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Entrevista/Toy: "Sou do proletariado com muita honra"
Cultura 9 min. 21.03.2019

Entrevista/Toy: "Sou do proletariado com muita honra"

Entrevista/Toy: "Sou do proletariado com muita honra"

Foto: Sérgio Honrado/Facebook.com/ImageEvent
Cultura 9 min. 21.03.2019

Entrevista/Toy: "Sou do proletariado com muita honra"

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O cantor de nome de batismo António Ferrão e com o curso de contabilista, que já foi torneiro mecânico, imigrante e cantou jazz, veio a Consdorf atuar para centenas de portugueses.

João Gomes, presidente da Associação Cultural Portuguesa de Consdorf, não tinha mãos a medir. A sala já tinha centenas de pessoas à espera de Toy. Esta associação, que vai fazer 14 anos em 10 de junho, orgulha-se de realizar concertos e festas com muita gente que dão alegria a inúmeros portugueses que trabalham no Luxemburgo. 

O grupo de baile aquecia a multidão, enquanto se esperava pelo concerto principal. Na pista mulheres lançavam-se à dança agarradas a outras mulheres, enquanto esperavam que os homens ganhassem coragem para as convidar. No camarim, Toy pedia que lhe dessem os nomes de todos os dirigentes da associação. São quase 20. O cantor escreveu os nomes das mulheres primeiro, depois os dos homens e colocou os cargos. 

Depois virou a folha e de memória voltou a escrever. Faltou-lhe apenas um. Acrescentou. A meio da sua atuação, sem folha, fez uma canção em que falava de todos os membros da direção, nome a nome, revelando o trabalho que tiveram para fazer uma festa que é de todos.

Teve experiência como emigrante?

Fui para a Alemanha com 17 anos para casar. Passo a explicar: a minha irmã estava lá e eu quis ir para aprender alemão. Conheci uma rapariga lá. E naquele tempo ou tinha de me ir embora ou se casasse lá podia ficar. Se regressasse a Portugal tinha de fazer a tropa, o que não me estava a apetecer nada. Mas tinha sido mais sábio, tinha ficado apenas um ano preso em vez de 26 anos (risos). Aprendi na Alemanha a profissão de torneiro mecânico para ganhar umas coroas.

Mas a música é uma paixão anterior à ida para a Alemanha: começou numa coletividade em Setúbal.

Comecei a fazer teatro aos 11 anos na Sociedade Capricho Setubalense. Sendo que, já com cinco anos fazia umas coisas de música. O meu pai era curioso da música. Foi sempre, até hoje, um músico amador de profissão alfaiate. Agora com 94 anos já não faz nada, mas a música foi sempre a sua paixão. Eu tinha aqueles conjuntos e bandas em que tocava um pouco de tudo. O meu primeiro instrumento foi a bateria. Não me lembro de mim sem música.

Como é que na Alemanha conseguiu passar de torneiro mecânico para músico?

Nunca prescindi da música, Os meus pais deram-me a hipótese de ter formação. Podiam ter dificuldades mas deixaram aos filhos o mais importante: a educação. Apesar disso, sou um mau exemplo porque fiz tudo muito cedo: casei com 17 anos, deixei de fumar aos 13, comecei aos nove. O meu pai, quando descobriu que eu fumava, cortou-me a semanada de cinco escudos por semana. "Quem não tem dinheiro não tem vícios", disse-me. E eu tive de me desenrascar. Tinha 13 anos e ganhava dinheiro a ensinar crianças de seis anos a tocar viola: chegava a tirar aos 100 escudos por mês. 

