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Entrevista/Hana Sofia Lopes. "É cada vez mais difícil que gente comum possa ter casa"

Entrevista/Hana Sofia Lopes. "É cada vez mais difícil que gente comum possa ter casa"

Foto: Jorge Albuquerque
Cultura 10 min. 28.03.2019

Entrevista/Hana Sofia Lopes. "É cada vez mais difícil que gente comum possa ter casa"

Nuno Ramos de Almeida
Nuno Ramos de Almeida
A conversa foi sobre o filme a "Escapada", realizado por Sarah Hirtt, em que Hana Sofia Lopes participa, fazendo de uma ativista anarquista. Estreia em abril no Luxemburgo.

A comunidade anarquista do filme está dividida entre resolver o futuro das crianças e manter uma posição firme em termos ideológicos, afirmando o direito à habitação acima do direito de propriedade. A conversa é sobre o filme e sobre a questão da habitação no Luxemburgo. Falar com Hana é sempre algo de muito vivo. Ela diz que fala com "poucos filtros", mas que diz sempre o que pensa. Confessa-se uma "control freak" que vive no pavor de que as coisas quando saem, não traduzam a sua verdade. Vamos ver se nos saímos bem.

Aparece no filme no meio de uma parte de coletivo anarquista...

O grupo que chega é uma espécie de uma personagem. É um colectivo, no teatro antigo grego seria o coro. Todas as cenas, em que participei e muitas das outras, foram feitas a partir de um improviso. Era dado um mote da discussão e a gente atuava a partir daí. Houve um momento que me senti quase à nora. A maioria das pessoas que intervêm nessas cenas está a representar-se a eles próprios. O improviso durava tipo uma hora, durante a qual falavam de questões como a propriedade privada e de formas de viver em comunidade, coisas que sabem, porque estão a interpretar a vida deles.

Não estão a representar uma personagem, estão a fazer de eles próprios. E isso tornava naturalmente as coisas mais complexas para mim que sou atriz.

Conheceu a realidade dos chamados okupas em Madrid quando lá estudou, como é que foi isso?

Vivi em Madrid quando fiz Erasmus no Conservatório local. E quando ia de onde vivia para as aulas passava pela zona central da cidade, nomeadamente por Tirso de Molina, onde há muitas casas okupas. Via as pessoas a entrar, a vida comunitária, os cartazes a dizerem que todo o mundo era bem-vindo. Não sei porquê, eu sempre tive uma grande atração pela vida comunitária.

Chegou a entrar?

Claro, na segunda ou terceira vez que passei por lá, entrei. Até porque eu não conhecia muita gente em Madrid. A minha escola era muito puxada e não havia quase tempo para fazer amigos. Estava de alguma forma à procura do meu sítio em Madrid e vi aquelas pessoas que pareciam uma espécie de hippies dos tempos modernos e senti uma enorme curiosidade. Então entrei nestas casas e comecei a ser um bocadinho voluntária. Havia muita gente que lá vivia por dificuldades na vida, tinham perdido muita coisa, outra estava por ser ativista.

O que fazia?

Ajudava nas atividades, limpava, cozinhava.

Participava nas discussões políticas?

Participava, mas nunca o suficiente para pegar no micro para intervir, não me sentia com conhecimentos suficientes para o fazer.

E o que achava da argumentação que ouvia sobre o direito à habitação e a contestação à propriedade privada?

Para mim foi muito interessante escutar o ponto de vista deles. Vivemos em sociedades em que existe uma espécie de caminho normal em que as pessoas, como eu, vão para a escola, depois para a faculdade, a seguir trabalham, compram uma casa e têm filhos. Toda a nossa existência está muito formatada: as pessoas não têm muita margem para sair para fora destas linhas. E foi interessante conviver com essas pessoas, porque eles são completamente contra o sistema e afirmam escolher a forma como querem viver e não admitem que ninguém lhes imponha uma. 

Isso foi muito interessante para pensar até a minha vida. Eu como sou atriz e artista sou independente tenho que pagar a minha Segurança Social e estou confrontada com esse tipo de problemas porque não tenho aquilo que alguns acham de um trabalho normal. De alguma forma, também estou numa margem da sociedade.

Como alguns artistas, tem o estatuto de trabalhador intermitente, o que é que isso significa?

Ser intermitente tem de preencher muitas condições. Precisa de ter formação na área, caso não tenha, necessita ter trabalhado há muito tempo. Tem de trabalhar no mínimo 80 dias por ano, o que parece ser nada, mas quando uma pessoa não faz televisão é quase impossível. Nem o Leonardo DiCaprio consegue ter 80 dias de rodagem. Em contrapartida, se preencher todas as condições, o Estado dá uma ajuda financeira quatro meses por ano para que não seja necessário escolher outro trabalho.

Consegue ter essas condições?

Tenho. Mas para ser intermitente tenho de ser independente, o que me obriga a pagar por mês à Segurança Social uma fortuna. Quando digo uma fortuna é mesmo uma fortuna. Começa em 600 euros por mês quando se ganha o salário mínimo, mas se uma pessoa tem um ano em que faz 50 mil ou 100 mil euros, paga um balúrdio à Segurança Social. Ou seja, recebe ajuda do Estado, mas a ajuda vai quase toda para a Segurança Social.

Uma das questões que está na base da problemática do filme é a questão da habitação, que no Luxemburgo não é propriamente fácil.

(Risos) A quem o diz, sou artista. Não tenho um contrato de tempo indeterminado, se chego a um banco e peço para me emprestarem 500 mil euros, o banco pergunta-me logo onde está o meu contrato de trabalho. Eu trabalho de contrato a contrato, o que dificulta mesmo alugar casa. Tenho ainda a agravante que trabalho em muitos sítios diferentes. 

