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Exposição na cidade do Luxemburgo: O Bestiário de Pablo Picasso no Cercle Cité
Pablo Picasso

Exposição na cidade do Luxemburgo: O Bestiário de Pablo Picasso no Cercle Cité

© Time Life Pictures/Gjon Mili/
Pablo Picasso
Cultura 3 min. 29.12.2016

Exposição na cidade do Luxemburgo: O Bestiário de Pablo Picasso no Cercle Cité

A exposição “Picasso e os animais” continua patente até 15 de Janeiro, no Cercle Cité, na cidade do Luxemburgo. Por que não aproveitar as férias de Natal para uma visita? A mostra pode não ter as obras mais célebres do mestre, mas é uma exposição inédita no Grão-Ducado.

A exposição “Picasso e os animais” continua patente até 15 de Janeiro, no Cercle Cité, na cidade do Luxemburgo. Por que não aproveitar as férias de Natal para uma visita? A mostra pode não ter as obras mais célebres do mestre, mas é uma exposição inédita no Grão-Ducado.

Os comissários Salvador Haro e Harald Theil sublinham a unidade da obra picassiana e a impossibilidade de a apreender sem uma visão global que situe, ao mesmo nível, pintura, escultura, desenho, artes gráficas e artes decorativas, porque era assim que o mestre espanhol, que continuamente desafiou classificações e géneros artísticos, o entendia. Propõem-nos, assim, uma seleção de cerâmicas e de gravuras – geralmente consideradas artes menores, mas postas aqui no seu devido lugar –, provenientes de coleções institucionais espanholas e alemãs e de várias coleções particulares, oferecendo um olhar abrangente sobre o processo criativo do artista nas suas diversas disciplinas.

O interesse de Pablo Picasso pelas artes gráficas surge cedo, ainda na infância, primeiro pela calcografia, depois pela litografia e pela linogravura (nos anos 1950). As inovações técnicas e conceptuais neste domínio, com uma produção de mais de duas mil gravuras, influenciaram várias gerações de artistas.

“Mocho em cabeça de fauno”, 1961
“Mocho em cabeça de fauno”, 1961
Foto: Maurice Aeschimann

Quanto à cerâmica, o interesse de Picasso por este meio de expressão, embora comece na adolescência, só se desenvolve no final dos anos 1940, a partir do encontro, em 1946, com a ceramista Suzanne Ramié, fundadora do ateliê de cerâmica Madoura, em Vallauris, que virá, um ano depois, a acolher o artista espanhol e a enquadrar a sua produção nesta área. Picasso vai desenvolver mais de quatro mil obras cerâmicas ao longo do tempo. Quase tudo peças únicas, sendo que cerca de 600 foram usadas como modelo para as edições em série produzidas em exclusividade pelo famoso ateliê, processo típico na arte dos anos 50-70, destinado a levar as obras ao maior número de pessoas possível.

O bestiário de Picasso – cheio de touros, cabras, faunos, pássaros, pombas, corujas, peixes e polvos – é o fio condutor desta exposição, centrada nas relações entre a produção gráfica e cerâmica do artista, entre 1947 e 1971, na qual se destaca o ’modus faciendi’ do autor. Expõem-se, assim, não só as obras finais – que, no caso da gravura e da cerâmica, são múltiplas, sendo várias e diversas as “tiragens” –, mas também testemunhos do processo que levou à sua criação: desenhos preparatórios, estudos e fotografias do artista em ação, da autoria de David Douglas Duncan.

Os laços entre gravura e cerâmica, que a exposição assinala através da temática animal, tão querida ao artista nas suas mais diversas facetas plásticas, foram apontados por Picasso: “A cerâmica funciona como a gravura. A cozedura é como a tiragem”, afirmou.

"Insecto", uma das obras expostas no Cercle Cité
"Insecto", uma das obras expostas no Cercle Cité
Foto: Cercle Cité

De facto, tanto a gravura como a cerâmica são o resultado de um processo artístico em diferido. O produto final, a obra – que pressupõe em si mesma a multiplicidade associada a um processo reprodutivo – não é imediatamente visível. O criador só tem acesso à obra no final de um processo que não domina totalmente. E não só por causa dos eventuais acidentes mecânicos que possam surgir (tanto na cozedura cerâmica como na tiragem da gravura), mas porque é o próprio processo (da cozedura e da tiragem) que vai revelar a cor e o traço definitivo de cada peça. Como disse Picasso ao escritor Pierre Daix: “Quando chega a tiragem, já não és aquele que gravou, mudaste”.

É este processo criativo que está no âmago desta exposição. Os primeiros passos são guiados, no espaço estreito de um corredor, por uma série litográfica de um touro, talvez o animal mais querido a Picasso, produzida entre Dezembro de 1945 e Janeiro de 1946. Aqui, o desenho do pujante animal é desconstruído até à máxima estilização, num jogo que é, simultaneamente, o jogo do cubismo picassiano, o jogo do fazer criativo, e o jogo da multiplicidade e da invenção acidental próprias à gravura e à cerâmica, cujas relações a exposição consagra.

Sara Ferreira

A exposição pode ser visitada diariamente, entre as 11h e as 19h, no Cercle Cité (2, rue Genistre, junto à place d’Armes), na cidade do Luxemburgo. O Cercle Cité encerra no dia 31 de dezembro às 15h, reabrindo a partir de 2 de janeiro.

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