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Elmira Najafi, a livreira da Alinéa. “Por detrás do muro tudo é diferente no Irão”
Cultura 10 min. 18.05.2019

Elmira Najafi, a livreira da Alinéa. “Por detrás do muro tudo é diferente no Irão”

Elmira Najafi, a livreira da Alinéa. “Por detrás do muro tudo é diferente no Irão”

Foto: Matic Zorman
Cultura 10 min. 18.05.2019

Elmira Najafi, a livreira da Alinéa. “Por detrás do muro tudo é diferente no Irão”

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Sentia-se 100 % luxemburguesa quando estava em Teerão e 100% iraniana no Luxemburgo. Os livros apaixonam-na desde os cinco anos, quando aprendeu a ler sozinha. Elmira Najafi dirige, desde março, a mais bela livraria luxemburguesa, a Alinéa, cuja continuidade chegou a estar ameaçada.

Como começou a sua relação com os livros?

Começou muito cedo. Foi com cinco anos que comecei a ler em alemão, pois na altura vivia na Alemanha. Os meus pais e eu fomos para lá quando eu tinha dois anos.

Foi antes de ir para a escola?

Sim, estava no jardim de infância. Sempre gostei de livros e de os tocar. A minha mãe sempre me apoiou e gostava que eu preferisse ler do que fazer outro tipo de brincadeiras. Tive o meu primeiro livro em alemão e tinha um audiolivro. Como tinha o livro, comecei a comparar a grafia com audição e aprendi a ler sozinha.

Que livros a marcaram?

O primeiro livro com mais de 100 páginas que me lembro de ter lido foi o romance “Émile et les Trois Jumeaux”(“Emil und die drei Zwillinge”), do escritor alemão Erich Kästner. Depois continuei sempre a ler. Quando a minha mãe tinha coisas para fazer e vinha buscar-me, eu tinha sempre um livro e nunca me aborrecia. Depois lembro-me do “Mundo de Sofia”, de Jostein Gaarder, que me marcou muito na adolescência. Mas preciso dizer que os meus livros favoritos foram, sem sombra dedúvidas, os da série do Harry Potter. Durante a escola li algumas coisas mais bizarras de que não gostei muito. Mas no ano do meu “bac” [bacharelato], lembro-me de ter gostado muito de um romance alemão passado em 1989, na cidade de Berlim, sobre um grupo de jovens no ano em que caiu o muro. Apesar de gostar muito de ler, não gosto muito dos chamados clássicos.

Comunga, portanto, da ’boutade’ de Mark Twain, segundo a qual um clássico é um livro que toda a gente gostaria de ter lido mas ninguém tem paciência para ler?

Um bocadinho. Confesso, contra mim, que também não li “Huckleberry Finn”.

Há poucas livrarias na cidade de Luxemburgo. Pode dizer-se que não há uma tradição de apreciar livros?

Não concordo. Há uma cultura do livro. Posso observar isso quando todos os sábados a livraria se enche de gente que trabalhou toda a semana e que passa aqui durante horas para ver e comprar livros. Mas é verdade que, apesar de se manter esta cultura, as coisas estão cada vez mais difíceis com a crescente digitalização do negócio e com as leituras digitais dos livros, com tabletes e outros artefactos tecnológicos. É preciso dizer que o sentimento que se se tem quando se abre um livro nas mãos não é substituível por nenhum destes meios tecnológicos. Não têm o mesmo gosto. Mesmo as pessoas que nasceram a partir do ano 2000 percebem isso. Há algo especial no toque e no cheiro de um livro. Cada um deles tem a sua qualidade de papel e a sua característica própria associada à sua magia.

Começou a trabalhar aqui quando saiu do liceu. Por que razão escolheu esta livraria?

