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Entrevista a Nick Willing: “As mulheres em Portugal continuam a ser maltratadas”
Cultura 19 min. 15.11.2017

Entrevista a Nick Willing: “As mulheres em Portugal continuam a ser maltratadas”

Paula Rego com o filho, Nick Willing.

Entrevista a Nick Willing: “As mulheres em Portugal continuam a ser maltratadas”

Paula Rego com o filho, Nick Willing.
Foto de arquivo de Nick Willing
Cultura 19 min. 15.11.2017

Entrevista a Nick Willing: “As mulheres em Portugal continuam a ser maltratadas”

Paula Rego é um ícone nas artes e na luta pela emancipação das mulheres. A mulher que deixou Portugal com 17 anos para estudar Belas Artes em Inglaterra – um sacrilégio na altura – acabaria por se tornar numa das artistas plásticas mais famosas do mundo, recebendo da Rainha Isabel II a Ordem do Império Britânico. Mas o maior tributo talvez seja o documentário realizado pelo filho, Nick Willing. O realizador vai estar no Luxemburgo no próximo domingo para apresentar “Histórias & Segredos” e contou ao Contacto histórias marcantes de uma mulher extraordinária.

Numa entrevista, contou que a ideia de fazer este documentário lhe surgiu numa altura difícil das vossas vidas. Andava à procura de um serviço da Companhia das Índias para poder vender e pagar as contas e afinal encontrou filmes antigos com a sua mãe. Foi assim?

Isso foi a forma como eu encontrei os filmes antigos do meu avô, mas a maneira como tudo começou foi quando eu tinha 13 anos. Nós tínhamos uma quinta na Ericeira, era a casa da minha infância – e vais ver no filme que foi uma tragédia, porque a perdemos [devido a uma falência]. Mas nessa casa eu encontrei umas máquinas de filmar antigas, em 1974, e pedi ao meu pai e à minha mãe: “Posso usar estas máquinas de filmagem?”. Pertenciam ao meu avô, o José Figueroa Rego, que morreu em 1966, quando eu tinha cinco anos. Era um homem muito, muito especial, e vais ver no filme que a história dele também é contada e a maneira como ele salvou a minha mãe várias vezes. Mas então eu descobri as máquinas, fui à biblioteca ler livros para ver como funcionavam e comecei a filmar a família: a minha mãe, o meu pai, as minhas irmãs, a minha avó… E foi assim que eu comecei a minha carreira. Depois, a partir dos anos 80, transformei-me num realizador de cinema e já fiz muitos filmes, mas sempre dramáticos.

De ficção.

Sim, como “Alice no país das maravilhas”, “Neverland”. Mas durante este tempo todo continuei, quando pude, a filmar a minha mãe e o meu pai. Naquele tempo, ninguém sabia que a minha mãe ia ser uma pessoa de muito interesse. Nos anos 1980 estávamos mesmo muito pobrezinhos. O meu pai [Victor Willing] e a minha mãe eram os dois artistas e nunca ganharam muito dinheiro. A minha mãe ganhava mais do que o meu pai, mas também era tratada muito mal pelas pessoas que vendiam as obras dela em Portugal, vendiam por muito dinheiro e não davam o dinheiro à mãe, ou davam pouco. Durante essa época não tínhamos nem um centavo. E ela disse: “Olha, vai ver se encontras um serviço muito antigo”, que era da minha bisavó, do séc. XIX. E eu fui à casa da minha avó procurá-lo e vi um armário. Puxei o armário e como estava muito apodrecido o chão caiu e saíram de lá uma data de latas de filme. Depois, numa arca, encontrei o tal serviço da Companhia das Índias e pensei: “Ah, isto vai salvar a minha família”. Pus aquilo na sala de jantar e convidei três avaliadores, e todos disseram a mesma coisa: “Isso não tem valor nenhum” [risos]. Há muitos serviços da Companhia das Índias que valem uma fortuna, mas este por acaso não tinha valor nenhum. Eu voltei a pô-lo na arca e reparei outra vez nas latas de filme, e foi isso que trouxe para Inglaterra. Como já estava a fazer filmes, pus em vídeo.

E o que é que estava nesses filmes?

Eram filmes da minha mãe quando ela era pequena. O meu avô era cineasta amador e começou a fazer filmes em 1928, muito cedo. Foi o primeiro português que teve um cinema privado em Lisboa, onde vivia. Mostrava aos amigos e as pessoas iam lá para ver o Bucha e o Estica e o Charles Chaplin. Ele arranjava os filmes na América e também mostrava os filmes que fazia, da minha avó e da minha mãe, quando ela era pequena. E continuou a fazer filmes até morrer, em 1966, e portanto eu também tenho filmes dessa época: a minha mãe e o meu pai a dançar no terraço da Ericeira, por exemplo. Depois há uma época, durante dez anos, em que não há filmes, e depois eu começo outra vez em 1974. Eu sabia que tinha um arquivo enorme da minha mãe e da minha família.

