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Soltar as cores
Cultura 7 min. 07.02.2018 Do nosso arquivo online
Entrevista Pedro Calapez

Soltar as cores

Pedro Calapez na inauguração de uma mostra de obras inéditas, no Centro Cultural Português no Luxemburgo.
Entrevista Pedro Calapez

Soltar as cores

Pedro Calapez na inauguração de uma mostra de obras inéditas, no Centro Cultural Português no Luxemburgo.
Foto: Christophe Olinger / Contacto
Cultura 7 min. 07.02.2018 Do nosso arquivo online
Entrevista Pedro Calapez

Soltar as cores

Chama-se “Inóspitos”, mas as cores vibrantes da exposição de Pedro Calapez no Centro Cultural Português no Luxemburgo não podiam ser mais acolhedoras. Ao Contacto, o artista plástico falou sobre estes 25 trabalhos inéditos, que podem ser vistos até 9 de abril.

O Luxemburgo é tão cinzento que hoje, ao ver estas cores todas, achei que não tinham nada de “inóspito” [o título da exposição]. De onde é que vem este título?

[Risos] O lugar da pintura nunca foi para mim um lugar fácil, sempre foi um lugar de esforço e de trabalho. Tem problemas no seu fazer, em criar alguma coisa perante uma folha branca. Daí o “inóspito”, que é mais um conceito sobre a magia de fazer jogar cores e linhas dentro de uma folha de papel.

Refere-se ao processo.

Perfeitamente. Juntando a esse “Inóspito” [série com cinco trabalhos], existem outros dois conceitos: o “Ruído” [16 trabalhos], a ideia de que há uma cor pura que é perturbada por outra, que lhe causa uma alteração, a que chamei ruído; e “Espelho” [quatro trabalhos], com a ideia de que, ao confrontar-me com aquilo que está no papel, o que lá está olha para mim e me reflete ou não. Estamos sempre à procura da nossa imagem e não é a nossa imagem que vemos no espelho, vemos sempre outro. É uma tentativa de procura de si próprio.

Estes trabalhos são inéditos?

Sim, não foram ainda mostrados. São trabalhos de 2017, que fazem parte de séries maiores. Foi uma solução que encontrei para este espaço. Aliás, eu trouxe mais trabalhos que resolvi não pôr.

Foto: Lex Kleren / Contacto

A cor ressalta no seu trabalho. Um crítico espanhol, Mariano Navarro, dizia que havia uma certa humildade em contentar-se em soltar cores trancadas nos tubos e em associá-las. Revê-se nessa interpretação?

Sim, mas as leituras das obras têm a ver com o olhar das pessoas. Mas é um pouco, de facto, soltar as cores no papel. Todos os artistas têm uma paleta e a minha apanha todo o espetro das cores.

E tem uma relação sinestésica com o mundo, associa cores a outras coisas?

Não, não tenho esse tipo de espiritual na arte [risos].

Há cores que evocam determinadas emoções?

Não, porque não estão sozinhas. Quando têm outra cor a acompanhar, transformam-se, mudam. Nenhuma destas cores é aquilo que é no seu tubo.

Alguns dos seus trabalhos anteriores envolviam imagens, incluindo da pintura antiga (Fra Angelico). Há uma grelha de leitura para o seu trabalho?

Sim, há imagens até recorrentes. Estes trabalhos aqui são abstratos, mas em que há uma certa violência de gesto. Prefiro veicular a sua condição de trabalhos que foram elaborados sobre os lugares como problemas, o lugar que a pintura ainda possa ter hoje na pintura abstrata, em vez de se oferecerem como elementos facilmente categorizáveis pelas pessoas. Gostava que houvesse essa sensação poderosa, pura, da força de um gesto e da presença de uma cor.

O crítico Mariano Navarro comparou-o a Alberto Caeiro, um dos heterónimos de Pessoa, e citava o verso “pensar é estar doente dos olhos”. Isso aplica-se a estas obras?

Sim, sem dúvida.

No Luxemburgo, vamos ter também uma exposição de João Penalva no Mudam, dirigido por Suzanne Cotter, que veio de Serralves. Como é que está a arte portuguesa em termos de projeção internacional?

O João Penalva vive em Inglaterra, tem um circuito internacional estabelecido já há muitos anos, o que lhe dá uma projeção importante. Mas durante anos o que aconteceu foi os artistas desenvolverem esses contactos através do seu esforço individual – podemos falar de Cabrita Reis ou Julião Sarmento, da minha geração. Há artistas que têm maior circulação internacional, outros têm maior circulação ibérica, que é o meu caso, ou mesmo nacional. Não quer dizer que sejam menos importantes, mas tiveram oportunidades diferentes. Há casos de reconhecimento internacional, como Helena Almeida, mas são casos pontuais. Penso que há uma geração de artistas, de gerações mais novas do que eu, que acabam por viver em Berlim ou Londres, e isso abriu-lhes outras portas. Espera-se que o Museu de Serralves vá ter um papel importante, por ter um programa muito internacional.

