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Esch2022 procura voluntários de todas as nacionalidades
Cultura 26 min. 26.05.2021

Esch2022 procura voluntários de todas as nacionalidades

Esch2022 procura voluntários de todas as nacionalidades

Cultura 26 min. 26.05.2021

Esch2022 procura voluntários de todas as nacionalidades

Madalena QUEIRÓS
Madalena QUEIRÓS
Com um orçamento de 56,6 milhões de euros, o programa Esch2022, Capital Europeia da Cultura prevê cerca de mil eventos ao longo de dez meses. Nancy Braun, diretora-geral de Esch 2022 em entrevista ao Contacto promete transformar a cidade. Na abertura, prevista para 26 de fevereiro, gostava de ter 25 mil pessoas.

 Qual é o objetivo da campanha "Become a remixer" que acaba de lançar?

É uma campanha que lançamos para recrutar voluntários, no quadro de Esch2022. Gostaríamos de ter 500 voluntários para nos apoiar no nosso trabalho. Mas se conseguirmos mais melhor. Pretendemos, por um lado, que nos apoiem na elaboração do conteúdo para o lançamento da Capital Europeia da Cultura. A grande partida e a grande abertura para o projeto está marcada para 26 de fevereiro. Mas depois há muitos outros projetos durante o ano em que os voluntários podem ajudar a co-criar, a assistir e dar-nos uma ajuda.

Quanto ao perfil que procuramos: todos são bem vindos. Porque o objetivo é de inclusão e de fazer as pessoas participar, falar sobre a co-criação e dar acesso à cultura. A campanha tem pequenos vídeos também em português- Será também lançada uma campanha publiciatária de angariação nos transportes públicos, em cartazes e spots rádios. Daqui a algumas semanas estaremos em todo o lado para pedir à população para nos ajudar.

Querem também recrutar voluntários portugueses?

Queremos recrutar todos. Não interessa a língua, não interessa a comunidade a que pertencem, nem a nacionalidade. Todos podem participar.

Que tipo de tarefas podem desempenhar como voluntários?

Há uma multitude de tarefas. Agora no quadro do lançamento, vamos desenvolver diversos ateliês e workshops de dança e coreografia, de música. Há muitos elementos a desenvolver e para que é possível contribuir. Depois durante o lançamento é apoiar os artistas, assistir na guarda-roupa e dar um apoio onde for necessário. Se for necessário pintar uma parede, por exemplo. Depois durante o ano haverá necessidade de guias, se houver pessoas que gostem de mostrar a região em volta.


Companhia portuguesa Mala Voadora encena peça para Esch2022
Espetáculo é uma co-produção entre três países e baseia-se na Carta Universal dos Direitos Humanos.

Haverá projetos Esch2022 em toda a região e que são desenvolvidos por produtores externos como o Teatro de Esch, o Museu da Resistência e outras associações e artistas. Se estas estruturas ou associações precisarem de ajuda vamos ativar a nossa base de voluntários. Por exemplo, vamos ter a Noite da Cultura e vamos precisar de 300 pessoas para servir cerveja. Vamos mobilizar as pessoas. Por um lado, é importante que as pessoas se impliquem e se interessem. Por outro lado temos o objetivo de misturar e remisturar as diferentes comunidades, a população. E esse é um elemento muito importante: ativar toda a população e todas as comunidades para que as pessoas se reencontrem e se entre-ajudem.

Estes voluntários, não têm que vir obrigatoriamente de Esch, de Petange ou de Schifflange, mas toda a população luxemburguesa e também francesa, porque há uma parte de França que faz parte do nosso território e pode participar. E esta é, também, uma oportunidade de descobrir os projetos culturais, descobrir uma cidade e uma região que pode não se conhecer bem.

Gostaríamos que as pessoas trabalhassem para o projeto. Mas damos também retorno: fazemos formação, vamos organizar eventos e festas apenas para os voluntários. Por exemplo, para as pessoas que devem enquadrar as pessoas vamos propor um curso de primeiros socorros e cursos de luxemburguês, porque pode ser necessário conhecer algumas palavras.

Queremos que todos participem e que nos transformemos numa verdadeira grande comunidade. Que deixemos de falar da comunidade portuguesa, comunidade francesa, comunidade italiana, comunidade polaca, queremos que, no quadro de Esch2022, sejamos todos uma grande comunidade.

