responsabilidades, que sabia movimentar-se em sociedade. Quando sobe ao trono do Luxemburgo, interessou-se pouco por governar, deixou trabalhar o Governo de Paul Eyschen. Gostava de passear de coche na cidade, ir caçar, estava pouco tempo no Luxemburgo, preferia andar pelos seus castelos na Alemanha...”, conta Régis Moes, curador da exposição.

Como se explica então que este seja um soberano tão importante na história do Luxemburgo?

“Porque é o primeiro soberano a residir no Luxemburgo, foi o que deu ao país a sua própria dinastia. Depois de ter sido criado em 1815, o Grão-Ducado continua a depender da coroa holandesa. Depois de a Bélgica se separar dos Países Baixos, o Grão-Ducado fixa as suas fronteiras actuais em 1839, data que ficou como o da independência do país. Até à chegada do grão-duque Adolphe, o presidente do Governo era luxemburguês mas dependia da coroa holandesa. O facto de o país ficar independente em termos políticos e dinásticos é um momento importante para o Grão-Ducado. Adolphe é importante porque é o soberano que cá está quando isso acontece. E porque, simultaneamente, o país começa a enriquecer com a siderurgia, a desenvolver-se, a língua luxemburguesa começa a fixar-se, é quando começa a ser construída a ponte que vai ter o seu nome, é instaurado o prémio Adolphe que ainda hoje existe”, explica o especialista em história contemporânea do MNHA.

Régis Moes, o curador da exposição
Régis Moes, o curador da exposição
Foto: Ivo Guimarães

Porque razão Portugal estabelece relações diplomáticas com o Luxemburgo apenas em 1891?

“Bem, na verdade, já tinha havido relações diplomáticas entre Portugal e o Luxemburgo antes. Por exemplo, em 1880 os dois países assinaram um acordo de extradição de criminosos. E recorde-se que Portugal participou no Congresso de Viena em 1815, que viu criar o Grão-Ducado. Mas em 1891, com a morte de Guillaume III, rei da Holanda e rei grão-duque do Luxemburgo, a união com os Países Baixos rompe-se. O Luxemburgo deixa de estar sob a alçada dos Países Baixos e torna-se uma nação soberana. Os embaixadores acreditados em Haia vêm naturalmente apresentar as suas credenciais ao novo soberano. Um deles foi o visconde de Pindela, que era embaixador de Portugal na Holanda”, explica Moes.

O visconde de Pindela
O visconde de Pindela
Foto: Ivo Guimarães

“Em 1891, o Luxemburgo é um país pobre, de emigração. A siderurgia tinha apenas começado a trazer alguma prosperidade. O que é interessante ver nesta mostra é que Portugal, com o peso histórico que tinha tido, com um longo historial diplomático nos negócios estrangeiros, quis logo encetar relações diplomáticas e de amizade com um país como o Luxemburgo”.

Régis Moes explica também porque razão o director do MNHA, Michel Polfer, aceitou de imediato associar-se e acolher “com muito entusiasmo” esta iniciativa da Embaixada de Portugal.

“Muitos outros paises estabeleceram nesse ano relações diplomáticas com o Luxemburgo, por exemplo a Turquia ou a Rússia. Mas esses países não têm uma vasta comunidade como a que Portugal tem aqui, que já vai na terceira ou quarta geração. O que é importante mostrar com esta exposição é a permanência e a continuidade dos laços históricos e das relações de amizade entre os dois países, que são muito mais complexos e antigos, e que não se limitam à imigração portuguesa”.

A boa colaboração entre a embaixada de Portugal e o MNHA vai continuar em 2017. O museu vai receber entre 24 de Março e 30 de Julho de 2017 a exposição “Drawing the World” (Desenhando o Mundo) sobre os Descobrimentos Portugueses.

Para 2018, a Embaixada está a preparar uma exposição sobre os 125 anos da “união dinástica” entre as casas de Bragança e do Luxemburgo, na sequência do casamento entre Guillaume IV e Mariana de Bragança em 1893.

Uma rosa luxemburguesa centenária regressa ao país

A rosa oferecida pelo grão-duque Adolphe em 1891 à mulher do embaixador português foi conservada pela família e regressou agora ao Luxemburgo
A rosa oferecida pelo grão-duque Adolphe em 1891 à mulher do embaixador português foi conservada pela família e regressou agora ao Luxemburgo
Foto: Ivo Guimaraães

Uma rosa luxemburguesa com 125 anos viajou do Minho para o Grão-Ducado para ser exposta pela primeira vez em público na mostra “125 anos de relações diplomáticas entre Portugal e o Luxemburgo”, patente no Museu Nacional de História e de Arte.

O que tem esta rosa de particular? Quem responde é o embaixador de Portugal, Carlos Pereira Marques.

