Entrevista a Teresa Salgueiro

“Portugal seria melhor se houvesse lugar para o pensamento”

Teresa Salgueiro
Teresa Salgueiro
Foto: Maria Conceição Pires

Distinguida com o prémio José Afonso na sua cidade (Amadora) por causa do álbum “O Horizonte”, Teresa Salgueiro fala de alegrias e receios, de memórias e do presente, de vinte anos nos Madredeus e dos dez anos que já passaram após a sua saída, de Portugal e do mundo.

Que avaliação faz após cerca de um ano de digressão?

Foi um ano interessante de viagens e desafios. “O Horizonte” saiu em outubro de 2016 e temos viajado tanto em Portugal como em vários países: Turquia, Itália por duas ocasiões, Espanha, Suíça, Taiwan, Macedónia, Brasil, neste caso muito recentemente, para grande alegria minha, pois é um país onde gosto sempre muito, muito de ir…

E onde também é muito querida…

Sim e os concertos correram maravilhosamente bem… Entretanto, a estrutura sofreu algumas alterações: passou a chamar-se “O Horizonte e a Memória”, porque decidi integrar mais alguns temas da cultura portuguesa, vários que já tinha cantado, outros que sentia vontade de cantar. Isto surgiu porque, no ano passado, fizemos concertos em Lisboa e no Porto e, como voltámos a ter oportunidade de estar nestas cidades este ano, não quis repeti-los. E não só por isso – de início, até pensei que pudesse ser um disco duplo em que um seria dedicado em exclusivo a repertório original e o outro ficaria para algumas versões e arranjos que fizemos para diversos temas da cultura portuguesa. Mas aconteceram muitas coisas durante o processo de criação do álbum – houve viagens, uma grande aventura, mudanças na banda e acabei por considerar mais interessante separar mesmo as águas, publicando primeiro o repertório original. Além disso, essa componente da memória é muito importante para mim, pois tenho uma ligação forte a vários autores e intérpretes da nossa música.

A memória representa um papel essencial para si?

Penso que a memória é fundamental nas nossas vidas, pois somos as nossas memórias. Por isso surgiu a ideia de integrar esta questão da memória e trazer para os palcos música de algumas pessoas, umas que já não estão cá, mas estarão sempre pela música que fizeram, e outras que estão e a quem admiro muito. Construímos um espetáculo que faz um percurso ao longo destes territórios das nossas lembranças e que demonstra diversidade e riqueza da nossa música. Todas juntas ajudam a circunscrever a minha própria música e inspiração, permitindo-me construir uma identidade e uma visão sobre como se sente e se é português através da música e da poesia.

Como é a sua comunicação nesses concertos no estrangeiro?

Como é há anos: um encontro maravilhoso com públicos que, na sua maioria, não entendem a língua e têm uma experiência puramente musical com a musicalidade da língua portuguesa, que é maravilhosa. Às vezes gostava de poder ouvir o português sem o entender para apenas escutar a música e ter a experiência pela qual passo com tantas línguas que não falo. Música e palavras, mesmo quando não se entendem, transmitem emoções e é dessa forma que as pessoas se relacionam com elas. E há sempre muitas pessoas que, ao longo dos anos, têm vindo ter comigo e dizem estar a aprender português porque querem entender as letras e isso é gratificante – é o melhor presente que tenho recebido!

Teresa Salgueiro em concerto.
Teresa Salgueiro em concerto.
Foto: Maria Conceição Pires

E com os emigrantes? Como tem sido cruzar-se com os portugueses que vivem no estrangeiro?

Na verdade, à exceção da Suíça, do Luxemburgo e de Paris, não é muito comum que nos encontremos. Mas, este ano, lembro-me de Genebra em que, embora sendo uma coisa rara, a grande maioria do público era formada por portugueses e foi muito bonito. As pessoas sentem saudade da sua terra e ficam muito orgulhosas por um artista da sua terra ser bem recebido no país que escolheram para trabalhar e viver. É uma emoção muito forte, embora rara.

Tem planos para visitar o Luxemburgo nesta digressão?

Tenho planos para ir a qualquer lugar onde que me chamem [risos]. E espero que sim, porque tenho sido muito bem recebida e a última vez que visitei já foi há dois anos, ainda com “O Mistério”, na celebração da 10ª edição de um festival que se celebra numa abadia [Neimënster], muito bonito! Tenho ido com regularidade e talvez faça sentido voltar no próximo ano, gostava muito!

Como encara o facto de lhe ter sido atribuído o prémio José Afonso?

Com muita alegria, foi uma grande surpresa. Estava na sala de embarque do aeroporto, de partida para o Brasil, quando recebi um telefonema a dizer que o prémio me fora atribuído e fiquei muito feliz pelo reconhecimento do meu percurso. É um prémio para o disco “O Horizonte” que me é dado, à minha música e a todos os meus parceiros nesta aventura e considero que é um estímulo e uma responsabilidade para continuar a fazer mais e melhor.

Considera que a música portuguesa tem recebido o devido tratamento nos meios de comunicação?

Não é só a música portuguesa, são as artes em geral – o teatro, o cinema, a cultura em geral e não só a portuguesa. E não, não é bem tratada…

Porquê?

Não faço a mínima ideia. Dizem-me que, nomeadamente no caso da música, se considera que não traz audiências e não consigo compreender, nem concordo com isso, pois as pessoas gostam imenso dos seus artistas, gostam de os ver e de os escutar. Há lugar para concursos de talentos que imitam outros artistas, mas deveria haver um lugar para as artes que estão vivas. Em criança via bailado, música em direto e teatro na televisão e só existia um canal… 

Paulo Jorge Pereira

(Leia a entrevista na íntegra na edição desta quarta-feira do jornal Contacto)

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