Trabalhei durante dois anos, porque não sabia o que queria estudar e onde queria trabalhar. Edmond Donnersbach e eu tínhamos sempre uma boa química, entendíamo-nos sempre muito bem. E ele propôs-me trabalhar aqui enquanto refletia sobre o que quereria fazer depois. E fiquei dois anos. Foi excelente. Mal sabia que muitos anos depois seria convidada para gerente da Alinéa.

Isso foi antes ou depois de ter trabalhado no Interview (um icónico bar do centro da cidade)?

Foi depois. O Interview foi um trabalho de estudante durante as férias. Conhecia bem os patrões, até porque lá passava muitas horas.

É um trabalho que obriga a interagir com as pessoas, de alguma forma a lê-las.

Sim, falava muito com as pessoas. Permitiu-me conhecer muita gente. Gente muito diferente, cada uma com o seu interesse e beleza próprias. Gosto muito de trabalhar com pessoas e perceber qual é a história que cada uma tem.

Nasceu em Teerão e veio muito nova para a Alemanha...

Tinha dois anos.

Mas voltou a Teerão e trabalhou lá. Como foi esse regresso a um local de que se saiu tão jovem? Como foi aterrar em Teerão vinda do Luxemburgo?

Foi muito bom. Sempre quis voltar. Cada verão, quando estava de férias com a família, não queria regressar ao Luxemburgo e queria sempre ficar em Teerão. Havia sempre uma aventura, passava-se sempre qualquer coisa. É uma enorme cidade, com muita gente simpática, e num determinado momento na minha carreira profissional, eu vi que não tinha nada a perder e que devia regressar a Teerão.

Licenciou-se em Economia...

É um facto. Estava livre e pensei que podia ir para Teerão. Com os conhecimentos de línguas que tenho, rapidamente encontrei um trabalho. E foi assim. Comecei a trabalhar na escola da embaixada alemã. Cheguei a Teerão e dois dias depois tinha trabalho. Estive quatro anos lá, de 2014 até outubro de 2018.

Há um livro sobre a vida de uma jovem iraniana e a sua relação com o Irão, em que estão presentes muitos momentos historicamente duros, na história recente. Falo de “Persépolis”, de Marjane Satrapi. É um livro fiel à verdade?

Sim, tem muito de verdade. Eu oiço as histórias que a minha família conta sobre como era antes da revolução, durante a revolução e depois da revolução. Aquilo que é contado é triste mas é verdade.

Como é possível determinadas coisas acontecerem? Qual é o papel da mulher na sociedade iraniana?

É muito elevado. Se calhar não oficialmente. Mas na vida verdadeira, naquela que se desenrola nas famílias, e na existência das pessoas, o papel da mulher é muito importante. Aquilo que eu vi é que a mulher é muito respeitada. Na família, a mãe tem um papel de grande relevância. Não é como se pensa aqui. As mulheres que estão lá não se deixam menorizar, têm os seus truques. São todas uma espécie de pequenas revolucionárias e sabem verdadeiramente esticar ao máximo as suas liberdades. Oficialmente isso não se vê e é, se calhar, escondido. Por detrás do muro tudo é diferente no Irão.

Há uma cultura e uma certa magia do livro no Irão.

Sim, há grandes literatos. Uma grande tradição poética, com poetas clássicos conhecidos em todo o mundo [com nomes, ao longo de uma história milenar, como Hefez, Ferdowsi, Nizame Ganjavi, Omar Khayyam]. Teerão é a cidade das muitas livrarias, quase de cem em cem metros, podem ver-se livrarias: algumas pequenas e outras muito grandes. Eu muitas vezes entrava e perdia-me a olhar para os livros. Os iranianos leem muito e são muito educados.

Sente-se luxemburguesa, alemã, iraniana?

Depende. Quando eu estou aqui sou 100% iraniana, quando estava em Teerão era 100% luxemburguesa.

Como é que isso se manifesta?