Nick Willing em criança com os pais, Victor Willing e Paula Rego, na casa da Ericeira.
Nick Willing em criança com os pais, Victor Willing e Paula Rego, na casa da Ericeira.
Foto: Manuela Morais (arquivo de Nick Willing)

E quando é que decidiu finalmente fazer este documentário?

Foi assim: quando a minha mãe fez oitenta anos, ela começou a contar histórias da vida dela que eu nunca tinha ouvido. Coisas muito estranhas.

Por exemplo?

Vou dar dois ou três exemplos, mas antes gostava de explicar que a minha mãe sempre foi uma pessoa muito privada. Eu tenho duas irmãs mais velhas e ela contava-lhes histórias a elas, mas como eu sou o mais novo e era o homenzinho [risos]... Ela mandou-me para um colégio interno e eu não falava assim muito com ela, e ainda por cima ela nunca contava as coisas mais íntimas. E uma das coisas que ela contou foi que quando foi pela primeira vez para a escola de arte, com 17 anos, ficou apaixonada pelo meu pai e ficou grávida várias vezes. E naquela época teve de fazer vários abortos. E ela conta a história. É um segredo, e é um segredo por duas razões: nos anos 1960 era uma coisa ilegal…

A sua mãe aliás, mais tarde, fez uma série de obras sobre o aborto, durante a campanha do referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez.

Sim, e é essa história que eu conto no filme. A mãe também não queria que o povo português soubesse que ela tinha feito abortos, para as pessoas não dizerem: “Ai, ela só faz esses quadros porque fez abortos”. Ela queria os quadros para representar todas as mulheres em Portugal. Ela magoou a alma naquela altura, e ficou sempre a sentir-se um bocadinho… Como é que se diz “guilty”?

Culpada?

Culpada, sim. Quando houve o primeiro referendo em Portugal, em 1998, e não houve votos suficientes para mudar a lei, a mãe ficou muito zangada com os portugueses e com as mulheres de Portugal, que não iam pôr o voto para ajudar as filhas, as mães e as irmãs. E ficou com tanta raiva que começou a pintar estes quadros, para mostrar que não havia médicos para fazer estas coisas e que as mulheres morriam e sofriam para fazer um aborto, como ela sofreu. O poder daqueles quadros, a força que aqueles quadros têm, é porque são da experiência pessoal dela.

Esse é um dos segredos que é contado no documentário?

Sim, e é uma história muito importante. Eu não sei de outro artista no mundo da história da arte que tenha conseguido mudar a lei num país [risos]. Eu até faço uma entrevista com o Jorge Sampaio, que era o Presidente [da República], e perguntei-lhe: “Estes quadros fizeram alguma diferença?”. E ele disse: “Sim, completamente”. Em Portugal as mulheres ficaram chocadas [com os quadros] e com as histórias que ela contou de amigas dela, e de pessoas pobres que viviam na Ericeira e iam a casa dela para pedir dinheiro para fazer um aborto, porque já tinham nove filhos e não tinham dinheiro para pôr comida na mesa. Um dos primos dela até matou a namorada, porque tentou fazer um aborto e a coitada da mulher morreu, e ele pô-la no mar. Toda a gente sabia o que é que acontecia, mas ninguém fazia nada. Era essa a maneira como as pessoas tratavam as mulheres nessa época da ditadura.

Paula Rego com um dos seus quadros.
Paula Rego com um dos seus quadros.
Foto: Manuela Morais (arquivo de Nick Willing).

A sua mãe fez aliás, logo nos anos 1960, um quadro crítico da ditadura, “Salazar a vomitar a pátria”.

Ela fez muitos, nos anos 1950 e 1960. Fez “Quando tínhamos uma casa de campo dávamos festas maravilhosas e depois íamos para o mato matar os pretos”, um quadro crítico da guerra colonial em Angola e Moçambique, e também fez o “Salazar a vomitar a pátria”. E ela não escapou do SNI [Secretariado Nacional de Informação], estava sempre a lutar com o SNI, mas escapou da PIDE. Os poetas e escritores amigos dela foram para a prisão, mas ela nunca foi, não sei porquê.

Talvez porque a partir de dada altura ela passou a viver em Inglaterra?