Este é o meu sonho e esperemos que o consigamos atingir. Temos o desejo de dar acesso a todos a algo verdadeiramente importante, que é a base do nosso projeto de Esch2022, Capital Europeia da Cultura. A ideia de base é aproximar as pessoas e as cidades. Porque há outras duas cidades que são capitais europeias da cultura em 2022: Kaunas, na Lituânia e Novi Sad na Sérvia.

E nesses intercâmbios vamos desenvolver projetos comuns e tentaremos transmitir uma mensagem ao nível europeu: a necessidade de reaproximar a população da cidade e do país.

O que é interessante no quadro de todos os projetos de Esch2022 é que todos estes projetos têm uma dimensão europeia. Pretendemos criar uma ligação, uma rede, também com as futuras capitais europeias da Cultura. Em 2027, por exemplo, há 11 cidades portuguesas que querem apresentar a candidatura a capital europeia da cultura. Podemos desenvolver projetos em conjunto, no futuro, e isso é genial. E se conseguirmos criar essa rede de uma forma consequente, vamos motivar as pessoas a trabalhar em conjunto. E poderemos passar essa mensagem de que a Europa se recria através da cultura, porque é a cultura que liga os países e as populações.

O facto do Luxemburgo ser uma sociedade multicultural, pensa que essa será a grande diferença de Esch2022 em relação às outras capitais europeias da cultura?

Essa é uma grande vantagem para nós enquanto Capital Europeia da Cultura, porque temos essa multitude de comunidades e nacionalidades. Por exemplo, um critério muito importante para a Comissão Europeia é falar sempre da dimensão europeia. No Luxemburgo vivemos a Europa todos os dias, para nós é normal, porque mudamos de língua a qualquer momento e vemos todas as cores. É tão natural. Para os projetos culturais se vamos a um museu ou ao teatro são raras as vezes que vemos artistas luxemburgueses. São muitas vezes estrangeiros, europeus. Isso é tão evidente para nós. Se vivêssemos numa outra cidade, como Kaunas, na Lituânia, ou Novi Sad na Sérvia teríamos uma situação diferente. Porque estão tão longe do centro da Europa que é muito mais difícil.

Nós, enquanto pequeno país no meio de grandes países em volta e onde passar as fronteiras é tão fácil. Em dez minutos estamos em França, num quarto de hora na Bélgica e demoramos meia hora para chegar à Alemanha. Não existem distâncias, nem fronteiras. Para nós é muito mais evidente trabalhar nesta dimensão europeia que para os outros países. Temos a vantagem de ter essa multitude de comunidades e nacionalidades e que dão a riqueza à cultura que vivemos no Luxemburgo.

O grande desafio é como integrar todas essas comunidades num projeto comum...O que poderá fazer Esch2022 para aproximar todas estas comunidades?

Esse é o grande desafio. Penso que há elementos diferentes para o conseguir: os media, por exemplo. O Contacto para chegar à comunidade portuguesa é muito importante. Em Esch, os portugueses representam cerca de 38% da população, o que é muito importante

Quantos voluntários gostaria de ter?

Pelo menos 500 pessoas, mas o ideal seria mil. Mas se conseguirmos mais seria melhor.

Depois temos os projetos que pretendemos desenvolver em ligação com a comunidade lusófona. Há um certo número de atividades para o grande público. Por exemplo, em Bettembourg, o prémio Laurence de literatura para jovens, deste ano, convida a participar todos os jovens da Grande Região, da cidade de Kaunas, na Lituânia e, pela primeira vez, da cidade de Valpaços, em Portugal, uma cidade parceira. Os jovens são convidados a escrever sobre a visão de Esch2022, a ideia europeia, Remix Europa, remix a si próprio e a digitalização. Este é um projeto exemplar ao nível da colaboração europeia. O ideal seria continuar e integrar em cada iniciativa as cidades parceiras, ou outras capitais europeias do futuro.

Depois no Teatro de Esch, no âmbito do programa Panorama o grupo de teatro português Mala Voadora apresentará a peça « Human Nation United Rights ».