É um pouco cómico. Até porque muita gente não conhece o Luxemburgo. É sempre necessário explicar onde está geograficamente e a sua história: “foi um dos países que criou o acordo de Schengen, a localidade onde foi assinado é no Luxemburgo”, “está no meio da Europa”, etc. Dizem-me sempre que o Luxemburgo é muito pequeno, ao que eu respondo que tem muitas coisas boas. “Somos pequenos mas temos muito mais dinheiro que muitos lugares do mundo”, são conversas deste género.

Aqui no Luxemburgo sentir-se iraniana significa o quê?

[Suspiro] É difícil dizer. O meu país faz-me falta. Fazem-me falta as pessoas, o tempo e até a gastronomia, que é melhor [risos]. Mas é sobretudo a atmosfera viva, intensa e jovem quando se está em Teerão que me faz falta. Mal se chega e abre a porta há aventuras e coisas interessantes que acontecem. Pequenas coisas que não funcionam, pequenos problemas que nos fazem rir depois. O que não acontece aqui. Aqui é calmo, é bom, mas com uma existência mais previsível. Estamos tranquilos. E isso também é bom. Amo esta tranquilidade. Mas em Teerão é stresse, stresse, stresse, 100 % de stresse, 24 horas sobre 24. É uma cidade enorme. É preciso gastar para qualquer percurso mais de uma hora, as ruas estão sempre cheias de trânsito caótico. E isso é mais difícil que aqui. Mas por outro lado, as pessoas são apaixonadas, temperamentais e simpáticas de uma forma muito mais expressiva que no Luxemburgo.

É religiosa?

Não. Nada. A minha família é laica.

Por que é que gosta tanto de Harry Potter? Isso não é um gosto de adolescente?

É falso. Não acho nada disso [risos]. Tenho um grande respeito pela autora, que conseguiu escrever uma série de sete volumes, a partir da história de um criança, no início com 12 anos. Acho que toda a gente devia ler uma vez na vida Harry Potter. Está muito bem escrito e é fantástico como a autora conseguiu criar aquele mundo. E fê-lo ligando de uma forma muito inteligente a história que começa no primeiro volume com todos os outros. Eu gostaria de ser capaz de criar uma fantasia tão completa. Mas como é óbvio a minha admiração pela literatura não se fica pelo Harry Potter.

Que livros mudaram a sua vida?

Posso citar dois. Um mais antigo e outro recente. “Shiddartha”, de Herman Hesse, mudou a forma como eu via a vida. E na semana passada acabei um livro notável: “The Forty Rules of Love”, de Elif Shafak. E foi muito bom. Foi a minha mãe que me chamou a atenção para o livro, ela tinha ouvido uma conversa sobre ele na rádio. É a história do poeta Rumi e a sua amizade com o dervish, conhecido por Xamece de Tabriz, um sufi iraniano [do século XIII]. É a história de como o amor muda as pessoas. Adorei-o e dei-o a conhecer a muita gente. A minha mãe lê-o em farsi, uma amiga dela está a lê-lo em alemão, uma amiga minha leu-o em francês e eu li-o em inglês.

Um verdadeiro internacionalismo livresco. Quais são os seus planos para a livraria?

Temos muitos planos. Primeiro, arranjar a livraria. Quando terminarmos esse processo vamos ver o espaço que temos. Os planos são criar mais secções e rearrumar as existentes. Queremos ter uma secção de livros de Direito, alargar a nossa parte de livros em inglês. Em baixo vai haver uma grande secção para as crianças. Espero que tenhamos todas as coisas terminadas em maio.

Uma grande dinâmica para uma livraria que esteve ameaçada de fechar. Como é que isso se passou?

Não estava cá. Vivia na altura em Teerão, mas as minhas amigas enviavam-me todos os artigos dos jornais. Estava em estado de choque. Pensava: “Como é possível? Tenho de fazer qualquer coisa. Se fecha eu regresso e ajudo a comprá-la” [risos]. Não foi necessário, foi criada uma sociedade cooperativa com muita gente e com os leitores. E as coisas estão muito bem.

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