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Do Nirvana ao trauma
Opinião Cultura 3 min. 31.08.2021
Exploração infantil

Do Nirvana ao trauma

O bebé do álbum "Nevermind", dos Nirvana, hoje com 30 anos, processou recentemente a banda por exploração sexual infantil.
Exploração infantil

Do Nirvana ao trauma

O bebé do álbum "Nevermind", dos Nirvana, hoje com 30 anos, processou recentemente a banda por exploração sexual infantil.
Foto: DR
Opinião Cultura 3 min. 31.08.2021
Exploração infantil

Do Nirvana ao trauma

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Não é justo que o modelo seja o único que não ganhou nada com isso, a não ser uma notoriedade duvidosa.

"Não culpo um fã de 17 anos que adora punk rock e me insulta de vendido, eu provavelmente faria o mesmo. Mas daqui a uns tempos, mais crescido, esse fã vai entender que há mais na vida do que seguir demasiado à letra os valores do rock 'n' roll". 

O ano é 1991 e os Nirvana de Kurt Cobain tinham abandonado a editora independente SubPop, que apostou neles enquanto desconhecidos, e assinado pela multinacional Geffen para lançar o histórico "Nevermind"; o álbum que vendeu 30 milhões de cópias, é presença assídua nas listas dos melhores de sempre e está consagrado na Biblioteca do Congresso como "obra de excepcional importância cultural" que alterou o rumo da música moderna. Oh, e tem também uma das capas mais reconhecíveis de sempre – a do bebé na piscina perseguindo uma nota de dólar.

Este mês "Nevermind" faz 30 anos (frase abissal para o fã de punk rock com 17 anos que também eu era em 1991) e o bebé na piscina, agora com bastante mais cabelo, decidiu assinalar a efeméride processando todos os envolvidos na criação da capa do álbum (15 pessoas, incluindo Dave Grohl e Krist Novoselic, os outros membros da banda). Spencer Elden pede uma indemnização de mais de dois milhões de euros por "exploração sexual de menores e distribuição de pornografia".

Claro que ao conhecer esta notícia, a minha primeira reacção foi igual à de todos: desprezo total, e desgosto por se estar a conspurcar uma obra-prima. Nunca na vida alguém olhou para aquela foto como pornografia. Apresentar aquele contexto (satírico, que representa precisamente uma autocrítica da banda em mudar de editora para ganhar mais dinheiro) como "exploração sexual de menores" é uma deturpação vergonhosa que visa apenas ganhar dinheiro rápido sem qualquer respeito pelas consequências. 


Capa do álbum Nevermind, dos Nirvana
"Bebé" da capa Nevermind quer processar os Nirvana por "pornografia infantil"
Spencer Elden, 30 anos, diz que a sua foto de bebé nu com dinheiro, na capa do icónico álbum da banda, representa uma "exploração sexual". E quer uma indemnização.

Afinal, Spencer Elden sempre reconheceu que ser o "bebé Nirvana" lhe deu fama e oportunidades, e em nada menos de cinco outras efemérides – aos 10, 12, 15, 20 e 25 anos do álbum, que também coincidem com a sua idade – o jovem posou dentro da piscina para fotos que recriavam a capa; na última delas mostrou orgulhosamente a sua tatuagem "Nevermind" e até pediu para voltar a aparecer todo nu (foi o fotógrafo que insistiu nos calções de banho). Que estranho volte-face explicaria a passagem do orgulho ao trauma?

Foi só ao ler as reacções de advogados com longa experiência de litígios nesta área e de algumas vítimas de abuso sexual, as quais tendem a compreender as razões de Spencer (e até a tardia consciencialização de que algo estava profundamente errado, o que até é comum) que percebi: o caso está longe de ser fácil de rejeitar como uma simples jogada oportunista. E mesmo que o fosse...? O bebé da capa deve ter sido o único envolvido na produção do disco que não ficou milionário, até porque aos 4 meses de idade, não tinha oportunidade de assinar um contrato por direitos de imagem. Também é bem verdade que os seus genitais subdesenvolvidos foram vistos por metade do planeta –uma escolha consciente de quem deu o ok para a utilização desta foto – e, uma vez que algo chega ao domínio público, já nunca volta atrás.

Seja como for, aquela foto vale bem umas massas. Não é justo que o modelo seja o único que não ganhou nada com isso, a não ser uma notoriedade duvidosa. Espero bem que o Spencer derrote a editora nos tribunais – e já agora, que o álbum volte às playlists.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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