Escritor luxemburguês Guy Helminger em projecto "Visita em Casa"

"O Porto é fantástico"

O escritor luxemburguês Guy Helminger foi convidado para jantar em casa de desconhecidos, no Porto. O convite faz parte da iniciativa "Visita em Casa", organizada pelo Goethe Institut. A ideia é levar dez escritores europeus a visitar casas de pessoas comuns, em 15 cidades da Europa. Em Maio, Gonçalo M. Tavares esteve no Luxemburgo. Guy Helminger, que vive na Alemanha, escolheu o Porto. A conversa com o CONTACTO começou durante um jantar com jovens portugueses, em Cedofeita, continuou na Ribeira e acabou em Sá da Bandeira, na loja oficial do Futebol Clube do Porto, onde o escritor comprou T-shirts do clube para oferecer aos filhos.

O luxemburguês Guy Helminger escolheu o Porto para estas visitas, organizadas pelo Goethe Institut
O luxemburguês Guy Helminger escolheu o Porto para estas visitas, organizadas pelo Goethe Institut
Foto: Duarte Silva

CONTACTO: Por que é que escolheu o Porto?

Guy Helminger: Na lista havia várias cidades, como Barcelona, mas eu já lá estive e quis vir a um lugar onde nunca tinha estado.

E já viu alguma coisa?

Sim. Ontem, fiz o que faço sempre quando chego a uma nova cidade: passear. Passeei durante cinco horas e fiz provavelmente tudo o que os turistas fazem no primeiro dia [risos]: fui ao Coliseu, à rua pedonal [Santa Catarina], ao Douro, que tem casas fantásticas... É tão bonito!

Então está a gostar?

Sim, muito. Eu gosto de cidades que não sejam perfeitas e arrumadas, de cidades com marcas. Isto cria uma atmosfera, uma ’patine’, e o Porto é fantástico, é uma cidade que me agrada muitíssimo.

Nasceu em Esch-sur-Alzette, onde há muitos portugueses. Conviveu com portugueses na escola?

Não. Eu estudei na escola primária Dellhéicht, e na minha turma havia apenas uma menina portuguesa, os outros alunos eram luxemburgueses.

Então não aprendeu palavras em português para usar nesta viagem?

Não, de todo [risos]! Com os jovens é fácil, eles falam todos inglês, mas com as pessoas mais idosas não, porque eles não falam outras línguas e eu não falo português. Mas aprendi espanhol e entendo algumas coisas.

As visitas a casa que vai fazer no Porto não são nada convencionais: uma casa com jovens portugueses ligados às artes e um casal que adoptou crianças africanas.

Eu disse ao Goethe Institut que preferia ir a casa de pessoas que não fossem funcionários ou diplomatas, preferia que não fosse uma coisa formal. Mas também teria gostado de ir a casa de pescadores – porque não acompanhá-los durante um dia e ir com eles num barco pescar? Teria gostado disso. O que eu queria era estar com pessoas que vivem aqui e podem falar-me do Porto.

Nos jantares vão ser lidos três poemas seus traduzidos para português. Já tinha sido traduzido para esta língua?

Não.

Vive na Alemanha desde os anos 80. Porque é que decidiu deixar o Luxemburgo?

Foi em 1983, e nessa altura não havia universidade no Luxemburgo. Como queria estudar literatura alemã, fui para Heidelberg. Dois anos depois, decidi ir para uma cidade maior, e como tinha amigos em Colónia a viver numa comunidade que tinha um quarto livre, decidi ficar.

A literatura esteve sempre nos seus planos?

Não, só a partir dos 17 anos. No Luxemburgo obrigavam-nos a ler uns calhamaços horríveis, Zola, Balzac. Eu detestava aquilo. E depois um dia, no liceu, em Esch, lemos poemas de Gottfried Benn [poeta alemão], e aquilo mexeu comigo. Uau! Não sabia que se podia fazer aquilo com a língua. Nessa mesma noite tentei fazer a mesma coisa. Fiz dois, três poemas, dei-os à minha namorada, e disse-lhe: “Vais ver, um dia vou ser escritor e vou ser publicado na Suhrkamp” [grande editora alemã]. Levou trinta anos a acontecer, mas aconteceu. Desde esse dia, quis ser escritor. Era uma ideia um bocado ingénua. Eu não sabia que dava uma trabalheira e que era difícil ganhar a vida assim [risos]. Levou muitos anos, fiz uma data de coisas...

