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Estamos há 28 anos sem Natália
Opinião Cultura 4 min. 18.03.2021

Estamos há 28 anos sem Natália

Natália Correia no comício de encerramento da campanha eleitoral de Maria de Lourdes Pintasilgo para as eleições presidenciais, em Lisboa, 24 de janeiro de 1986.

Estamos há 28 anos sem Natália

Natália Correia no comício de encerramento da campanha eleitoral de Maria de Lourdes Pintasilgo para as eleições presidenciais, em Lisboa, 24 de janeiro de 1986.
Foto: Lusa
Opinião Cultura 4 min. 18.03.2021

Estamos há 28 anos sem Natália

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
Estamos há 28 anos sem Natália. Nos últimos dois, tem sido a minha companhia diária porque lhe devo uma biografia de pescoço longo, como o dela, e nisso me tenho empenhado. Se já não bastasse a obra, Natália ofereceu-nos a pessoa.

Natália é manusear um papiro antigo que ao toque abre novos veios e ramifica outros, desafiando o caminhante a uma viagem longa. Haverá cansaço, na exata razão do cansaço da vida. E haverá ficção, na exata razão da efabulação da vida.

Ensaísta, romancista, cronista, jornalista, poetisa, dramaturga, a sua obra impõe-se como uma das expressões mais originais, profícuas e polissémicas no panorama das nossas letras. Às dimensões elencadas, juntam-se outras faces poligonais de mulher pública e libertária, sedutora compulsiva, uma allumeuse nas palavras de alguns, que usou os espartilhos da vida política, como voz, apoiante ou deputada, sob uma égide maior – a da liberdade – e apenas enquanto se acomodaram com conforto ao corpo dessa liberdade.

Natália Correia nunca sussurrou compromissos ou alinhou em trapaças das quais pudesse tirar dividendos. Soube ser oposição ao Antigo Regime e apontou o dedo, posteriormente, aos que prestaram vénias aos novos deuses, aos deuses da revolução totalitária, e não honraram a liberdade conquistada no 25 de Abril. Teve o epiteto das escritoras mais censuradas durante a ditadura e, no PREC, expulsou a comissão de moradores que lhe queria medir à passada o apartamento da Rodrigues Sampaio: "é pouco espaço para a minha biblioteca", gritou-lhes, quando insinuaram que a casa seria grande de mais para o número de habitantes. 

Foi julgada em tribunal plenário por ofensa à moral pública nos anos 60 e viu uma crónica vetada pela comissão de trabalhadores de "A Capital" já depois de Abril. A PIDE suspeitou que fosse espia, infiltrou agentes na sua sala-de-estar e observou-a, a partir do areal, enquanto nadava ao largo do Estoril com Humberto Delgado. Depois de um namoro longo socialista, ingressou, para espanto de muitos, na Assembleia da República como deputada do PSD. Estava apaixonada pela relação extramarital tornada pública entre o líder socialdemocrata Sá Carneiro e a editora Snu Abecassis. Votou sozinha na bancada, de pé, a favor da liberalização da interrupção voluntária da gravidez e abandonou o partido, mais tarde, quando confrontada com conceitos inaceitáveis para quem defende a cultura como património de todos os portugueses.

Amou homens mais velhos e apaixonou-se por homens mais novos, mas o seu corpo nu extraído ao mármore foi esculpido por uma mulher, a escolhida para partilhar a gerência, junto ao miradouro da Graça, do bar Botequim - espaço de liberdade e de tertúlia que marcou profundamente Lisboa nos anos setenta e oitenta. Por lá, rasurou o Documento dos Nove, aconselhando os capitães de Abril ao bom uso da língua e da democracia. Repassou na obra a figura do abandono em criança, personificado no pai perdido num Brasil de oportunidades, mas compreendeu intimamente que o indivíduo está acima da família. Na infância, almejou ser poetisa, detetive e dona de um casino clandestino. Cumpriu dois destes desejos. 

Para se emancipar, aos 18 anos, casa com um funcionário judiciário e sente a humilhação de, em tribunal, ter de confessar adultério sob pena de manter este matrimónio abusivo. No salão de sua casa, onde representou a peça "Hui Clos" de Sartre proibida pela censura, matou a fome aos amigos poetas, escritores, indigentes, surrealistas, anárquicos com lagostas e vinho da Borgonha. Quando o dinheiro escasseou, constituiu uma firma de empregadas domésticas, que, naturalmente, levou à falência. Dobrava as árvores da Avenida da Liberdade na juventude com a sua beleza, com a idade e os problemas de saúde acomodou-se a um corpo que deixou de querer ver ao espelho.

Muito pano sobra deste costurar de episódios. A vida de Natália avançou para todos os pontos cardeais, até a genealogia lhe abalizou os contrastes, correndo-lhe no sangue descendência real e escrava.

A riqueza biográfica ofuscou a obra? Em certa medida. Ou, dito de outra forma, deu lenha à fogueira dos seus detratores. Como a personagem Miguel do seu romance "A Madona", advogava que é preciso sonhar em voz alta, amar em voz alta, odiar em voz alta, mijar em voz alta, fornicar em voz alta, ultrajar os bons costumes. Porém, terei de questionar: terá Natália Correia feito tudo de forma tão audível que talvez nunca a tenhamos ouvido? 

A inteligência e o desconcertante sentido de autoencenação majestático, tonitruante ou sedutor, fonte das maiores lendas a respeito desta mulher, poderão ter camuflado uma fragilidade complexa e paradoxal, com raiz numa infância marcada por abandonos e uma afetividade pouco estruturada, que se manifestava num culto da sua privacidade e que ajudou a criar e a difundir o mito da mulher fatal, quase tão palpável como o que atribuímos às musas do cinema dos anos cinquenta. 

Nas entrelinhas, alertou os menos atentos: a poesia é o défice das nossas inibições. Viver poeticamente é viver as coisas em potência. É esta narrativa ínvia e contrastante que torna irresistível a sua descodificação. Haja verbo para a contar!

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