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Ana Bárbara Pedrosa. "A mensagem de Cristo é uma coisa, a religião é outra"
Cultura 3 15 min. 22.06.2021
Entrevista

Ana Bárbara Pedrosa. "A mensagem de Cristo é uma coisa, a religião é outra"

Entrevista

Ana Bárbara Pedrosa. "A mensagem de Cristo é uma coisa, a religião é outra"

Foto: Rodrigo Cabrita
Cultura 3 15 min. 22.06.2021
Entrevista

Ana Bárbara Pedrosa. "A mensagem de Cristo é uma coisa, a religião é outra"

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O romance começou por um acaso. Ao princípio era um livro comprado na Feira do Livro e devorado em poucas noites. Desta leitura partiu uma pergunta: como Deus justificaria a sua relação com a humanidade? E a ateia encarregou-se de escrever "Palavra do Senhor". A escritora assume um livro como um exercício literário, em que o amor mostra que mesmo o todo-poderoso tem os pés de barro.

Tem família de livreiros?

O meu avô era livreiro.

Li numa entrevista que a sua mãe chegava tarde a casa, e enquanto esperava por ela, lia na livraria da família.

A minha mãe trabalhava no Hospital de Guimarães, saia às 22:30 e chegava sempre a casa por volta das 23:00. Nessa altura, já estava a ler em casa, porque a livraria já estava fechada. Mas passava muito tempo lá. A livraria era da minha família: trabalhava lá o meu avô, dois tios, o meu pai ia lá estando. Era desenhador, mas depois foi tendo várias doenças e volta e meia também lá ia. E eu e os meus primos dávamos uma ajuda muitas vezes, mas se calhar atrapalhávamos mais que ajudávamos.

Chegou a acreditar em Deus?

Quando era muito pequena, sim. A minha família era católica e era aquele dogma que estava assumido. Da mesma maneira que acreditava no Pai Natal. Mas depois quando comecei a pensar nisso, depois de saber que o Pai Natal não existia, comecei a questionar os dogmas.

Lembra-se desse momento?

Na primária não tinha nenhuma clivagem em relação à religião. Lembro-me que, a partir do 5º ano, já começava a ler coisas e a questionar o que os catequistas diziam - eu tinha uma hora de catequese por semana. A partir do 6º ano, lembro-me que era ateia.

A recusa de Deus tem a ver com uma recusa geral do que lhe davam como adquirido ou tem uma dimensão independente?

É autónoma, por que é uma questão de lógica. Pensar o que são os dogmas – que nunca são questionados na catequese e na religião -, que são assumidos como verdades absolutas, tal como a divisão do mar, o mundo feito em sete dias. E, depois, ver a raiva com que as perguntas eram acolhidas. Quando alguém perguntava como é possível que o mundo tenha sido feito em sete dias, era logo tratado como uma heresia.

Não é possível ter uma fé menos literal e achar que os textos religiosos não são para levar à letra. Lembro-que que um dos Papas, creio que Bento XVI, dizia a respeito do big bang: "a ciência que explique como aconteceu essa explosão que formou o universo e a religião explicará porquê".

É possível, mas depois entra-se numa questão de crença que me parece inútil. Para quê acreditar por acreditar numa coisa não provada. Acho que é insistir numa visão que já existe há milénios, de que existe um criador intencional, mas sem grande propósito.

Foto: Rodrigo Cabrita

Como é que discute isso com José Manuel Pureza, professor universitário e deputado do Bloco de Esquerda, a quem agradece conselhos bibliográficos para o livro, mas que é crente?

Não discuto muito. O Pureza é muito engraçado. Mandamos provocações sobre o assunto, mas nunca falamos muito sobre isso. Nunca tivemos discussões teológicas. Eu agradeço-lhe, no livro, porque procurei bibliografia sobre a personagem de Jesus e ele emprestou-me e indicou-me uma série de livros. Mas de resto, não discutimos o assunto. Não é por ser ele, acho que já não tenho grande interesse em questionar as motivações das fés. Eu já vivi a vida toda entre católicos e vejo a fé como coisa que existe porque sim, e que não é questionada. Já sou ateia de uma forma tão convicta que não me interessa discutir isso.