Tive sempre muito jeito para comunicar. Conheci a malta dos conjuntos e fazia uma data de serviços, porque as pessoas sabiam que eu era desenrascado. Tinham uma guitarra para vender? Eu ficava com ela por 30 contos e depois vendia-a por 35. Quando fui para a Alemanha, acabei o curso geral dos liceus e terminei a parte do curso de contabilidade por correspondência. Sou contabilista de profissão. Quando fui para a Alemanha, aos 17 anos, o meu curso não servia para nada, porque nem falar alemão eu sabia. A única maneira de lá ficar foi casar, assim já tinha autorização de estadia e nesse caso já podia tentar arranjar emprego. 

Durante três anos andei a dar aulas de português a filhos de imigrantes; ensinei música, tive um conjunto de baile, participei num grupo de fado, fui vocalista de um grupo de jazz, em que cantava os temas todos do Jobim [António Carlos Jobim, mais conhecido por Tom Jobim], como o "Desafinado"…

Não tem saudades de cantar Tom Jobim?

Canto de vez em quando. Divido a parte profissional da do lazer. Há coisas que canto em família. Gravei três álbuns de recordações em que cantei desde Tom Jones até Moody Blues. Tenho isso gravado, porque transportei o meu lazer para o trabalho para ser feliz. Mas estava a dizer, aos 17 anos, fiz uns biscates até arranjar autorização para trabalhar. 

Quando consegui residência, fui para uma fábrica transportar umas sacas de 80 quilos com um produto químico que fazia um efeito como se tivesse bebido álcool, logo às seis da manhã. Era um trabalho muito pesado. Por isso, aos sábados ia para a fábrica e ficava ao lado de um jugoslavo que trabalhava num torno mecânico. Eu sabia que, se soubesse trabalhar naquele torno, conseguia sair daquele trabalho perigoso que estava a fazer. Consegui fazê-lo.

Quando largou a fábrica?

Aos 25 anos, decidi que o meu filho com cinco anos já tinha idade, disse à mãe dos meus filhos: “Ou vamos para Portugal ou o nosso filho entra na escola e nunca mais vamos embora”.

Abandonou portanto a classe operária…

Não abandonei a classe operária. Sou do proletariado com muita honra: trabalho todos os dias. Cheguei a Portugal e comecei a esgravatar, como costumo dizer, e comecei a trabalhar em discotecas e bares. Consegui arranjar uma editora que me gravou um disco. Participei no Festival da Canção, em que ganhei o prémio de interpretação. A partir daí começaram a chover convites, nomeadamente da Valentim de Carvalho. Foi uma vida intensa de luta, ainda hoje a vida é uma luta. Se pensarmos que já ganhámos e paramos, morremos.

Gostaria de cantar outras coisas?

Canto tudo o que me apetece. Nos meus concertos, com a minha banda, chego a fazer um ’encore’ com um tema dos AC/DC. Neste momento, tenho um público transversal, dos dois aos 92 anos.

Como é que se sentiu ao ver que os portugueses das Jornadas Mundiais da Juventude usavam um tema seu (“Coração não tem idade”, com o refrão: “toda a noite, hmm, hmm”) para comemorar o facto de Lisboa ter ganho a realização do evento com a presença do Papa?

Estava em Cuba, e isso foi no Panamá, e respondi, ao padre que me contactou pelas redes sociais, que se soubesse disso até lá tinha ido [risos]. Achei gratificante e acaba por ser um prémio para todo o meu trabalho. Este grande sucesso não tem explicação. Só posso dizer que tem uma boa matéria-prima. 

Acho que a letra metaforicamente está muito bem escrita. E tem milhares de significados diferentes: qualquer pessoa se pode identificar, desde a senhora de 70 anos, até à criança de quatro. Há muitas identidades naquela letra. Fui feliz naquele dia quando a escrevi. A música é muito orelhuda. Está bem construída. Foi toda tocada ao vivo, não há cá computadores e outras porcarias.

Acha que o tentaram aprisionar no pimba e que agora está a galgar barreiras?

Um criminoso só se sente criminoso quando acha que cometeu um crime. Eu nunca senti que o tivesse feito. Para já, não acho piada ao termo. Quando se quiser adjetivar música só há duas categorias: a boa e a má.