Incluindo teatro...

Sim, e trabalhei num bar punk, em Colónia, e a fazer estradas, e em cima de telhados... Fiz o que fosse necessário para sobreviver. E trabalhei na televisão alemã como assistente de realização, sempre pensando que um dia pudesse viver da escrita.

E hoje, consegue?

Hoje consigo, mas só desde 2005.

Guy Helminger na Ribeira
Guy Helminger na Ribeira
Foto: Duarte Silva

Há muitos escritores luxemburgueses a viver fora do país. É difícil ser escritor no Luxemburgo?

Hoje em dia o Governo e várias pessoas estão a tentar desenvolver uma identidade cultural para o Luxemburgo, mas quando deixei o país, nos anos 80, não era assim: não havia Philharmonie, não havia teatro, não havia editores, não havia nada culturalmente, era como o terceiro mundo. Mesmo hoje em dia é difícil viver da escrita no Luxemburgo.

É um mercado pequeno.

É. Os editores não fazem mais de mil exemplares numa primeira edição. Na Alemanha, uma primeira edição tem 100 mil exemplares e há muitas leituras públicas, que são bem pagas. Pode-se ganhar a vida com a escrita, mas no Luxemburgo é difícil. É possível, como no caso do meu irmão [Nico Helminger], que faz muitas peças de teatro e escreveu librettos para a ópera. Mas antes da criação da Rádio Sócio-Cultural [100,7], não havia peças para rádio no Luxemburgo. Em Colónia, há cinco estações de rádio, e cada uma difunde peças de vários escritores.

Conhece escritores portugueses?

Sim. O Lobo Antunes é o meu escritor português preferido, tenho uns 10 livros dele. Ele foi fazer uma palestra à Alemanha e eu fiquei entusiasmado por ir conhecê-lo, mas depois ele quase não falou, não respondia às perguntas... É uma pessoa difícil. Vou continuar a lê-lo, mas não volto a ir vê-lo [risos].

As impressões destas viagens vão ser publicadas num livro que vai ser apresentado em 2017, na Feira do Livro de Leipzig. Antes de começarmos a gravar, disse-me que ontem se deitou tarde, porque esteve a tomar notas sobre o jantar. O que é que lhe chamou a atenção?

Tomei notas sobre pequenas coisas no comportamento das pessoas, a forma como alguém colocava os pés... Havia uma mulher que passou o tempo todo a girar enquanto falava comigo [faz círculos com o corpo]. E também escrevi sobre o Porto. É uma bela cidade, mas não no sentido de que tudo é perfeito, pelo contrário. É como os rostos das pessoas: as modelos que vemos nas televisões têm cara de quem nunca viveu, não há ali nada. Eu, como escritor, não posso fazer nada com isso, e se uma cidade é assim, vou-me logo embora. Mas o Porto tem cicatrizes, tem 'patine', e é disto que eu gosto. Temos a impressão de que a cidade viveu.

Neste momento a cidade é muito procurada pelos turistas, mas há muitas marcas da crise. Há pouco fez muitas perguntas sobre a crise em Portugal e criticou a Europa.

A ideia original da Europa, a união de vários Estados nacionais a trabalhar juntos, mantendo a identidade de cada um, é uma grande ideia. Mas hoje temos uma Europa virada apenas para a economia, e não é uma economia para todos. O único objectivo da política é assegurar que os credores sejam pagos, mesmo que isso não seja possível e que piore as coisas, como aconteceu na Grécia. Se um país tem de pagar milhões e para isso as pessoas têm de perder tudo o que pouparam a vida inteira, se para isso é preciso aumentar os impostos, então destrói-se o mercado interno, temos mais pessoas desempregadas e ninguém vai poder comprar nada. É realmente destruir um país.

Em Portugal também houve cortes de pensões e de apoios sociais, com o anterior Governo.

