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Entrevista: “Se a direita e a esquerda fazem sentido, então eu sou de esquerda”
Cultura 6 min. 13.12.2017

Entrevista: “Se a direita e a esquerda fazem sentido, então eu sou de esquerda”

Carlos do Carmo.

Entrevista: “Se a direita e a esquerda fazem sentido, então eu sou de esquerda”

Carlos do Carmo.
Foto: Promo
Cultura 6 min. 13.12.2017

Entrevista: “Se a direita e a esquerda fazem sentido, então eu sou de esquerda”

Carlos do Carmo regressa ao Luxemburgo no próximo domingo, dia 17 de Dezembro, para um concerto no Casino 2000. Com cinco décadas de carreira, é o fadista mais premiado de sempre e o mais famoso embaixador do fado.

Carlos do Carmo regressa ao Luxemburgo no próximo domingo, dia 17 de Dezembro, para um concerto no Casino 2000. Com cinco décadas de carreira, é o fadista mais premiado de sempre e o mais famoso embaixador do fado. O fadista recordou ao Contacto a vida na casa de fados onde a mãe, Lucinda do Carmo, cantava, e falou das suas convições políticas.

A paixão pelo fado veio da infância ou foi uma descoberta de juventude?

Cresci no meio do fado. Sou filho de uma das fadistas da história do fado [Lucinda do Carmo]. O fado propriamente dito deixou-me uma marca na infância. Devido aos estudos, ficou de lado na juventude, mas voltou e quando bateu, bateu forte. Foi paixão fortíssima, que aumenta todos os dias.

O Carlos do Carmo estudou fora, não estava previsto um futuro no fado. Como se deu essa mudança?

É uma história breve e cheia de ternura, mas com uma parte trágica, que termina com a morte do meu pai. Quando terminei o liceu, o meu pai perguntou-me o que queria ser. Como tinha boas notas a letras disse que queria ser advogado. O meu pai respondeu “não tenho tempo e proponho que vás estudar para onde esteve o teu primo”. Acabei por ir para a Suíça, estudei cinco línguas e tirei um curso de hotelaria. Depois de três ou quatro anos fora, voltei para Portugal, para desenrolar a minha atividade. Para surpresa minha, o meu pai teve um ataque fortíssimo, que hoje penso ter sido um aneurisma na aorta, e morreu instantaneamente. Então aquilo que ele dizia de não ter tempo fez sentido.

O seu pai era o gestor da casa de fados “O Faia” e alguém tinha de administrar o negócio.

Eu ia seguir a minha vida, mas colocou-se um problema familiar. A minha mãe era a cabeça de cartaz e o meu pai era o gestor. Ou a minha mãe contratava alguém, e sabemos que muitas vezes isso pode não correr bem, ou entrava eu. Respeitei a memória do meu pai, respeitei o trabalho da minha mãe e segui em frente com a casa. Tornei-me gestor e a minha mãe continuou como cabeça de cartaz. Depois comecei a cantar e tornei-me também cabeça de cartaz.

A vida na casa de fados foi intensa? O que guarda?

Foram 20 anos extraordinários da minha vida. Guardo saudades dos clientes que eram maravilhosos, mas sobretudo sinto saudades das pessoas que nos serviram. Eram fantásticos: 95% já faleceu, mas guardo-os na minha memória como pessoas importantíssimas do nosso trabalho.

Carlos do Carmo regressa ao Luxemburgo para um concerto no domingo, no Casino 2000.
Carlos do Carmo regressa ao Luxemburgo para um concerto no domingo, no Casino 2000.
Foto: Promo

Deve ter muitas histórias dos 20 anos ao lado da sua mãe.

Nós cantávamos juntos todas as noites e era engraçado, porque o público mais novo vinha ouvir-me e acabava por conhecer a minha mãe. Já os mais velhos vinham pela fadista e achavam muita graça ao miúdo. A nossa primeira gravação foi na cave com uma equipa holandesa que tinha um estúdio móvel e estacionou na rua.