Temos um projeto do Brasil "A Colónia Luxemburgesa", un projeto documentário de Dominique Santana, investigadora do C2DH (Luxembourg Centre for Contemporary and Digital History), que descobriu na cidade, João Monlevade, construída por migrantes luxemburgueses, uma cidade que se assemelha a uma cidade do sul industrial do Luxemburgo.

Depois há a "Noite da Cultura" que em 2022, terá cinco edições com um grande final em setembro. Em cada uma das edições será animado um bairro diferente da cidade. Atualmente já estão a ser desenvolvidos workshops de trabalho que pretendem integrar a população local no desenvolvimento de projetos. Penso que será interessante para a comunidade portuguesa se implicar nestes ateliês para preparar as Noites da Cultura.

Há ainda o projeto "7SÓIS LUSO MED ESCH ORKESTRA", desenvolvido no âmbito do Festival Sete sóis, Sete luas que vai criar uma Orquestra Intercultural com a participação de seis músicos que vêm de Portugal, Cabo Verde, Espanha, Itália, Marrocos e Luxemburgo. A produção realizará uma residência artística na cidade de Esch e cujo espetáculo será apresentado em 11 cidades luxemburguesas e outras dez cidades.

Há uma multitude de formas da comunidade lusófona se implicar no projeto, como a Noite da Cultura. Há uma série de projetos em que se apela à participação ativa da população.

Este é um critério e explica como desenvolvemos os nossos projetos enquanto estrutura executiva. Haverá um série de grandes exposições e eventos que se vão desenrolar em Belval sob a nossa direção.

Mas no quadro deste processo participativo de construção do projeto, em 2019, lançámos um apelo à apresentação de projetos e cerca de 130 foram escolhidos. A participação dos cidadãos era um dos elementos-chave, na escolha desses projetos. Havia que pensar desde o início na participação dos cidadãos, na dimensão europeia e da inovação. Depois havia a questão a responder : Que impacto quero ter com o meu projeto? E se o projeto teria durabilidade a médio e longo prazo.

Os projetos foram desenvolvidos em parceria com as comunas?

Ao todo temos 130 projetos mas não queremos que as comunas estejam em competição. Porque há Esch e as comunas em volta e a região francófona do nosso território e todos apresentaram projetos. Mas se tivermos em conta a proporção dos projetos, relativamente à população, existem tantos projetos na CCPHVA que no Pro-Sud. O que significa que, mesmo tendo menos população, o número de projetos que se vão realizar é igual ao número de projetos do Luxemburgo. Honestamente não esperavamos que fosse assim. Foi uma surpresa.

Quanto tempo vai durar Esch 2022?

O programa Esch2020 vai durar cerca de dez meses. Mas pensamos num "Esch Plus" que prevê que, em cada mês, haverá uma outra comuna que é colocada em evidência. Cada comuna deverá concentrar as atividades no mês atribuído. Não nos vamos concentrar, apenas na cultura, mas também na população que habita cada uma das regiões: o que é que a população gosta de fazer, qual a riqueza, quais os pontos de interesse em termos turísticos e em que sentido essa comuna vai desenvolver-se no futuro. Porque este projeto não é feito, apenas, para termos animações durante um ano, mas sim para ajudar a criar uma nova imagem para a cidade de Esch, mas igualmente para toda a região do sul. E também ajudar a formar a base para o futuro desta região.

Um dos objetivos é transformar a cidade de Esch, partir de uma cidade industrial e torná-la mais cultural?

Diria que sim. Mas Esch é uma cidade que já está em transformação. Podemos ver muito bem, aqui, em Belval, que passou de um local industrial para uma cidade de ciência, com uma Universidade e institutos de investigação . Há uma multitude de estruturas que são « os novos mineiros ». Para mim o futuro e a riqueza do Luxemburgo é criada aqui e vai desenvolver-se a partir daqui. Mas o mais importante é mostrar a riqueza da cidade e da região.

Porque a cidade de Esch não têm uma boa imagem. Porque quando estamos em Esch a vida que há em Esch é formidável : há pessoas na rua. Há o problema da criminalidade, mas isso não acontece apenas em Esch, mas em todo o Luxemburgo. São desafios que cada cidade tem e para os quais temos que encontrar soluções. A cidade de Esch teve esta boa iniciativa de, através de projetos culturais, ter a oportunidade de mostrar a cidade de uma forma diferente, atrativa e de suscitar o interesse de vir a Esch e à região.