O problema é que quem dá as ordens, a Comissão, o FMI e o BCE, são entidades que não foram eleitas democraticamente. Na Grécia fez-se um referendo, e apesar de as pessoas dizerem que não, no dia seguinte o governo teve de fazer o que eles queriam: aumentar os impostos e piorar a vida das pessoas. Isto não é democracia, é uma ditadura. Temos de parar imediatamente com isto e fazer políticas para todos. E os acordos do TTIP [Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento, com os EUA] e o CETA [Acordo Económico e Comercial Global, com o Canadá] vão novamente no mau caminho. Que diferença faz votar para termos mais ecologia, se depois uma empresa americana pode processar o país porque teve prejuízos com as leis ecologistas que o Governo aprovou e em que as pessoas votaram? Na prática, são as corporações que fazem a lei. Mas nesse caso, porque raio devo votar? Passo a passo, perdemos democracia, e isso é inaceitável.

A Alemanha tem sido acusada de explorar os países do Sul, mas a população também se queixa da precariedade.

É a mesma coisa em todo o lado. Na Alemanha vemos cada vez mais pessoas idosas que não conseguem viver com a pensão que têm, e que são obrigadas a procurar garrafas no lixo para venderem na reciclagem e fazerem algum dinheiro. Isto não se via nos anos 80, mas agora vê-se muito.

E o que é que ainda vai fazer durante a sua estadia? Disse-me que queria comprar T-shirts do Futebol Clube do Porto.

Sim. Sou um grande fã de futebol e os meus filhos também. A minha filha faz ginástica olímpica mas também joga futebol, e sempre que vou a um país compro-lhes camisolas das equipas locais. Eles têm uma T-shirt da Jeunesse de Esch (eu joguei lá quando era miúdo), uma da selecção nacional do Luxemburgo, do Paris Saint Germain, e agora também vão ter uma do Porto.

Foto: Duarte Silva

O jornalista da rádio alemã que veio ao Porto para o entrevistar descreveu-o como um escritor que não é 'mainstream' (popular), mas também não é obscuro, está algures entre os dois. É assim?

[Risos] Não sei. Mas não quero saber se sou ou não 'mainstream', eu escrevo aquilo que quero. Durante muitos anos fui obrigado a ter empregos de que não gostava, e agora só quero escrever aquilo de que gosto.

No séc. XIX a popularidade era mal vista e os escritores tinham mais autonomia, porque não eram obrigados a agradar aos leitores. Hoje o paradigma mudou.

Sim, mas eu ficaria feliz se muita gente me lesse. Eu escrevo para as outras pessoas, não escrevo para mim.

Quer comunicar.

Eu quero é ser famoso [risos]! E ainda tenho alguns anos pela frente...

Ser famoso hoje em dia é difícil, tem a concorrência dos 'reality shows'.

Eu sei! E ainda por cima cada vez escrevo mais sobre política e sobre coisas que as pessoas não querem ler. Em Novembro, há uma peça minha que vai ser encenada no Luxemburgo, sobre terrorismo, e no ano seguinte tenho outra sobre a Europa e os problemas de que estivemos a falar. A primeira é em luxemburguês e a segunda em alemão.

Também escreve em luxemburguês?

Não com muita frequência. A primeira vez foi quando a Désirée Nosbusch me convidou para escrever seis episódios da primeira telenovela luxemburguesa, "Weemseesdet" ["A quem o dizes"].

Nessa série havia uma empregada doméstica portuguesa que tinha uma filha hospedeira. Sabe que a actriz que fazia esse papel, a Hana Sofia Lopes, agora faz telenovelas em Portugal? Aparece em revistas, tornou-se conhecida.

A sério? Excelente!

Curiosamente, a telenovela em que ela participa passa-se aqui no Porto ["Coração d’Ouro"]. E como foi escrever para televisão?

As personagens já tinham sido criadas, e eu procurei escrever sobre temas que não são normais neste tipo de séries: um episódio foi sobre terrorismo e outro sobre a morte.

Bem, vamos ver se vai ser tão famoso como a Hana Sofia Lopes.

Sim, e em Portugal! [risos]

Não está a pôr a fasquia muito alta?

Ora, é preciso sonhar. E acreditarmos em nós próprios, ou desistimos sem tentar.

Paula Telo Alves, no Porto

Guy Helminger nasceu em 1963, em Esch-sur-Alzette, e escreve poesia, teatro e romances. Estudou Literatura Germânica em Heidelberg, na Alemanha, e vive em Colónia desde os anos 80. Trabalhou como actor, barman e foi assistente de realização de televisão. O escritor recebeu em 2002 o Prémio Servais, o mais importante prémio literário no Luxemburgo. O seu último romance, "Neubrasilien" ("Novo Brasil"), foi publicado em 2010.