Mas conviveu com grandes fadistas, aprendeu com eles?

Eu tive a escola da velha geração, aprendi muito com quem construiu a época de ouro do fado. Era um deslumbramento ouvir a minha mãe com o Alfredo Marceneiro e não só a cantar, mas também a falar. Eles sabiam dizer tudo e havia respeito hierárquico, como na cultura africana. Recebi grandes conselhos, que ainda hoje procuro praticar e isso só faz aumentar a minha paixão. Hoje tenho uma paixão maior que há 20 ou 30 anos.

Na década de 60 vivia-se na época de ouro do fado?

O António Rocha, um contemporâneo meu, fadista, sábio e um maravilhoso intérprete, deixou-me desperto para uma situação quando afirmou que o fado não muda assim tanto, o que muda são os tempos e as pessoas. E se pensarmos bem, a essência do fado depende muito do enquadramento. Tem períodos e esses tempos tinham um enquadramento especial. Tínhamos as casas de fado no Bairro Alto, vivia-se o ambiente do fado de forma mais fechada ou hermética, mas o fado era puro e duro.

E hoje?

Hoje as casas que existem têm pessoas mais novas, mas com um trabalho de continuidade e alguma inovação. Temos o fado livre, ou fado aberto, com casas de fado que não têm qualquer elenco, mas onde se pode cantar livremente. Há uma mudança de hábitos porque tudo muda e o mundo é composto por mudança. O fado é um camaleão porque adapta-se a todas as circunstâncias.

O próprio Carlos do Carmo inovou na sua abordagem ao fado. No primeiro trabalho teve uma guitarra elétrica e bateria, depois chegou “Um homem na cidade”, que foi um disco conceptual sobre Lisboa.

Carlos do Carlo é o fadista mais premiado de sempre.
Carlos do Carlo é o fadista mais premiado de sempre.
Foto: Promo

Tudo o que quiser pensar, mas é certo e seguro que sempre tive o espírito centrado no respeito pela tradição do fado. Quando fiz “Um homem na cidade” havia uma situação muito clara. A esmagadora maioria dos compositores tinha desaparecido ou estava velha e tínhamos de nos socorrer de novas pessoas para compor. Hoje são compositores clássicos, mas na altura Ary dos Santos, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho ou António Vitorino de Almeida tinham os seus próprios universos musicais. Eles viveram para o fado, abriram as mãos e o coração e fizeram e continuam a fazer um excelente trabalho.

Onde vai buscar essa inspiração e vontade de fazer diferente?

Vou buscar ao mundo. Ainda há pouco tempo convidei um solista clarinetista e um percussionista para me acompanharem num concerto. O público ficou surpreendido, mas esta é a minha inquietação e acredito que a música é livre.

Atrevo-me a dizer que foi o pai da nova geração de fadistas.

Eles [os fadistas] dizem que sim e eu fico bastante sensibilizado [risos]. Através das novas tecnologias eles conhecem bem o meu trabalho e às vezes dizem-me que gostaram de um fado que era acompanhado por bateria. Verdade que nem eu me lembro do fado, mas respondo que sou um grande maluco.

Lançado em 1977, “Um homem na cidade” é um disco sobre a liberdade?

Tem esse sentido por uma razão simples. Pode-se cantar Lisboa em liberdade. Até ali havia censura e isso não nos permitia desenhar várias imagens. Mas depois foi permitido ao Ary dos Santos, o poeta, o criador, o homem da ideia, escrever em liberdade. E essa liberdade não é datada, pode ser ouvida ao longo dos tempos e não é circunstancial. Trata-se da Lisboa que entra em liberdade.

É um homem de esquerda?

Acho que sim. Se a direita e a esquerda fazem sentido, então eu sou de esquerda.

Vanessa Castanheira

(Leia a entrevista na íntegra na edição desta quarta-feira do jornal Contacto)

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