Exposição de Miguel Branco no Instituto Camões

Apocalipse minimal

É um dos artistas plásticos mais cotados em Portugal, com obras nas coleções de Serralves ou do Museu de Arte Contemporânea do Luxemburgo (Mudam). Mas para ver os quadros que Miguel Branco expõe atualmente no Instituto Camões – uma denúncia das ameaças climáticas – é preciso ter olhos de lince.

Miguel Branco na inauguração da exposição.
Miguel Branco na inauguração da exposição.
Fotos: Gerry Huberty / Contacto

O fotógrafo do Contacto tenta tirar a clássica fotografia do artista com quadro em fundo, mas desta vez tem a tarefa dificultada. Os quadros que Miguel Branco expõe no Instituto Camões no Luxemburgo são tão pequenos – há um com cinco por sete centímetros, o tamanho de uma caixa de fósforos – que o fotógrafo brinca: “Vou ter de aumentar os quadros com ’photoshop!’”.

Essa será a piada mais repetida durante a inauguração de “Para sempre”, esta segunda-feira. “São precisos binóculos”, queixa-se um convidado. Quem tem óculos aproxima-os dos olhos com um gesto teatral, antes de se dirigir aos quadros pintados em madeira – uma série em que se vêem pássaros, drones, crateras e submarinos.

A atitude da maioria dos convidados – onde se incluía o secretário de Estado da Cultura do Luxemburgo, Guy Arendt – é a mesma. Como quem, ao assinalar com gestos ou palavras o inesperado tamanho dos quadros, se precata da ironia da arte contemporânea, evitando assim ser apanhado em falso.

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Desde o urinol de Marcel Duchamp que a atitude do público em relação à arte contemporânea é de desconfiança. Rir, que pode ser visto como uma atitude filistina, devolve ao artista o escárnio de que o espetador desconfiado se imagina alvo.

A desconfiança é talvez o primeiro efeito da escala reduzida que é já uma imagem de marca de Miguel Branco – no extremo oposto do tamanho XXL de Joana Vasconcelos, que foi sua aluna. “Eu estou muito interessado nas várias funções e nos efeitos que a escala muito reduzida pode provocar”, diz o artista plástico ao Contacto. “É uma pintura que não parece que se leva a sério, porque é demasiado pequena, e exige do observador que abandone uma série de preconceitos”.

O primeiro é a expectativa da ordem natural entre emissor e receptor: nos museus e galerias, é o quadro ou a escultura que se impõem ao espectador. Já em “Para sempre”, a hierarquia é baralhada, obrigando o visitante a aproximar-se até ficar a poucos centímetros do quadro. O que, num mundo de distrações constantes, servidas de forma passiva, obriga a um movimento deliberado: para ver, é mesmo preciso aproximar-se do quadro.

Por essa razão, a escala minimal é uma escolha ideológica assumida pelo artista. “É um gesto político, que contraria o espalhafato que a arte contemporânea tem e os dispositivos de chamar a atenção que se vêem no mercado da arte”, explica Miguel Branco. Aqui, em vez de “chamar a atenção”, a exposição “exige atenção”, sublinha.

“Para sempre” – registe-se a ironia do título – evoca “a crise ecológica, com condições que são catastróficas para o ambiente e a sobrevivência das espécies”, explica o artista plástico. E se é verdade que a exposição “tem um tom sereno, contemplativo”, com imagens de animais pintados em cores pastel, esconde “uma realidade inquietante”, com sinais “de uma guerra latente” – incluindo submarinos nucleares, drones ou camâras de vigilância, pintados como se fossem iluminuras medievais. A ver de perto até 22 de janeiro, no Centro Cultural Português.

Miguel Branco tem obras nas coleções da Fundação Calouste Gulbenkian e na Fundação EDP, em Lisboa, na Fundação de Serralves, no Porto, e também no Mudam, no Luxemburgo. Nesta exposição, é também apresentada uma escultura de Miguel Branco que pertence à coleção do Mudam.

Paula Telo Alves