Mas o livro não deixa de ser uma busca de sentido. Começa, aliás, com uma frase de Caetano Veloso em que este diz: "Existirmos a que será que se destina?"

O livro parte do princípio de que Deus existe, Ele é o personagem, e goza, no livro, com a existência dos que não acreditam Nele: “meia dúzia de ateus não me afrontam e até acho graça que possam julgar que tudo existe por acaso”. A citação do Caetano está dentro do livro, é um preambulo que já faz parte, e como Deus é o narrador, essa questão “a que será que se destina” é explicado por esse criador. Revela os seus motivos para ter criado o universo, por ser afeiçoado pelos seres humanos. O livro, que depois parte para outra coisa, também acaba por responder a isso.

Depois do "Lisboa, Chão Sagrado", em que se concentra em amores, desamores e sexo, como lhe surgiu esta ideia de colocar Deus a explicar a sua ação e de alguma forma a tentar humanizá-lo?

Surgiu-me absolutamente do nada. Às vezes há aqueles livros que nós já temos na cabeça, e temas que sabemos que vamos pegar. Este não estava de todo previsto, aconteceu por acaso. Fui à Feira do Livro, comprei uma série de livros, um deles era o “Novo Testamento”, traduzido por Frederico Lourenço, li-o numa noite, como poderia ter estado a ler um romance. Achei graça aos quatro evangelhos que tratam do mesmo episódio, mas com detalhes e pormenores diferentes e às vezes contraditórios. Pensei na dificuldade que isso representaria para um crente, que tem um livro para formar a sua fé e a sua moral, que o condiciona a si e aos outros. Pensei que a única forma de resolver este problema era a entidade superiora vir esclarecer e pôr os pontos nos “is”. Nesse momento tive a ideia para o romance.

Deixe-me fazer de advogado do Diabo. No seu romance, descartou esse mesmo Diabo. Creio que há duas vagas a2lusões a ele. Coloca em Deus uma frase que lhe é atribuída: "Nós somos a legião e há uma vaga passagem discreta sobre a serpente e da maçã. Por que razão o Diabo não entra nas suas contas?

Ainda pensei colocar lá mais duas frases, mas depois achei-as relativamente inúteis para a narrativa. É uma personagem que estando presente não molda assim tanto a fé. O seu nascimento não me parecia trazer muito ao livro. Ainda tentei fazer uma dualidade, mas depois acho que também se perdia muito na construção da personagem de Deus. Ficava uma personagem para o bem e outra para o mal. Eu quis que Deus fosse outra coisa, que Ele represente o bem e o mal, e a humanidade também. Ele cria-a e depois humaniza-se, mistura-se no claro e no escuro no meio dela. Tudo isso, em vez daquela visão maniqueísta de duas entidades poderosas e independentes que se opõem.

Mas essa é a visão do cânone da fé. Os maniqueístas foram excomungados e mortos. Não existe, supostamente, no cristianismo um princípio e uma divindade autónoma do mal.

Sim, e a mim interessou-me que Ele fosse as duas coisas. Acho muito difícil pensar o Antigo Testamento sem que Deus tenha também essa característica de poder fazer o mal. É, aliás, mais um déspota, um ditador, uma entidade que tem de ser obedecida, que se transtorna e transforma-se em fúria, muito mais do que é um pai.

Nessa escolha, há outros momentos fortes da Bíblia que ficam fora [do cânone Pedrosa]: o livro de Job e o Cântico dos Cânticos...

Tive de deixar muita coisa de fora, porque eu tinha que construir o fio da narrativa, usando os episódios que me interessassem. E aquilo que me importava era o processo da existência de Deus, desde que este cosmos existe, este planeta existe e, sobretudo, os seres humanos apareceram. Depois, quis mostrá-Lo perante as famílias humanas. O que é que isso significava que poderia causar inveja ao criador, que sendo todo-poderoso, não o era integralmente, porque não podia ter um corpo e não podia morrer. O simples facto de não morrer já consegue contrariar a ideia de poder tudo, embora se morresse também não seria todo-poderoso. Escolhi estes episódios para contar esta história. Não queria que fosse um pastiche da Bíblia. Achei que terminar o Antigo Testamento no episódio de Abrão seria o ideal, para que houvesse um corte, até temporal, até Maria.