Apesar de não se sentir criminoso, não acha que existe uma espécie de ostracização de uma certa música por a crítica a considerar menor?

É possível que sim. Acaba por ser um paradoxo. Descobri que o “Toda a noite” – o nome da música é “Coração não tem idade” – está na playlist dos aviões da TAP…

Isso é um argumento de venda para os seus 56 anos?

Não é um argumento de venda. É uma realidade. Nunca é tarde para amar. Mas voltando à história, na playlist da TAP está a minha música, mas curiosamente numa versão cantada pelo Agir, de que até eu gosto muito. Isso faz-me lembrar quando o canal um da Rádio Renascença não passava as músicas do Toy, mas passava as do Beto, da Lara Li e da Isabel Campelo que eram compostas, escritas e produzidas por mim. Mas tudo está a mudar. As redes sociais têm, como tudo, aspetos positivos e negativos, mas fazem com que seja muito difícil esconder determinadas realidades. Antigamente, era possível mentir a muita gente, agora consegue-se apenas mentir durante muito pouco tempo, porque tudo é apanhado. 

Há obviamente lugar para a crítica. Eu costumo dizer que, usando a metáfora do vinho, os músicos são os enólogos e o escanção é o crítico. O enólogo faz o vinho, mas se calhar não o sabe provar tão bem como o escanção. Esse precisa de conhecer bem todo o tipo de vinhos e ter cultura vinícola que lhe permita perceber o que prova. Infelizmente, a grande maioria dos nossos críticos nunca tiveram essa capacidade, essa cultura e esse conhecimento para perceberem aquilo que provam. Uma coisa que me irrita é ler críticas em português que eram retiradas dos jornais norte-americanos. Os críticos também plagiam.

Veio de Setúbal: isso marca o seu posicionamento como pessoa?

Sou um homem de esquerda indiscutivelmente. Mas não sou fundamentalista. Tenho a certeza que nascemos todos nus e que temos todos direito à igualdade de oportunidades. Quem trabalha mais deve receber mais. Mas é preciso haver igualdade de oportunidades. Tem a ver com as mesmas regras para todos. Se se liberaliza o país, os ricos tornam-se totalmente donos de tudo e passam a comprar os políticos que se tornam uma espécie de marioneta do capitalista. Curiosamente, as sociais-democracias que funcionam melhor são monarquias. 

Para mim, os países socialmente melhores para viver são a Austrália e o Canadá. E, caso não houvesse embargo, seria Cuba, que é o país mais rico do mundo, só não tem dinheiro. Mas têm tudo de borla, não pagam saúde, educação nem cultura. Conheci Cuba há 15 anos e adorei. É um povo muito culto. Nas ditaduras de direita, estupidifica-se para reinar. Quanto menos o povo souber, melhor. O que é o contrário do que existe em Cuba.

Como é que foi parar ao Roast no Campo Pequeno?

Um 'roast' é um assado em que se grelha um convidado e todo a gente diz mal de toda a gente. É um espetáculo em que só podem entrar pessoas bem resolvidas que aceitem insultos com um sorriso nos lábios. Como eu disse [aos outros participantes] durante o show, com o Campo Pequeno cheio: “Vieram aqui dizer que eu era gordo, feio, mal-vestido e bêbado, se eu não tivesse talento era exatamente igual a vocês. Diverti-me imenso”.

Tem algum significado especial cantar para imigrantes?

Muito significado.

Seriamente?

Sim, eu sou transparente. Tenho todos os defeitos. Mas não digo o que não penso. Emociono-me e identifico-me com os imigrantes. Já fui um deles.

E ainda guia com os joelhos e com calças de flanela?

Isso foi uma piada num programa de televisão, mas ainda guio com os joelhos. Com o telemóvel numa mão e a guiar o volante com os joelhos [risos].

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