Entrevista

À mesa com Gonçalo M. Tavares

O escritor português Gonçalo M. Tavares esteve no Luxemburgo para participar no projecto "Visita em casa", que vai levar dez autores europeus a casa de pessoas comuns, em várias cidades da Europa. O escritor, que habitualmente se refugia no seu "bunker do séc. XIX", e é avesso até ao Facebook, sentou-se à mesa com uma família luxemburguesa e participou também num jantar com portugueses. A iniciativa do Goethe Institut vai levá-lo ainda à Alemanha, e dará origem a um livro com as impressões destas visitas, mas para já o premiado autor de "Jerusalém" analisa com olhar matemático as diferenças que separam os europeus – sem trair a intimidade das pessoas que o acolheram, a condição para dar esta entrevista ao CONTACTO.

O escritor Gonçalo M. Tavares sentou-se à mesa com uma família luxemburguesa e participou também num jantar com portugueses
O escritor Gonçalo M. Tavares sentou-se à mesa com uma família luxemburguesa e participou também num jantar com portugueses

CONTACTO: O Gonçalo M. Tavares é um escritor que se preserva muito, e é curioso vê-lo nestas andanças, a ir jantar a casa de desconhecidos. Como é que surgiu este convite?

Gonçalo M. Tavares: Foi um convite do Goethe Institut, que tem um percurso de seriedade e faz as coisas com muita qualidade. O essencial para mim tem a ver com os escritores circularem por diferentes cidades da Europa. E o espírito do programa tem a ver com esta ideia de haver um momento em que o escritor tem estas visitas ao domicílio, que, no meu caso, são visitas como observador, como alguém que vai absorver uma espécie de energia.

Esteve a jantar na sexta-feira em casa de uma família luxemburguesa.

Sim, e no meu caso interessa-me a questão dos objectos que existem nas casas. É evidente que não vou usar isso. O final deste projecto tem a ver com o meu trabalho, que é escrever.

Mas está previsto escrever um texto sobre estas visitas?

O texto será publicado em 2017, mas no meu caso será provavelmente uma ficção. O essencial do projecto não é esta entrada numa casa luxemburguesa ou numa casa alemã. O essencial é passar três dias numa cidade e tentar de alguma maneira tirar informações. O mais relevante para mim é o que eu vejo nas praças, como eu observo as pessoas, como é que as pessoas agem umas com as outras, como é que dois namorados se relacionam, enfim, tentar de alguma forma relacionar isto com o meu trabalho, que tem muito a ver com a observação humana.

E no Luxemburgo o que é que lhe chamou a atenção?

No caso do Luxemburgo, uma das razões que me fez escolher este país é haver uma grande emigração portuguesa, isso interessa-me muito. Nestes dias falei com muitos portugueses. Interessa-me muito perceber o que é que uma pessoa sente quando sai do país, não por motivo de guerra, por um motivo-limite, mas por, digamos, um segundo limite, que é poder viver melhor ou ter melhores condições de trabalho. 

De alguma forma, também foram obrigados a sair do país, a chamada emigração económica.

Sim, não é correr risco de vida, mas é uma espécie de segundo risco de vida, não ter emprego. Neste aspecto, para mim a escolha do Luxemburgo era muito evidente, porque talvez seja a cidade que percentualmente tem mais portugueses, e interessava-me perceber como é que os luxemburgueses vêem os portugueses.

E que impressões leva dessa coabitação?

Não sei. A minha ideia também não é tirar conclusões sobre isso, e não vou fazer um trabalho sobre isso, nem queria personalizar muito em relação aos portugueses, é ter algumas percepções. Por exemplo, eu vou estar em Frankfurt, e uma das questões que me interessa perceber é como é que os alemães estão a acolher os refugiados da Síria. Interessa-me perceber os dois lados, e também perceber estas diferenças: como é que as pessoas vêem um emigrante que apesar de tudo não vem em fuga, como os emigrantes que vêm à procura de trabalho, e como é a recepção de uma pessoa que vem em fuga. A outra parte que me interessa é os europeus: o que é isso de ser europeu? Eu estou cada vez mais fascinado por perceber que realmente nós temos uma forma de gerir a nossa afectividade muito diferente.

Quando diz "nós", está a pensar em quem?

