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"Eo". O burro e os seres humanos
Opinião Cultura 1 3 min. 27.11.2022
Cinema

"Eo". O burro e os seres humanos

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"Eo". O burro e os seres humanos

Foto: DR
Opinião Cultura 1 3 min. 27.11.2022
Cinema

"Eo". O burro e os seres humanos

Raúl REIS
Raúl REIS
O realizador polaco romantiza e trata o animal quase como se fosse um ser humano...

Contado através dos olhos de um modesto e normalíssimo burro modesto o remake surpreendente e experimental de Jerzy Skolimowski do drama de Robert Bresson de 1966 "Au Hasard Balthazar" tem muitas mensagens dirigidas aos compatriotas do realizador polaco.

O filme chama-se "Eo", o que em português seria "io" (em França, por exemplo, tem como título oficial "Hi-Han") e Eo é também o nome do burro protagonista.

Libertado de um circo no coração da Polónia, o burro torna-se adepto de um clube de futebol local, antes de ser levado para mais aventuras inevitáveis, ou não, numa vida que lhe vai acontecendo ao longo do caminho.

Eo até vai conhecer Isabelle Huppert, um privilégio para qualquer ser vivo, imaginem então para um burro.

Este não é o tipo de filme que tenta convencer os espectadores de que os animais são "como nós", embora algumas cenas retratem humanos que se comportam como animais predadores...

Embora "Eo" não seja um remake puro e simples, o filme do realizador polaco é mais do que uma homenagem. O filme de Bresson representou, na época, entre outras coisas, uma rejeição do sentimentalismo no cinema. Uns minutos depois de dar o nome Balthazar ao burro, a criança que o batizou morre, e o burro muda repetidamente de dono sem nenhuma emoção. Essa propriedade tem uma certa vertente anónima e, finalmente, apenas o público mantém alguma ligação ao protagonista.

Essa dinâmica é reproduzida por Skolimowski, mas o realizador polaco romantiza e trata o animal quase como se fosse um ser humano, dando-lhe a capacidade de partilhar o mundo pelos seus olhos e mesmo a aptidão de ter flashbacks (ou serão sequências de sonhos?).

Por causa de Eo não poder controlar o seu destino, a experiência de visualização é um tanto ou quanto anárquica. O nosso narrador é burro, no sentido de ser um animal, mas merece o nome também por não ser muito esperto.

Sem querer assustar os potenciais espetadores, é preciso reconhecer que não há propriamente um enredo. Na versão de Bresson, os humanos que rodeiam o burro são o verdadeiro centro da história, mas em "Eo" o burro é o protagonista.

Eo é cinzento, com manchas brancas. Não sabemos que idade tem, mas é-nos apresentado logo na sequência de créditos de abertura que, como tantos momentos deste filme, são apresentados em vermelho expressionista que deixa a plateia cheia de dúvidas sobre o tipo de filme que se prepara.

Eo aparece no picadeiro central de um circo acompanhado pela carinhosa domadora Kasandra que o orienta para fazer os truques que o burro aprendeu. Mas Eo é separado de Kasandra quando o circo é desmantelado por problemas de dinheiro, mas também por causa da pressão de ativistas dos direitos dos animais.

Começa assim a odisseia do burro Eo pela Polónia fora.

Há momentos em que podíamos pensar que estamos perante um daqueles filmes de Hollywood em que um cachorro heroico é separado do seu dono e viaja centenas de quilómetros para o encontrar, sobrevivendo a muitas aventuras graças à sua inteligência. Não é por esses caminhos, já bastante percorridos, que o realizador polaco e a sua coargumentista Ewa Piaskowska nos levam. Esta história nem sempre coloca Eo no centro das cenas. Às vezes, no centro da ação está a geografia da Polónia, as suas cidades, o urbanismo, as pessoas que aparecem protagonizando momentos de indiferença ao mundo "natural".

Eo é pequeno e banal. É o tipo de animal que parece bonito depois o conhecermos, mas que não se destacaria num estábulo cheio de outros burros como ele.

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Nós, humanos, não sabemos por que razão ele faz isto ou não faz aquilo. E podemos pensar que é burro. Ele anda, escolhe alguns caminhos, e de repente para e as coisas acontecem, perante alguma passividade do pobre burro.

Este não é o tipo de filme que tenta convencer os espectadores de que os animais são "como nós", embora algumas cenas retratem humanos que se comportam como animais predadores que aterrorizam outros para afirmarem domínio ou reivindicar território.

O filme quer mostrar que Eo escapou do circo, ao contrário dos humanos que construíram um mundo em que são as principais atrações e paralelamente o público.

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