O projeto tem também um abjetivo de atrair turismo?

Queremos também colocar em evidência a beleza da região. Existem muitos locais muito bonitos como Ellergronn. Penso que com este projeto Esch 2022 poderemos fazer uma boa comunicação em torno de todos estes locais que são lindos e ricos dando-lhes ainda mais valor. O turismo é um elemento muito importante para nós. Esta Capital Eurpeia da Cultura não vai ser, apenas, um programa cultural. Há também este lado de desenvolvimento turístico que é importante. Nos tempos que vivemos torna-se cada vez mais importante. Recentemente, o ministro do Turismo que vai anunciou uma estratégia para retomar o turismo local. Para nós isso também é importante. Temos mesmo um departamento de turismo, mobilidade e desenvolvimento durável. Em termos de turismo desenvolvemos alguns produtos turísticos novos, sem esquecer o que já existe que iremos valorizar. Mas haverá novos produtos. No quadro de Esch2022 o «Minett Trail» vai ser desenvolvido. Este é um percurso de cerca de 90 km que liga todas as comunas e que permitirá descobrir as diferentes facetas da nossa região.

Depois, desde outubro a região Pro- Sud recebeu uma distinção: Minnett Unesco One Biosphere. Nesse quadro, este percurso foi criado e é muito importante para nós porque religa as comunas. Podemos utilizar este percurso para criar atividades culturais, em volta do percurso. Existe muito potencial : O Pro-Sud que gere este biosfera e que vai desenvolver projetos. Mas a grande importância para mim é que depois de 2022 as pessoas se apropriem deste percurso e desses diferentes lugares e desenvolvam projetos e ativações em volta.

Para quem não queira passear a pé, perto desse percurso há o Minett-cycling Tour que pode ser feito em bicicleta. Este é um projeto desenvolvido por Esch2022 . O nosso responsável pelo turismo e mobilidade criou grupos de trabalho e de um deles saiu esta proposta de fazer este Tour em bicicleta. E foi assim que nasceu esta ideia e que será posto em prática no próximo ano. Mas o que é mais importante é que estamos a investir agora, mas é um projeto para durar. Porque estes percursos vão continuar a existir depois de 2022. Esta é uma forma de criar impacto no futuro.

Depois há ainda outro projeto apaixonante desenvolvido por nós que liga duas comunas vizinhas : Sanem e Esch. Um projeto que permite fazer um percurso , num autocarro turístico com óculos VR, de realidade virtual e ir vendo através dos óculos a história dos locais. Penso que este é um projeto espetacular, porque permite contar a história de uma forma muito inovadora aos jovens que, muitas vezes não gostam de ir aos museus. Estamos a desenvolver este projeto que é realizado pela Esch2022, em parceria com o Ministério do Turismo, e que irá perdurar no tempo. Esta é uma forma muito interessante de combinar o turismo e a cultura. Podemos ter produtos que combinem estes dois aspectos.

É dificil organizar uma Capital Europeia da Cultura, em pleno contexto de pandemia?

É muito difícil prever para onde estamos a ir. Mas agora é mais fácil. Mas se pensarmos nas Capitais europeias da cultura que deveriam ter lugar em 2021, a Comissão Europeia decidiu transferir essas iniciativas para 2022 e 2023. Por isso é que teremos três capitais da cultura nesses dois anos.