Neste momento, assinei um contrato com uma agência em Londres e outra em Paris, o que significa que estou a fazer muitos castings nestes dois países. Estou a viajar imenso e ainda mantenho a minha agência de Lisboa. Um crédito bancário não é propriamente uma coisa que eu possa neste momento fazer. Tenho de estar livre para me poder deslocar e concentrar-me no meu trabalho.

No Luxemburgo quase não há políticas sociais de habitação. Não acha que puseram os preços de tal forma altos que impedem a maioria das pessoas que cá trabalham de aqui poder viver?

Isso é um problema generalizado. Até há pessoas da classe média que fizeram o seu curso e começaram a trabalhar há cinco anos, querem constituir família e dificilmente conseguem adquirir uma casa, a menos que sejam de uma família super-rica em que os pais tenham dinheiro. Estive num liceu em que muitas pessoas tinham dinheiro de família, eu se quiser comprar tenho de pagar, não tenho ninguém que me ajude.

Apesar desse enorme problema de habitação aqui não reza a história que haja okupas.

Tem que ver com uma cultura e um sistema que forçam as pessoas a seguir por uma certa via. É óbvio que eu se em vez de atriz tivesse sido advogada teria ido trabalhar para o Estado e ganharia os meus 10.000 euros e não tinha de me preocupar com os pagamentos à Segurança Social. Seria muito mais fácil. Quando se quer escolher o rumo que se quer seguir, tem-se muitos entraves.

E se hoje fosse imigrante acabaria provavelmente frontalier (transfronteiriço)?

Provavelmente. Mas para mim seria impossível. Se comprasse casa fora, o estatuto do intermitente perdia-se logo.

No filme, a certa altura, parte do grupo vê-se empurrado a conseguir uma solução de vida mais dentro do sistema, para poder ter uma vida menos insegura para os filhos. Como vê essa deriva?

De alguma forma, revejo-me nisso. Não em relação a comprar uma casa, mas posso vir a ter uma vida menos nómada, se um dia quiser ter família e um filho. Mas a chave para não entrar numa angústia existencial total é dar um passo de cada vez. E não ver tudo como uma montanha intransponível.

O filme vai estrear agora em abril?

Já estreou na Bélgica e chega no dia 20 de abril ao Luxemburgo.

É uma co-produção belga e luxemburguesa, mas é rodado na Catalunha.

Também isso foi um desafio. Quando os outros atores improvisavam em catalão era difícil seguir. Eles eram todos catalães, tirando a Maria Leon que é da Andaluzia. É uma atriz muito reconhecida em Espanha. Penso que já ganhou dois Goyas. Inicialmente fiz o casting para o papel da Maria Leon, mas depois a realizadora, a Sarah Hirtt, disse-me que queria optar por uma atriz que fosse espanhola, mas que queria contar também comigo para o filme. O processo durou quase três anos. Quando a Sarah Hirtt me ligou a dizer que íamos começar a filmar eu estava em Los Angeles. Três semanas depois estava em rodagem.

Foi dífícil a rodagem?

Foi fantástica e surreal. Ainda por cima o filme foi começado a gravar durante o período em que a Catalunha estava no pico da discussão sobre a independência. Estávamos em filmagem quando o parlamento catalão declarou a independência. Os atores, quase todos catalães e independentistas, fizeram uma festa. O clima inundou a rodagem, discutíamos política, para além das cenas do filme, todas as noites. Para mim foi importante tentar perceber as razões deles e aquilo que os movia no processo catalão. 

Um dos atores até tinha sido detido por se ter manifestado pela independência da Catalunha. Nós estávamos alojados numa zona turística, com mansões enormes, cada um tinha um apartamento, mas passávamos muito tempo juntos e eles até ao pequeno almoço discutiam política. Para eles, não era uma questão de filme, eram as suas vidas que eles respiravam frente às câmaras.

Tem esperança que se resolva o problema da habitação no Luxemburgo?

Não sei, sinceramente não sei. Acho que o sistema só responde aos anseios de um certo tipo de pessoas. Este país só está a servir os ricos e os proprietários. É cada vez mais difícil que a gente comum possa ter casa. As pessoas que têm o salário muito elevado veem a sociedade de uma determinada forma e não entendem a realidade em que vive a maiorias das pessoas.

Acha que o seu trabalho com este filme tem uma dimensão política?

Claro que tem. Até senti remorsos, quando as filmagens começaram, de não ter passado mais tempo novamente nas casas ocupadas. Mas o calendário das filmagens não dava para isso.

As pessoas que vinham do ativismo e que entraram no filme viam-na como um deles?

Para mim isso foi a parte mais difícil. Tinha mesmo medo que quando o espectador fosse ver o filme notasse: estes são okupas e esta é uma atriz a fazer-se passar por eles.

Ia dizer que há sempre uma diferença do seu aspeto limpinho e mais produzido...

(Risos) Eu não tomei banho durante três semanas. Só sei que o cabelo quando o tentei pentear parecia ter rastas. E antes do filme o maquilhador disse-me: “temos de fazer qualquer coisa nos teus dentes, estão brancos de mais”. Passaram-me uma cena nos dentes para eles terem um aspeto mais amarelo. Muita gente que foi ver o filme disse-me que quase não me reconheceu. Mas a parte difícil foi fazer-me passar por um deles. Por isso esforcei-me para nas cenas não dizer nada que soasse a falso naquele contexto. O que num improviso é complicado.

Não vai ocupar nada aqui no Luxemburgo?

Não, ocupar não vou. Mas não pode se deixar esta situação continuar infinitamente. Vai chegar o momento em que quase toda a gente não vai conseguir viver cá. Se um qualquer apartamento custa mais de 700 mil euros no centro, é impossível.