Sim, mas também vinham a Portugal. Ela ia a Inglaterra com o meu pai, para pintar, e deixavam os filhos em Portugal, com os avós. Mas ela estava sempre a voltar para Portugal.

O Nick no início desta conversa dizia que o seu avô salvou a sua mãe. Salvou-a por a ter feito sair de Portugal, um país na altura muito retrógrado e castrador?

Exatamente. O meu avô era um homem muito interessante. Ele tinha uma fábrica de componentes eletrónicos, mas tinha outra fábrica, que era do pai dele, que fazia tipografia, fazia os horários e os bilhetes para os comboios. Mas durante a noite, quando aquilo estava fechado, ele ia lá e fazia panfletos contra o Salazar. Ele era um homem que tinha dinheiro, tinha uma casa no Estoril, tinha uma boa vida, mas detestava o Salazar. E quando ia para Inglaterra de carro nunca parava em Espanha, porque a única pessoa que detestava mais do que o Salazar era o Franco. Era um homem que tinha muita coragem, um homem fora do seu tempo. E ele sempre encorajou a minha mãe a pintar, viu logo que ela tinha jeito, e naquele tempo era raro um pai encorajar uma filha a pintar. E ele disse à minha mãe: “Vais para Inglaterra, porque Portugal não é um país para mulheres”. Naquela época, Portugal tratava as mulheres muito, muito mal. Agora não sei – eu às vezes vou lá, porque tomo conta do museu da minha mãe em Portugal, e vejo coisas que arrepiam.

Por exemplo?

Ó pá, não sei. As coisas já mudaram muito, mas isto é uma coisa de cultura que é difícil mudar, não é? A Paula sabe do que eu estou a falar.

Imagino que esteja a falar do machismo. Ainda recentemente tivemos uma sentença de um juiz que citou a Bíblia para desculpabilizar a agressão de dois homens a uma mulher. Ouviu falar deste caso?

Não, mas não me admira nada. No fim da ditadura a minha mãe continuou a pintar obras para ajudar as mulheres, e continua a falar sobre isto, porque as mulheres em Portugal continuam a ser maltratadas – não é só em Portugal, mas Portugal é o país dela. Mas então o pai dela disse: “Vais para Inglaterra”, e ela foi. Naquela época, havia uma coisa que se chamava “Finishing School”, só para mulheres, sabes o que é?

Não.

Era uma escola especial para ensinar mulheres a sair do carro sem mostrar as cuecas.

Uma espécie de escola de etiqueta para mulheres?

Sim, é isso. E também ensinavam a maneira de andar com um livro na cabeça, de dançar, ensinavam a melhor maneira de arranjar um homem. As mulheres só serviam para arranjar um homem e tratar da vida dele, a vida da mulher não contava para nada. Mas a minha mãe quis ir à escola de arte, e naquela época era um escândalo. As professoras disseram: “Não, não podes ir, aquilo não é uma situação para uma mulher”. Mas o avô disse: “Vais”. E ela foi para a Slade School [Faculdade de Belas Artes, em Londres] e começou a fazer um grande sucesso. E a expressão que ela encontrou, a pintura, foi a forma que ela encontrou para tratar a cabeça, era a pintura que a ajudava. E no fim foi a pintura que lhe deu o dinheiro de que ela precisava para sobreviver e que fez dela famosa.

Hoje Paula Rego é uma das artistas mais influentes e bem cotadas do mundo – uma das suas pinturas foi vendida por 1,6 milhões de euros. É uma ironia?

Eu acho que sim. É uma mulher que conseguiu fazer o que os homens às vezes não conseguem. A vida às vezes é como um conto de fadas: a coisa que parece impossível é o que conseguimos. Vamos procurar o serviço da Companhia das Índias e não conseguimos, mas encontramos uma coisa ainda mais valiosa, os filmes do meu avô.

Nick Willing e Paula Rego durante as filmagens de "Histórias & Segredos".
Nick Willing e Paula Rego durante as filmagens de "Histórias & Segredos".
Foto: Arquivo de Nick Willing

Como é que foi crescer com dois artistas?

Os meus pais estavam muito apaixonados um pelo outro, e estavam sempre a fugir. Quando estávamos em Portugal, eles iam para Inglaterra só os dois para poderem pintar e trabalhar sem a confusão das crianças – isso é normal para artistas. A maior parte da nossa infância nós ficámos com os avós.

Li que uma vez até se zangou com o seu pai, por ele não ter uma profissão “normal”.