Tivemos que nos adaptar muito rapidamente, em relação às novas condições de trabalho. Em março do ano passado passámos a estar em tele-trabalho, mas isso tem consequências. Porque atualmente somos uma equipa de 30 pessoas , com todos os membros da equipa externa que são os responsáveis do departamentos culturais das outras comunas. A equipa cresceu muito rapidamente e havia jovens que estavam no primeiro emprego e havia um enquadramento necessário a fazer de trabalho em equipa que durante a pandemia foi muito difícil. Tínhamos todas as ferramentas informáticas necessárias, mas honestamente, acabamos por perder, cerca de quatro meses por causa da pandemia, o que atrasou alguns projetos. Para as exposições maiores era necessário desenvolver reuniões nos locais com os curadores e comissários das exposições, o que não era possível porque as pessoas não podiam viajar. Agora tornou-se um pouco mais simples, mas continua a ser difícil. Há consequências. Mas esta situação permitiu-nos aprender alguma coisas em termos de criatividade, inovação e flexibilidade. Porque cada vez que víamos um projeto, um dos critérios era : inovação. Cada um fez o seu melhor e podemos desenvolver projetos muito bons que tocam também na inovação. Mas com esta situação covid obrigou-nos a ir ainda mais longe na direcção de termos que pensar de uma forma inovadora, para poder realizar o seu projeto. Porque a maioria dos projetos eram pensados de forma tradicional. Mas com a situação covid fomos obrigados a encontrar uma solução. Se queremos fazer mesmo o projeto havia que encontrar uma alternativa para o levar em frente. Este é o grande desafio agora. Estamos em contacto muito regular com os parceiros do projeto para ver como evolui e ver se há adaptações a fazer. Tem que haver essa flexibiidade, para que nenhum projeto seja anulado por causa da situação covid. Há sempre meios de encontrar uma solução. Mesmo se fizermos um exercícico e verificarmos que o projeto não é fazível na sua plenitude, no próximo ano, podemos fazer sempre um « teaser » e dizer : « Isto é o que pode esperar em 2023 ».

Não devemos desesperar. E a nossa tarefa é enquadrar os parceiros do projeto para continuarem motivados.

Não há projetos anulados?

Até agora não. Há um projeto francês que foi retirado, devido à situação porque o artista não tem tempo para o realizar, porque houve muitos projetos retomados nos quais ele tem que trabalhar. Quando todas as portas foram todas reabertas, há muitas coisas que vão surgir ao mesmo tempo, ao nível das organizações. É um grande desafio enquadrar tudo num calendário, para que cada um possa desenvolver o seu projeto e ter o público para assitir. Como disse apoiamos os nossos parceiros no desenvolvimento dos seus projetos.

É claro que se a situação persistir evidentemente vamos garantir que o público seja recebido, respeitando as restrições e as diversas medidas de segurança.

Estão a trabalhar em vários cenários ou espera que tudo esteja normalizado em Fevereiro?

Temos que estar muito atentos à evolução da situação. Mas na minha opinião não penso que chegaremos a uma situação como a que tivemos em março do ano passado. Com todo o processo de vacinação penso que chegaremos a uma situação mais normal. A partir de agora é necessário adaptarmo-nos a um novo funcionameto e uma nova forma de fazer as coisas. Mas não é assim tão mau. Tornamo-nos mais inventivos e somos pressionados a reflectir para que encontremos novas pistas para que os projetos sejam apresentados. É claro que ao colocar os projetos em prática, vamos centrarmo-nos muito no digital.

Se olharmos por exemplo para o grande projeto de lançamento a 26 de fevereiro, estamos a trabalhar. Mas claro que temos um plano B. Mas trabalhamos de forma a que o que pensamos fazer, possa ser feito 100 % de forma digital. Que as pessoas possam participar de casa. Mas acharia isso verdadeiramente horrível : as pessoas participarem nessa abertura a partir do seu computador de casa.

Mas estamos a acompanhar a situação. Temos uma solução 100% digital que podemos lançar. Depois, dependendo da situação gostaria que as pessoas estivessem no local presencialmente e nesse casos temos que garantir que as medidas de restrição são seguidas. Mas hoje todos estamos habituados a isso e trabalhamos num grupo com a Rockal e com outros atores que tem contacto regular com o Ministério da Saúde para ver como desenvolver as coisas.

É possível organizar as coisas o que é necessário é encontrar as soluções. E penso que há sempre uma solução. Não há um problema que não tenha solução.

Não penso que as pessoas depois de passarem tanto tempo sem fazer atividades fora de casa, acho que com este grande projeto Esch2022 as pessoas não vão ficar em casa.

Mas não receia que o medo da pandemia afaste o público dos eventos?