O facto de Portugal ser mais falado pode ser positivo para a arte?

Não tenho a certeza que esses fenómenos de massa possam aumentar a frequência dos museus.

Não atraem o turista típico?

Claro. A circulação de exposições internacionais por Portugal é importante, mas não quer dizer que seja a chave para colocar os artistas portugueses ao nível internacional. É preciso ser colecionado por esses museus, há toda uma outra dinâmica.

Foto: Christophe Olinger / Contacto

Ainda sobre o afastamento do público dos museus: o escritor Roger Vailland dizia que era importante ser amador numa determinada arte para saber apreciá-la. A dança perdeu público, porque as pessoas já não dançam, enquanto os concertos continuam a tê-lo, porque toda a gente canta no chuveiro. As pessoas desenham cada vez menos – a maioria dos adultos continua a desenhar como quando tinha cinco anos. Não há uma espécie de analfabetismo na arte, que chegou a fazer parte da educação?

Bem, ainda faz parte.

Mas de forma muito residual, pelo menos no secundário…

Não podemos tomar as artes plásticas como o motor de tudo e conheço muita gente que não se interessa, não tem essa vontade de observar.

Mas acha que é por não terem interesse ou porque se sentem intimidados, não se sentem competentes para apreciar arte?

Acho que o olhar não tem de coincidir com a vontade de fazer. Quem olha não tem de pensar “eu gostaria de fazer aquilo”, é como se estivesse a ler um livro. A predisposição para essa observação resulta com a prática de ver. A obra deve provocar a interrogação no observador, mais do que dar pistas ou explicar num texto ao lado o que o trabalho é. Podemos explicar um quadro de todas as maneiras, e quando se fala sobre as obras dá prazer encontrar metáforas e falar de coisas que evocam outras. Mas fica sempre qualquer coisa por dizer. A obra é o que me provoca e me faz questionar. É histriónico associar o Stevenson com o Walter Benjamin, as frases que cito no meu texto, só que eles dizem duas coisas que me interessava que ficassem a pairar na mente das pessoas: a questão do viajante e do que é a memória do viajante. Fiz um trabalho também sobre “A viagem à volta do meu quarto”, do Xavier de Maistre, e ele criava um mundo sem sair do lugar onde estava. Os mundos pessoais, os mundos da fantasia, permitem-nos discutir a nossa própria existência, e para mim as obras têm de fazer isso. Pode haver todos os processos educativos, mas a chave está quando as pessoas começam a perceber que há perguntas que podem fazer ao que estão a ler. Isso pode começar na educação, mas não é suficiente.

A série com mais trabalhos, "Ruídos".
A série com mais trabalhos, "Ruídos".
Foto: Lex Kleren / Contacto

Por falar em universos pessoais. No seu, quais são os seus artistas preferidos? Algumas das suas imagens - não as desta exposição - lembram Rothko, por exemplo. 

Sim, de facto. Eu comecei a gostar da ideia do campo cheio através dos artistas “color field”, que é a segunda geração dos expressionistas americanos, como o Clyfford Still ou o Rothko. Mas interessa-me também muito a ideia de espetáculo que se desenvolveu no século XIX, que é a ideia de panorama. É um dispositivo em que o espectador é envolvido na cena que está representada, que simula a realidade - alguns, mais sofisticados, até tinham cheiros e sons, só equiparáveis hoje à realidade virtual. Essa ideia de envolvimento fez-me gostar também de alguns artistas do séc. XVII e XVIII que trabalharam a totalidade. Isso faz-me gostar dos mosteiros bizantinos, passando pelo maravilhoso Giotto, ou ter uma predileção especial por alguns arquitetos, como Corbusier, pelo seu trabalho de organização do espaço. Gosto muito de arquitetos. Ainda hoje fui ao Mudam e vi as citações do Tanizaki, do “Elogio da Sombra”, que é um livro de que eu gosto imenso, que questiona as diferenças entre a luz do Ocidente e a ideia de sombra que acontece na casa japonesa. Não funciono só em termos dos mais óbvios pintores coloristas: há um outro mundo de coisas que me trazem situações para o meu trabalho, não dou primazia aos artistas plásticos. 

Paula Telo Alves


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