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Eunice Muñoz, a mulher portuguesa que nasceu para dar vida a outras mulheres
Opinião Cultura 2 min. 19.04.2022
1928–2022

Eunice Muñoz, a mulher portuguesa que nasceu para dar vida a outras mulheres

A atriz Eunice Muñoz (direita), acompanhada pela neta Lídia Muñoz (esquerda), durante o ensaio geral da peça de teatro "A Margem do Tempo", no lançamento das celebrações dos seus 80 anos de carreira, a 19 de Abril de 2021.
1928–2022

Eunice Muñoz, a mulher portuguesa que nasceu para dar vida a outras mulheres

A atriz Eunice Muñoz (direita), acompanhada pela neta Lídia Muñoz (esquerda), durante o ensaio geral da peça de teatro "A Margem do Tempo", no lançamento das celebrações dos seus 80 anos de carreira, a 19 de Abril de 2021.
Foto: António Pedro Santos/Lusa
Opinião Cultura 2 min. 19.04.2022
1928–2022

Eunice Muñoz, a mulher portuguesa que nasceu para dar vida a outras mulheres

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
Estava tão bem no drama, como na comédia, embora fosse na primeira disciplina que se sentisse mais confortável.

Gerou à sua volta um enorme consenso - era a melhor actriz portuguesa. Dizia o público e diziam os seus pares. Eunice Muñoz morreu aos 93 anos, de uma doença que lhe minou os últimos tempos de vida.

Nela, tudo era inconfundível. A presença que enchia palcos e decores de cinema, o gesto, a palavra e a voz que projectava arrebatadoramente até aos ouvidos de quem tinha o privilégio de a ver trabalhar. Mas nestes anos de chumbo que a doença inclemente lhe impôs, até a voz se foi e isso era o que mais a fazia sofrer. Lamentava-se, aos seus mais próximos.

Mesmo doente, subiu aos palcos, para representar "A Margem do Tempo", contracenando com a neta, Lídia. Percorreram o país, com aquele espectáculo que já se adivinhava ser o último, de Eunice. Mais que uma representação, a peça era a reprodução, em corpo e alma, de uma ternura imensa que ligava duas mulheres da mesma família. Neta e filha de actores, Eunice tributou também a sua enorme arte à descendência que era vasta. Teve seis filhos, dos seus três casamentos.

Eunice Muñoz era a mulher portuguesa que nasceu para dar vida a outras mulheres que genialmente soube representar.

Era completa. Estava tão bem no drama, como na comédia, embora fosse na primeira disciplina que se sentisse mais confortável. Talvez porque tivesse a incontida capacidade de emocionar quem a via. Sempre privilegiou essa relação de forte comoção com o público, quer fosse no teatro ou no cinema. Também passou pela televisão, mas era aí que lhe pediam outros registos, mais próximos do entretenimento.

Tive a sorte de com ela fazer uma curtíssima viagem de comboio, entre Coimbra e Lisboa. Dividimos o mesmo compartimento e ela, sempre boa conversadora, contou-me o que tinha ido fazer a Coimbra - participar num workshop (ela não usou esta expressão) de teatro, na Faculdade de Letras. Foi a oportunidade para ela conhecer Paulo Quintela, o catedrático daquela faculdade que dedicou tanto do seu estudo ao teatro. Vinha encantada.

Tivemos um outro encontro furtivo, numa imensa fila que, em Tróia, esperava a oportunidade de atravessar o Sado, em direcção a Setúbal. Vinha de férias, mas já cansada, como me confidenciou. Por falar nisso, recordou-me um episódio já distante. Tinha 23 anos e cansada da exigente profissão do teatro, passou a trabalhar como caixeira, numa loja. Mas depois, a saudade fê-la regressar aos palcos. Não foi a única vez que meteu "férias sabáticas", para aliviar as canseiras do palco.

Eunice Muñoz era a mulher portuguesa que nasceu para dar vida a outras mulheres que genialmente soube representar. Vai ficar na memória dos portugueses, ao lado de outros gigantes da nossa cultura.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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