O Norte e o Sul, fazendo uma redução muito simplista. Há quatro dias, em Lisboa, assisti no Indie, que é um festival de cinema independente,  a uma curta-metragem de um norueguês que fez uma espécie de documentário de um banquete da própria família, que se chama "Small Talk". No jantar um fala de cada vez, depois há um pouco de silêncio, depois outro fala, depois há silêncio, e há muito pouco toque corporal. O mais fascinante para mim foi que o cineasta estava presente  e falou um pouco no final, e ele disse logo de imediato: "a minha família é assim, de poucas palavras". E depois disse: "Eu gostava que a minha família comunicasse mais", mas disse aquilo como alguém que diz "eu precisava de mais sal na minha comida, está quase bom mas falta um pouco de sal". E aquilo para nós, para os latinos que estavam a assistir, era...

Chocante?

Chocante e divertido. As pessoas riram-se muito, porque no jantar davam uma garfada e uma pessoa dizia: "Tenho que cortar aquela árvore". Depois havia um momento de silêncio, e outra dizia: "Talvez". O mais curioso foi que as pessoas que estavam a ver se riam, e o cineasta ficou surpreendido, porque para ele aquilo era natural, ele achava que os nossos jantares eram assim. É evidente que nem todas as famílias são assim, mas, por exemplo, o Ingmar Bergman dizia numa entrevista, já com uma certa idade,  que a coisa que mais queria era que a mãe lhe tivesse dado um abraço, que a mãe um dia lhe tivesse dito que gostava dele. É interessante que haja uma relação física entre os corpos diferente.

E confirmou isso no seu jantar com luxemburgueses?

Eu nunca utilizarei questões dos jantares, que para mim são um intervalo.

Não quer falar dos jantares. Mas o que é que achou do Luxemburgo?

O Luxemburgo é um país difícil de perceber, porque há muita gente com modos diferentes. Mas uma coisa que se nota muito, para quem já foi ao México, à Colômbia, ao Brasil, é que o próprio movimento das pessoas na cidade, nas praças, é um movimento muito rectilíneo. Isto pode parecer estranho, mas eu gosto de observar os movimentos das pessoas, e se eu fizesse uma espécie de gráfico da movimentação das pessoas na praça central do Luxemburgo, os movimentos são muito organizados, não tem nada a ver com o movimento numa praça do Brasil ou de Marraquexe: parece que são duas espécies humanas completamente diferentes. E isso interessa-me: por um lado, perceber que todos partilhamos o medo, o desejo, a tendência para a violência, o amor...

Tudo isso é humano, como dizia Novalis?

Tudo isso é humano, mas ao mesmo tempo, há manifestações diferentes. Não é fazer um juízo de valor e dizer "é melhor estarmos numa cidade em que as pessoas se tocam mais do que numa cidade em que as pessoas se tocam menos". Não sei se é melhor ou pior, mas é. E até tem a ver com o próprio espaço, com o número de pessoas no espaço: se temos mais espaço e menos pessoas, há uma tendência para as pessoas não se aproximarem. No México, é impossível passar dois minutos sem estarmos sempre a tocar ou a sermos tocados por outras pessoas: há tantas pessoas em movimento, e com movimentos totalmente imprevisíveis, que nós estamos sempre a ser tocados ou empurrados.

Notou a falta de pessoas no Luxemburgo?

Claro. Eu fui a alguns museus, e fui àquele de arte contemporânea, o Mudam. Só sabia que era atrás da Filarmónica [Philharmonie], e andei à procura de alguém a quem perguntar onde era o museu. Numa cidade como o México ou São Paulo, é impossível estar num sítio durante um minuto ou dois sem ver ninguém, isso não existe. Interessa-me perceber como é que isto altera a forma de viver, a forma de ver o outro, a forma de agirmos.

Há uma frase sua que lembra Barthes, a questão de a linguagem ser uma pele, de servir para nos tocarmos: "A língua portuguesa é uma forma particular de tocar e de ser tocado". Sentiu esse toque da língua portuguesa no Luxemburgo?