Como é que acha que uma religião do Antigo Testamento, localizada numa pequena porção de território, teve a capacidade de se tornar numa religião presente em todo o planeta.

Foi instrumentalizada por um império que queria uma religião. E depois é impressionante, que nos dias de hoje, com tanta informação, a religião continue a ter tanto poder, tantos dogmas, sem que ninguém os conteste.

Mas é uma religião do Império Romano, depois de se ter tornado a crença dos escravos desse império, que mandava os cristãos para os leões. Como é que se dá essa transição?

Sim, mas a ideia da submissão está sempre muito presente nesta religião em particular.

E não está também a da igualdade, a ideia de sermos todos iguais perante Deus?

Não necessariamente, porque depois a prática da religião é outra coisa. Quando se vai a um casamento, a mulher jura obediência ao homem. Essa prática não torna iguais homens e mulheres. A igualdade vai logo ao ar, a partir do momento que se tem de criar famílias e que se considera que uma das pessoas dessa família, com determinadas características físicas, possa dar ordens a outra. Essa religião prega muito uma ideia de humildade subalterna de crer muito e questionar pouco. É a forma mais fácil de poder continuar a mandar num rebanho.

Não há dentro da religião uma certa luta. O atual Papa contesta determinadas realidades associadas às características socialmente desiguais e destruidoras do ambiente do capitalismo.

Sim, mas também entra em contradição, com o próprio comportamento da igreja. O Papa pode fazer declarações contra o capitalismo, mas o que vemos na igreja são doações que não são declaradas. Não se sabe bem os milhões de milhões que o Vaticano tem. Tudo dinheiro que não fica registado em lado nenhum. Já para não falar em situações, como em Portugal, em que as propriedades da igreja não pagavam IMI. A igreja sempre teve mensagens de bondade, ao mesmo tempo que ameaça as pessoas com o fogo do inferno e que teve comportamentos totalitários e sanguinários. No caso das mulheres que queriam abortar, a Igreja nunca teve consideração pelas mulheres, sempre foi cruel com elas, pondo um feto acima do valor da vida de uma mulher. Há mensagens que podem ser agregadoras, mas também servem para que esse poder religioso possa continuar.

Acha que a mensagem de uma religião é toda feita para submeter as pessoas. Não se pode pensar na mensagem de Cristo como tendo outras características. A religião não pode ser diferente nas mãos da Teologia da Libertação ou nas mãos da Opus Dei?

A mensagem de Cristo é uma coisa, a religião é outra. Eu até tenho muito afecto pela mensagem de Jesus Cristo e aquilo que ele veio dar ao mundo. O que ele disse é uma coisa boa, o que foi feito em seu nome, não. Jesus foi instrumentalizado para construir esse império. A religião vai ter duas coisas em concomitância, por um lado, há esta parte de manter um rebanho submisso, e por outro, dá um certo conforto, ao dizer que existe alguma coisa para além da morte, o que ajuda as pessoas para suportar esse momento de fraqueza. Acreditar que a morte é apenas um passo para se chegar ao outro lado, também inviabiliza a utilidade da vida, porque ela deixa de ser o espaço total da ação das pessoas. Mas também, é verdade, que tanto há cristãos fundamentalistas como moderados. Numa religião com tantos milhões de pessoas também cabe de tudo.

 

A frase atribuída a Cristo, que cita no seu livro, "a César o que é de César e a Deus o que é de Deus", pode ter como leitura que os cristãos se devem colocar fora da disputa dos poderes terrenos e da sua melhoria.

Pode ser isso, mas também se pode interpretar como uma hierarquia entre os poderes mundanos e os poderes divinos; e que o dinheiro, Cristo pronunciava-se a propósito da face de uma moeda, era coisa pouca e interessava pouco. Essa mensagem também coexiste com “os bem-aventurados os pobres, porque deles será o Reino dos Céus”.

E com a ideia que "é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico ir parar ao Reino dos Céus".

Tudo isso mostra que há pouca vontade de participar na discussão do que existe, colocando uma pretensa superioridade dos crentes, que estariam acima dos outros em termos espirituais. Se está reservado o Reino dos Céus, o reino da Terra passa a não interessar tanto.

A sua família é religiosa?