Essa história passou-se uma vez quando eles voltaram para passar o verão connosco em Portugal, e eu fiquei zangado com o meu pai. Eu perguntei-lhe: “Afinal o que é que faz um artista? Eu tenho amigos na escola que têm pais que são advogados, doutores, e eu percebo muito bem o que eles fazem, mas para que é que serve um artista?” [risos]. E o meu pai disse-me – não sei se posso dizer isto em inglês...

Pode.

Ele disse: “O artista é uma pessoa que vai a territórios a que nunca ninguém foi e regressa com uma imagem que nunca ninguém tinha visto, mas que toda a gente reconhece”.

E isso bastou para perceber a importância do trabalho deles?

Os artistas, os pintores, os escritores e os músicos vão a mundos desconhecidos e transformam a forma de ver as coisas. Fiquei encantado com a ideia de que os meus pais estavam a fazer uma coisa até mais importante do que um advogado ou um político [risos], uma coisa que é mesmo essencial para a vida. E comecei a olhar para as obras deles com um olhar diferente e fiquei sempre encantado com a minha mãe e as obras dela. Mas eu fiz este filme para ficar mais próximo da minha mãe, que eu nunca percebi como devia ser.

Explique lá isso.

É normal numa família tentar perceber os pais, mas a minha mãe é uma pessoa muito esquisita [risos]. A única maneira de uma pessoa agarrar a minha mãe é agarrar as obras dela. E foi isso que eu comecei a fazer, a falar sobre o trabalho dela. E depois comecei a perceber outra coisa: quando ela fala sobre um quadro, ela inventa uma história diferente de cada vez, mas quando fala sobre a vida dela, é sempre a mesma história, na vida ela não pode ‘mentirar’. Ela está sempre a esconder o que está na obra, porque é um segredo da vida dela. Todas as obras que ela faz têm poder porque são pessoais, e têm lá escondido alguma coisa da vida dela. São essas emoções que ela põe no quadro que lhe dão força.

Isso foi também o caso numa série que a sua mãe fez sobre a depressão. A sua mãe é maníaco-depressiva?

Eu sabia que ela ficava em baixo, mas o que eu não tinha percebido até começar a fazer este filme é que ela tinha mesmo uma doença, uma coisa que a estava a destruir. E isto é uma coisa que ela teve a vida toda, desde criança. Ela lembra-se de ter três, quatro anos, e de estar cheia de medo de tudo. E o pai dela também sofreu desta doença, os dois são muito parecidos.

É uma doença que ainda está rodeada de um grande estigma, mas que também se associa à criatividade. Num livro chamado “Como tornar-se doente mental”, do psiquiatra português Pio Abreu, ele dizia que, embora fosse muito penalizante, era uma doença que tornava as pessoas muito criativas e que alguns dos maiores génios eram maníaco-depressivos, como Virginia Woolf.

A minha mãe não ia concordar com isso. Quando uma pessoa está deprimida não consegue mexer nem um dedo, fica presa e fechada. Eu perguntei no filme à minha mãe o que ela preferia: ser uma pessoa sem depressão, que não pintava; ou uma pessoa que pinta mas tem depressão. E ela disse: “Eu escolhia não ter depressão”. Ela trocava o talento [risos]...

…por ser uma pessoa sem depressão.

Sim. E eu percebo isso muito bem, porque uma pessoa que sofre de depressão pode ser criativa, mas há muitas pessoas que sofrem de depressão e não fazem nada. Fazer a ligação de uma coisa com a outra é uma coisa perigosa, porque não sabemos ainda se há mesmo essa ligação. O que sabemos é que a depressão tem um estigma, e a pessoa que sofre da doença fica a sentir-se com tanta culpa que não quer que as outras pessoas saibam que ela está a sofrer dessa maneira. A minha mãe nunca me explicou como se sentia, até agora. Em 2007, quando ela já tinha 72 anos, ela estava a sofrer muito de depressão, mas sabia que tinha de mexer o corpo, de fazer alguma coisa. E começou a fazer uma data de obras sobre a depressão, o que sentia e o que a depressão faz à pessoa. Ela escondeu essas obras todas numa gaveta: tinha medo de abrir a gaveta e que a depressão saltasse de lá e entrasse nela outra vez. Mas eu disse-lhe: “olha, temos de ver isso, pá, porque é importante para outras pessoas”. Em Portugal agora fala-se mais sobre isto, e em parte porque a minha mãe mostrou essas obras e falou muito sobre essa doença.