Penso que as pessoas têm, verdadeiramente, vontade de sair de casa. Mas isso depende do que será mostrado. Quantas vezes tentei ter um bilhete para o Teatro de Esch e não o consegui. Isto significa que as pessoas querem sair. Há uma grande vontade nas pessoas de sair para o exterior. Há duas semanas estive no centro da cidade do Luxemburgo, na sábado e era a verdadeira loucura, era inacreditável a quantidade de pessoas na rua. As pessoas esperavam na fila durante uma hora para ter lugar numa esplanada para tomar um café. Há dois anos ninguém ficava na fila. Para dizer que as pessoas tem vontade de sair. Espero que haja a mudança de « Mindset», porque tudo o que aconteceu na pandemia mudou o nosso comportamento. Mas acredito que as pessoas vão sair. As pessoas têm necessidade de sair, fazer qualquer coisa, encontrar os seus amigos e fazer a festa. Há este desejo de sair e de ter outra coisas a fazer para além de ficar em casa em frente aos ecrâs. Esta necessidade de divertimento, no quadro de Esch 2022, esta ideia de voluntários de co-criarem de fazer qualquer coisa, penso que é muito importante. Quando iniciarmos o evento acredito que as pessoas vão participar.

Esse poderá ser um factor de sucesso, porque as pessoas querem sair de casa e ver novas coisas…

Absolutamente. Por exemplo, o que temos aqui é o desenvolvimento sustentável que é muito importante no quadro dos projetos. Desenvolvemos uma carta de desenvovimento sustentável, em conjunto com o ministério do Desenvolvimento, Ambiente e Desenvolvimento Sustentável em que falamos de seis eixos diferentes. Um deles é: dar acesso à cultura, é ir junto do público falar com ele e fazer esta mediação para que ele possa aceder ao que queremos mostrar e transmitir como mensagem. Falar a linguagem do público, é um dos elementos importantes do nosso projeto. Para isso a partir de junho vamo associar-nos a Cultur'All asbl, uma associação que existe há dez anos e que faz um trabalho de ligação a diferentes públicos, a quem queremos aceder para transmitir esta mensagem de Esch2022. É através dessa parceria que vamos fazer uma reflexão sobre acesso à cultura e fazer ativações e trabalhar em conjunto com esta associação para chegar ao público em geral. O que é claro é garantir o acesso à cultura de outras comunidades que , neste momento, não estão muito interessadas. Por exemplo, com esta grande população portuguesa a Esch (cerca de 38%), não penso que consigamos, até agora, chegar a mais de 5% dessa população. Mas o objetivo está em ter esse público também dos luxemburgueses que dizem que não tem nada a ver com estes eventos. A nossa tarefa é dizer-lhes: «Claro que tem a ver contigo!» Porque com este projeto podes tomar as rédeas do teu futuro e criar connosco este movimento que será importante.

Estamos muito ligados a diferentes ministérios e temos parcerias com todas as comunas. Mas agora o que interessa é agir e mobilizar a comunidade portuguesa também. Posso imaginar que haja uma parte da comunidade que não está de todo interessada. Mas há um enorme potencial na comunidade portuguesa de Esch e outras comunas da região.

Penso que a comunidade portuguesa está bem estabelecida e não tem necessariamento de se misturar com outras comunidades, porque está muito bem organizada e tem uma integração completa. A comunidade tem as suas tradições e costumes e por vezes parece que querem permanecer na sua comunidade e não têm necessidade de se misturar.

Não vamos conseguir chegar a toda a população luxemburguesa e a todas as comunidades do Luxemburgo, porque isso é impossível. É preciso ser realista.

Mas há muitas parcerias a desenvolver. Por exemplo, no desporto, estamos a desenvolver com os clubes de futebol para que se tornem também embaixadores do projeto Esch2022, que é uma forma de mobilizar as pessoas que integram esses clubes. Mas há muitas outras associações que querem estar implicadas.

Como vai funcionar a parceria com os clubes de futebol ?

Por exemplo, fomos contactados por um clube para ser parceiro e para apoir o projeto, mas a parceria ainda não foi formalizada. No quadro do lançamento de Esch2022, há muitas atividades desportivas e físicas, todos estes clubes são bem-vindos para ativar os seus membros a participar. Não são apenas as associações culturais, mas também as associações desportivas. Como através da gastronomia. O que é interessante é que estamos a mobilizar os comerciantes e todo o setor da Horesca da região, para desenvolvermos atividades de marketing em torna de Esch2022. Como teremos media internacionais representados, quando mostrarmos Esch porque não ir comer a uma restaurante português, ou ir tomar um café num café italiano. Dessa forma que poderemos mostrar o que é Esch e a sua cultura.