Quando digo que sou de uma família religiosa, refiro-me aos meus avós serem católicos. Entretanto, só tenho uma avó, que tem as fotografias dos Papas no quarto.

E não lê o seu livro?

Não sabe ler sequer. Não leu a Bíblia, nem sabe provavelmente o nome dos apóstolos. É aí que se vê o poder da religião, fica marcada em gente que nem sabe bem o que é aquilo.

Mas isso acontece com tudo. Provavelmente, a maior parte dos operários marxistas não leram o Capital.

Mas se calhar não têm fotografias do Marx junto à cama, nem vão ouvir leituras do Capital uma hora por semana, como acontece com a missa.

Não houve ninguém que reagisse negativamente ao seu livro? Há umas décadas, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa quis proibir a exibição de um filme do Godard sobre a virgem Maria. No tempo dos governos de Cavaco Silva, o "Evangelho Segundo Jesus Cristo", de José Saramago, foi objeto de um veto de um secretário de Estado da Cultura. Hoje está tudo diferente?

É mais corriqueiro, o que não quer dizer que não haja gente que se escandalize. Tem havido pessoas que acham que o tema não podia ser tratado. Uma senhora chamou-me falsa profeta, outra disse que é tudo invenção da minha cabeça, coisa que se parte do princípio, por que isto é um romance. A menos que fosse plágio. Mas em geral, na sociedade portuguesa, este tipo de censuras já está ultrapassada, até porque essa fração mais extremista já nem é bem aceite.

Não se nota, em todo o mundo, um regresso de um certo fundamentalismo religioso e mesmo cristão, por exemplo o crescimento dessas tendências nos evangélicos?

Eu estava mais a pensar em Portugal e não em relação ao Brasil. Não tive nenhum problema em editar o livro. Apesar de não sentir que haja uma maior compreensão do papel da literatura. Mas o mundo está mais globalizado. As pessoas começaram a ter um acesso muito maior às várias culturas. Passa a ser mais fácil colocarem-se no lugar do outro. O que simplifica as coisas. Há um público para este romance, não creio que seja o público religioso. Até porque este livro é um exercício literário, não me interessa estabelecer o cânone que gente possa acreditar. Interessa-me apenas fazer um exercício literário.

Fala muito de exercícios literários. Li que desde nova fazia exercícios e escondia-os na gaveta. Acha que a literatura vem do vivido ou do exercício?

Acho que vem das duas coisas. O vivido existe sempre dentro da literatura. Não pode existir no eter. Mas não interessa a literatura incapaz de dizer. A parte do exercício é importante porque permite a capacidade de dizer, de veicular uma história de uma exacta maneira. Uma pessoa pode ter uma história extraordinária, mas se não for capaz de a escrever ela não vai ter efeito. Por exemplo, quem resumir o universo da Elena Ferrante em duas páginas, não vai saber como dar, o que dar ou quando dar. É o exercício da escrita e a sua prática que permitem fazer isso. Escrever um romance não é começar numa frase e ir até à última página. A história não existe à partida, vai doseando-se e escrevendo-se. Mesmo que se esteja a partir de uma realidade, para efeitos do romance pode não interessar dar ao leitor o acesso a toda a realidade. Até porque importa agarrar o leitor e levá-lo a ler até ao fim. A mim também me interessa esta ideia do prazer da leitura. Quero veicular um sentido e que a escrita seja sempre ação. Leio em voz alta tudo o que escrevo, para ver se me soa bem. Entendo a escrita como um músculo que é trabalhado, para permitir torná-la uma ferramenta mais capaz.

Nos tempos atuais, a escrita não se tornou mais forma e exercício do que narrativa? Os grandes romances do século XIX e XX contavam grandes histórias, e hoje parece um tempo que privilegia narrativas fragmentárias. Tem a ver com a nossa vida ou com o fartanço dessas grandes narrativas?

Sem dúvida. Isso vê-se muito na literatura portuguesa que é muito elitista. A ideia de escrever complicado e fazer referências é vista por determinada crítica como uma coisa boa. É um conceito que não me interessa nada. Eu quero escrever histórias e ser outras pessoas, e fazer isso bem, para ser capaz de dizer coisas diferentes e de formas diferentes. Daí que os meus livros sejam tão distintos. Não me interessa repetir fórmulas e assuntos.

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