Sim, senti. Realmente percebi que há muitos funcionários que falam português nos serviços, incluindo nos vários museus em que estive, como no Casino [Fórum de Arte Contemporânea], onde estava um funcionário português extremamente simpático. Não me lembro de nenhum sítio onde não tenha ouvido falar português  A língua tem a ver não apenas com a função, é também uma canção. A língua começa como som, quando estamos na barriga da mãe e já começa a embalar. Muitas vezes a questão não é a língua servir para nos informar, mas de a língua nos embalar com o som, com o ritmo. Alguém falar a nossa língua, alguém ser português, não é só importante por percebemos que alguém fala a nossa língua, mas porque alguém teve os mesmos sabores na infância, por exemplo – uma coisa de que os emigrantes falam muito.

É curioso, porque fala imenso em toque, em afecto, mas a sua prosa é austera e cirúrgica e tem alguma coisa de absurdo. Já lhe chamaram o Kafka português. É uma comparação com fundamento?

Fico muito honrado com essa comparação, mas uma coisa é a vida, outra coisa é o texto. Eu acho que os textos que são muito emotivos à primeira são normalmente textos em que essa emoção se gasta rapidamente. A emoção na arte não pode ser a mesma que é dada na televisão. Uma vez assisti a um daqueles programas da manhã, e houve um momento em que havia um convidado a falar de uma doença grave. Eu não conhecia o senhor, mas comecei a ver e em cinco minutos já estava quase a chorar. Mas o problema disso é que passados cinco minutos já estava a pensar noutra coisa, tal como na televisão passados dois minutos estava alguém a cantar uma canção super alegre, depois daquela tragédia.

Há uma banalização da emoção?

Sim, esse tipo de emoção – que emociona mesmo, com grande intensidade – não tem valor nenhum, porque é muito superficial. Voltando à questão de os meus livros serem frios ou não: quando alguém se cruza comigo e me diz que leu o "Jerusalém" há cinco anos e ainda se lembra da ansiedade da protagonista a tentar entrar na igreja, está ali a emoção que faz sentido numa obra de arte, numa tentativa de obra de arte literária. Portanto, não sou nada anti-emoção, sou é contra uma emoção directa, fácil, que se perde também facilmente. E acho que há livros que fazem isso, com muitos adjectivos, "ela estava despedaçada", etc. A emoção deve vir da pessoa e não do objecto. Se é o próprio livro que está emocionado, aquela emoção vai-me contagiar, mas não é uma emoção minha, e por isso não vai resistir no tempo. Alguns dos livros de que eu não gosto têm uma emoção parecida com a da televisão.

Esse seu desacordo com o século leva-o a ter uma disciplina que é quase de eremita: fala muitas vezes do seu 'bunker do século XIX' onde se fecha para escrever, tem uma má relação com a tecnologia...

Eu tenho uma boa relação com a tecnologia no geral, mas não sou um entusiasta acrítico. 

Mas não tem Facebook nem frequenta as redes sociais.

Não, mas tem a ver com  a questão da distracção. O Facebook é óptimo, e é tão óptimo que se a pessoa o abre fica lá – tal como a televisão é óptima, mas não é para mim. A certa altura parece que a tecnologia é óptima no geral, quando a única coisa que é boa para qualquer pessoa, em qualquer momento, são as necessidades básicas, como comer. O que eu contesto é que se transformem tecnologias em necessidades básicas.

Em dependência?

Pois. No meu caso, escrever é um acto muito individual, não se escreve em grupo. Há muitas artes que podem beneficiar com esta possibilidade de comunicação, como o teatro ou o cinema, mas a escrita é uma tarefa isolada e de concentração, muito tempo no mesmo objecto.

O Robert Musil conta a história de um inventor a quem perguntaram como fazia para ter tantas ideias novas. Ele respondeu: "Pensando ininterruptamente nelas". Precisa dessa concentração, de passar muito tempo com as suas ideias?

Eu tento sempre ter quatro, cinco horas, que não são necessariamente para escrever, mas em que não vou ter compromissos sociais, para criar o contexto para escrever. Às vezes acordo muito cedo, e às 8h30, 9h, começo. E sinto que estou ali muitas vezes à procura na primeira hora, e é na segunda hora, ou na terceira, que as coisas saem.

Mas essa primeira hora foi necessária?

Pois, não há segunda hora se não houver a primeira. É completamente diferente eu fazer uma hora, interromper, mandar uns 'mails' e depois voltar. Aquela segunda hora, quando volto, não é a segunda hora, é a primeira: estou a recomeçar tudo de novo, a minha cabeça está noutro lado. Eu acho que é indispensável ter uma primeira hora, uma segunda hora, uma terceira hora. Se eu estiver sempre a interromper – a mandar mails, a atender telefonemas, a ir ao Facebook –, estou sempre a interromper a cada dez minutos, estou sempre a recomeçar, são sempre os primeiros dez minutos.