Queremos mostrar tudo o que temos e não serão apenas restaurantes e lojas luxemburguesas. Queremos valorizar todos os membros da população e as pessoas que fazem o futuro desta região.

Ao todo, quantos espetáculos vão realizar?

Será enorme em termos de eventos que vamos realizar. Há cerca de 130 projetos em parceria com outras entidades. Neste momento é difícil dizer porque estamos a trabalhar o calendário. Mas serão cerca de 1000 eventos.

Por exemplo, teremos cerca de cinco edições da “Noite da Cultura”.

Falamos sempre de projetos, porque queremos que eles perdurem no tempo e, por isso, o projeto deve integrar ao máximo as pessoas que habitam nessa região e que têm as ferramentas para os manter no tempo.

Porque muitas pessoas não conhecem a região e têm preconceitos em relação a ela. A nossa tarefa é de colocar o bom “spot” sobre Esch e a sua região.

O que estão a preparar para a Grande Abertura a 26 de fevereiro?

O que podemos dizer, para já, é que será um grande evento que decorrerá no centro de Esch e em Belval. Um projeto de co-criação que implicará a população. Certos elementos estarão relacionados com este espaço Minett e um dos temas será os mineiros do futuro. Elementos que serão integrados no projecto em desenvolvimento com as crianças e escolas. Não será uma sessão solene de abertura. Vai ser muito diferente. Não terá fogo de artifício, nem uma orquesta filarmónica de Esch e não haverá uma sessão académica com 50 conferencistas. Não será assim. Será a festa e não demasiado solene. Haverá um pequeno momento oficial, mas será completamente diferente do que podemos esperar da abertura oficial de um projeto. E os convidados vão certamente divertir-se.

Para terminar a questão da representação das mulheres nos cargos de liderança. A percentagem aqui no Luxemburgo é mais baixa que em Portugal. No seu entender o que pode ser feito para mudar esta situação?

É uma boa questão. É verdade que houve esforços feitos, sobretudo nesta tomada de decisão da questão das quotas de mulheres nos conselhos de administração e outros. Podemos ser a favor ou contra as quotas. Penso que a discussão em torno das quotas, permitiu essa tomada de consciência que era necessário. Pessoalmente não sou a favor das quotas. Penso que se tivermos vontade de investir e de nos implicar e de chegar à liderança das empresas, há um caminho a fazer. É preciso lutar, como os homens e vamos lá chegar. Pessoalmente nunca o senti, mas há um elemento que outras mulheres referem que é preciso fazer o dobro, o triplo, o quádruplo do esforço para chegar à mesma função que um homem. Mas penso que se quisermos verdadeiramente lá chegar, podemos fazê-lo. Porque é que neste momento no Luxemburgo há menos mulheres que ousam lançar-se, será uma questão de mentalidade? É difícil de dizer. Todos temos a mesma bagagem e se quisermos lá chegar temos que fazer o caminho. Talvez o caminho seja mais aventuroso para uma mulher do que para um homem. Mas na minha opinião é uma escolha das mulheres. Por outro lado pergunto se não é uma escolha e um projeto de vida. Penso que há, eventualmente, mulheres que são mais abertas que outras, mas é uma escolha. Talvez no estrangeiro haja mais mulheres que escolhem este caminho. Porque, neste momento, há um certo número de mulheres que estão em posições importantes e, na minha opinião, não é por causa das quotas, mas sim porque estas mostraram que tinham capacidade de o fazer. Por vezes, o sentimento que há dois funcionamentos diferentes: as mulheres têm outra sensibilidade e outra forma de desenvolver um projeto e uma discussão. Penso que estas mulheres fizeram uma percurso formidável e se bateram como outros para chegar a essa posição. É uma questão de não se fazer desencorajar, porque o caminho nem sempre é evidente. Mas também com os homens também não é evidente, há essa competição. Mas penso que se tivermos a visão de chegar a uma determinada posição, e ver desafios mais que problemas. Se nos mantivermos fieis a nós mesmas, às nossas convições, à visão e missão que colocamos para nós próprias, enquanto indivíduos, chegaremos lá. Ser fiéis a nós mesmas é um elemento muito importante. É uma escolha. Não podemos ter tudo e é uma questão de escolha pessoal.

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