Essa pergunta que fez à sua mãe, sobre se trocava o talento por ser normal, lembra-me um documentário feito pelo ator inglês Stephen Fry, que também é maníaco-depressivo. Ele entrevistou atores que também sofrem dessa doença, como a Carrie Fisher. E ele no fim fazia sempre essa pergunta: se houvesse uma caixa com um botão e bastasse carregar nesse botão para deixar de ser maníaco-depressivo, carregava? O curioso é que a maior parte das pessoas, apesar do sofrimento todo, não carregava no botão.

Ah, mas a minha mãe carregava logo, ela escolhia não ter a doença! Ela sofre muito.

É uma doença muito perigosa, há muitas pessoas que acabam por se suicidar.

É muito perigosa, e é uma pena horrível.

Nick com as duas irmãs mais velhas e os pais.
Nick com as duas irmãs mais velhas e os pais.
Foto: Arquivo de Nick Willing

A Paula Rego é conhecida em todo o mundo, mas os temas que trata são muito portugueses: há a série sobre “O crime do padre Amaro”, contos populares… Apesar de viver em Inglaterra, a sua mãe mantém-se muito ligada a Portugal?

A razão para fazer essas obras é descobrir o segredo, a coisa pessoal nela própria que ela tem de explorar, que tem de exorcizar. Os quadros que ela fez do Padre Amaro dizem mais sobre a minha mãe do que sobre a história do Eça de Queiroz. Ela é uma portuguesa, nasceu em Portugal, foi criada em Portugal e Portugal é um país que ela percebe muito bem. Ela vê como as pessoas são pelos olhos portugueses. Por exemplo, quando a minha mãe começou nos anos 1970 a fazer umas obras muito importantes sobre contos de fadas na literatura popular, ela leu contos do mundo inteiro, foi à British Library [Biblioteca Britânica] para os ler, mas foram só os contos portugueses que ela agarrou, porque achou que eram mais estranhos, mais escuros, mais cruéis, e é isso que ela aprecia. Portanto, é verdade: a minha mãe é uma portuguesa, mas foi a Inglaterra que salvou a vida dela. Mas foi Portugal que…

…que a fez ser quem é, nem que seja por antítese? As pessoas também formam a sua identidade através daquilo que combatem.

Sim. Agora Portugal é um país diferente, mas Inglaterra era um país onde ela se sentia mais segura, tinha menos medo. Em Portugal tinha sempre medo, era um país cruel naquela época. Agora, claro, temos uma democracia, é um país que está transformado e é muito diferente. Mas a minha mãe já tem 80 anos e o que ela tem na cabeça, aquilo de que se lembra do país dela, é ainda um país escuro. Mas também é um país muito alegre. Sabes uma coisa que eu nunca disse a ninguém?

Conte.

Eu falo português mal, porque cresci em Portugal, mas quando viemos para cá, para Inglaterra, eu tinha 13 anos, e comecei só a falar inglês. Esqueci-me de falar português. Mas quando comecei a fazer o filme, pedi à minha mãe: “Vamos falar só em português”. As entrevistas são todas em inglês, mas quando estávamos juntos só falávamos em português: fazíamos partidas, gozávamos um com o outro, para eu falar melhor português, porque eu tinha de ir a Portugal por causa do museu, a Casa das Histórias. Foi com a minha mãe que eu aprendi melhor o português e agora tenho muito gosto em falar. Falo mal, mas prefiro.

E isso aproximou-o da sua mãe, o facto de voltar a falar português?

Ela está mais à vontade quando fala português, apesar de falar as duas línguas perfeitamente. Ela também lê português e gosta muito de ver as fitas portuguesas, tem uma coleção enorme de filmes portugueses e fica ali a ver os filmes. E eu estou sempre a levar mais filmes para ela ver.

De que realizadores é que ela gosta?

Ela gosta de filmes antigos dos anos 40, mas vê tudo. E também lê em português, a literatura portuguesa é uma das melhores do mundo – o que é pena é o mundo não saber [gargalhada]. O filme da minha mãe ganhou o prémio mais importante de documentário em Inglaterra, o Grierson, na última segunda-feira [6 de novembro]. E quando anunciaram que era o nosso filme que tinha ganho, o auditório todo ficou encantado. O amor que existe pela minha mãe aqui em Inglaterra é incrível. Há um amor enorme por ela, que eu por acaso não percebo [risos]. Eu estava a fazer o meu discurso e eles estavam só a bater palmas, porque ficaram tão encantados… E ganhámos, e havia filmes enormes que não ganharam, e portanto eu fiquei muito contente pela minha mãe.

Paula Telo Alves

“Histórias & segredos”, de Nick Willing – Domingo, dia 19 de novembro, às 14h, no Mudam, em Kirchberg. Apresentação na presença do realizador.

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