Essa interrupção constante, que é própria do nosso tempo, também prejudica a qualidade da vida humana?

Eu acho que sim. É muito difícil, e eu não sou um herói que consiga resistir completamente, mas é como a televisão: eu posso estar a ler o livro mais extraordinário, e se a televisão estiver ligada a dar o programa mais estúpido, o que vai acontecer é que eu vou fechar o livro e vou ver o programa mais estúpido. A única solução é a pessoa desligar a televisão. Por isso é que eu falo no 'bunker': a pessoa tem de criar defesas, porque se estiver no mundo normal, é evidente que é muito mais atractivo estar na internet a ver sucessivas coisas, porque há uma satisfação imediata. É preciso esforço para ser leitor: alguém conseguir ser um bom leitor no séc. XXI é realmente uma proeza. Eu admiro muito mais um intelectual no séc. XXI que no século XIX, porque realmente era fácil ser um intelectual no séc. XIX.

Tem um desacordo também com o acordo ortográfico, continua a escrever com a ortografia antiga. Porquê?

Não sou um fundamentalista. Hoje já não lemos o Fernando Pessoa como ele escreveu, já alterámos, não lemos Camões como ele escreveu. Mas acho que este acordo ortográfico tem coisas completamente despropositadas.

Por exemplo?

O "para", o "pára" [nota: o verbo e a preposição passam ambos a ser escritos sem acento]... Mas não quero criar muita confusão sobre isto, porque há problemas que já estão criados.

No seu caso, o que é que lhe desagrada? É uma razão estética?

Sim, estética, aqueles 'Cs' que faltam. Mas eu não quero valorizar demasiado a minha opinião sobre isso, porque é uma opinião afectiva, e acho que mais do que a nossa opinião devemos pensar no que é melhor para os falantes de português.

E o que é que acha que é melhor?

Sinceramente, não sei. Acho que foi um erro, ao ter avançado com este acordo, ter mudado já os livros e as crianças estarem a aprender já há vários anos com o novo acordo ortográfico. Isso foi um erro que criou aqui um problema. Alguns começaram com o antigo acordo e a meio da escolaridade mudaram, e agora mudar novamente seria também qualquer coisa de muito violento e de quase patético.

Mas acha que o acordo vai servir para alguma coisa?

Eu acho que não, acho que é um disparate. Todos os desentendimentos entre os falantes de língua portuguesa têm mais a ver com entendimentos diferentes das palavras. Um exemplo: "propina", em Portugal, é o dinheiro que paga um estudante universitário; no Brasil é o dinheiro da corrupção. Um leitor brasileiro que não tenha essa informação básica lê "o aluno pagou a propina à universidade" e pensa que houve corrupção, e interpreta o resto do texto de uma forma completamente errada. As palavras podem ter lá o P ou o C, não é essa a questão. Não há ninguém que não entenda o que é "afecto", com C ou sem C: a grande questão era económica, para fazer os mesmos livros para Portugal e o Brasil, e isso não aconteceu, porque o que muda principalmente entre os dois países é a sintaxe, a forma da construção da frase. Não conheço um livro que tenha sido editado ao mesmo tempo em Portugal e no Brasil graças à nova grafia. Mesmo nas traduções: o Proust foi traduzido pelo Pedro Tamen para português, é uma tradução extraordinária, mas não é usada no Brasil, porque o português é diferente.

A sua obra já foi traduzida em 45 países e vai ser traduzida também para luxemburguês. Quando é que essa tradução vai estar concluída?

Houve um livro que já saiu, que é o "Pedra" [em 2011]. Agora o que vai sair é o Bairro, uma série de dez pequenos livrinhos, traduzida pelo mesmo tradutor. Não sei se será em 2017 ou em 2018. Mas é muito engraçado e muito invulgar ser traduzido em luxemburguês, fico muito contente. Tenho sido traduzido para muitas línguas exóticas, mas há poucas pessoas que falem luxemburguês, e fico muito contente com estas traduções para línguas minoritárias.

Paula Telo Alves