“No relatório que o primeiro embaixador de Portugal no Luxemburgo envia para Lisboa em 1891, este conta que foi jantar ao Castelo de Walferdange, o que corresponde a ser recebido hoje no Castelo de Colmar-berg. Nesse jantar, o grão-duque ofereceu uma rosa à embaixatriz portuguesa. O grão-duque tinha 73 anos, mas era um senhor muito simpático, galã e que fazia muito charme. A viscondessa tinha 30 anos, tinha acabado de casar e o visconde não terá apreciado a prenda feita à esposa”, conta o embaixador. No entanto, a flor foi conservada até hoje pela família Pindela. “Foi uma surpresa encontrar esta flor. Quando fui à Casa de Pindela, os descendentes não sabiam se esta rosa teria interesse para a exposição. Eu disse logo que sim, conhecendo a tradição e o culto das rosas no Luxemburgo”, recorda Pereira Marques.

O embaixador Carlos Pereira Marques, discursando na foto, contou ao CONTACTO a história de uma rosa do Luxemburgo com 125 anos
O embaixador Carlos Pereira Marques, discursando na foto, contou ao CONTACTO a história de uma rosa do Luxemburgo com 125 anos
Foto: Manuel Dias

“Se o visconde de Pindela ficou sentido com o gesto de galantaria do grão-duque Adolphe, não sei. Mas, para mim, o facto de o grão-duque ter oferecido uma rosa não é anódino. As rosas foram no Luxemburgo uma indústria importante desde o fim do século XIX até à Primeira Guerra Mundial. O Limpertsberg estava coberto por roseirais, mas também uma parte do vale do Alzette, Steinsel e Walferdange tinham vastos campos de rosas cultivadas a pensar na exportação para todo o mundo. Para mim, essa rosa pode ter sido uma espécie de cartão de visita do país que o grão-duque quis dar”, considera Régis Moes. 

“Esta rosa luxemburguesa com 125 anos é uma peça muito interessante da exposição. Há outras rosas luxemburguesas do século XIX conservadas no Luxemburgo, mas esta foi dada pela mão do grão-duque Adolphe e mostra um lado amical das relações que se iam estabelecer entre os dois paises. A correspondência entre o visconde de Pindela e o grão-duque Adolphe, e mesmo com o ministro de Estado Paul Eyschen, é bastante pessoal, afável, calorosa, tratando-se de correspondência diplomática. Acho o tom das cartas particularmente amical, até porque não havia reais interesses económicos ou políticos de um lado ou de outro”, diz Moes.

O embaixador de Portugal diz ainda que falou nesta rosa à associação “Patrimoine Roses pour le Luxembourg”, cuja presidente, Claudine Als, ficou “muito entusiasmada”, tanto que a associação resolveu incluir a imagem desta rosa no seu calendário para 2017.

José Luís Correia

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A exposição “125 anos de relações diplomáticas entre Portugal e o Luxemburgo está patente até 13 de Novembro no Museu Nacional de História e de Arte, Marché-Aux-Poissons, cidade do Luxemburgo.

A “Joyeuse Entrée” em 1891, contada pelo primeiro embaixador português no Luxemburgo

O Grão-Duque Adolphe recebeu o visconde de Pindela
O Grão-Duque Adolphe recebeu o visconde de Pindela
Foto: UGDA

“No dia 22 [de Julho de 1891] fui recebido por Sua Altesa Real em audiencia solenne no Paço do Luxembourgo tendo o mesmo Augusto Senhor dignado mandar-me buscar e reconduzir ao hotel em que me hospedei por uma carroagem de grande galla precedida por dois batedores a cavallo. S.A. Real houve por bem convidar-me bem como a Viscondessa minha Mulher a jantar n’esse dia ás 7 horas da tarde no Castello de Walferdange, mandando-nos buscar e reconduzir por uma carroagem da côrte. (...)

Nos dias 23, 24 e 25 tiveram logar os festejos nacionais em honra do novo Soberano do Gran ducado. Estas festas a que chamaram a entrada solenne do Grão duque corresponderam áquelas que n’outros paizes são conhecidas pelas festas d’acclamação, e que só agora tiveram logar por causa do luto pela morte do Rei Guilherme III e por ser o dia 24 o primeiro anniversario do nascimento de Sua Altesa Real como Grão duque Reinante. (...) No dia 24 ao romper da manhã houve repiques de sinos e salvas d’artelharia, e ás 11 horas da manhã um Te-Deum cantado pelo Bispo do Luxembourgo na Cathedral (...) e houve á noute vistosas iluminações e fogos de bengalla em toda a cidade. No Castello de Walferdange, a uma legôa e meia da cidade, Sua Altesa Real o Grão duque offereceu n’essa noute um grande jantar a que assistiram os representantes de todas as nações.“

Correspondência do visconde de Pindela ao rei D. Carlos, Julho de 1891.

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