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Ele era um homem na cidade
Opinião Cultura 3 min. 06.01.2021

Ele era um homem na cidade

Ele era um homem na cidade

Foto: Lusa
Opinião Cultura 3 min. 06.01.2021

Ele era um homem na cidade

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
Com ele, o fado deixou de ser o faduncho lamechas, contador de desgraças de amores despeitados.

Perdi um amigo, logo no primeiro dia do ano. Talvez o conhecessem. Chamava-se Carlos do Carmo e dedicou a sua vida, por inteiro, ao fado, seguindo as pisadas de sua mãe, Lucília do Carmo.

O sempre irreverente Alfredo Marceneiro referia-se ao Carlos, ignorando o seu nome, mesmo quando a notoriedade e a fama já ultrapassavam os limites acanhados de uma casa de fado. Para o Ti Alfredo, Carlos do Carmo era simplesmente “o filho da Lucília”. E o Carlos nunca se incomodou com a impertinência, porque adorava o Ti Alfredo e aquela forma incomum de estar na vida.

Conheci o Carlos do Carmo, quando eu tinha escassos 17 anos. Fui ao Faia, a sua casa de fado, com outros quatro amigos da mesma inocente idade. O preço do consumo mínimo era exorbitante, para as nossas depauperadas finanças. Pedimos ao porteiro para falar com o Carlos do Carmo e, em menos de três minutos, ele sentenciou a questão: “entram e só pagam o que consumirem”.

Radiantes, entrámos dispostos a gastar unicamente o dinheiro de uma cerveja e a ouvir um fadista que, naquele tempo, se impunha já com sucessos, como “Estranha forma de vida”, ou “Por morrer uma andorinha”. Foi uma noite fantástica que não se ficou por aquele concerto de bolso. Depois de cantar, Carlos do Carmo desceu o pequeno estrado, dirigiu-se até à nossa mesa e, com um charme invulgar, pediu-nos autorização para se sentar. Para mim, começou ali uma conversa que havia de se prolongar pela vida fora.

Em 2007, quando regressei a Lisboa, vindo do Luxemburgo, tive de enfrentar uma daquelas curvas apertadas que a vida coloca no nosso itinerário. Recebi então um telefonema do Carlos e o encontro ficou marcado para essa noite. Entrou no carro com um envelope branco na mão. Guardava quatro cópias de uma foto de nós os dois, tirada na Rádio Comercial, depois de uma entrevista que lhe fiz. “Uma é para ti, outra para a tua mãe e as outras duas são para os teus filhos”. Depois disto, uma conversa longa que me resgatou o ânimo, para endireitar essa curva de má-sorte. O Carlos era assim. Nunca faltava, quando os amigos precisavam.

Deixa uma obra imensa na qualidade e na quantidade. Com ele, o fado deixou de ser o faduncho lamechas, contador de desgraças de amores despeitados. Havia um trigo e um joio que precisavam de ser apartados.

Foi também ele que expurgou o fado da injúria e do enxovalho que a ditadura lhe colou, com a tentativa de apropriação de um bem cultural. Uma canção genuinamente popular, vinda no Brasil, no tempo em que a corte de João VI se pôs a salvo das diatribes de Napoleão.

Carlos do Carmo sabia que o fado merecia ser enriquecido, com novos arranjos instrumentais, que realçassem a guitarra portuguesa e a guitarra clássica. E que merecia também o talento de outros poetas e outros compositores que ele soube escolher com o rigor e a minúcia de um olhar microscópico.

Com eles fez discos de excelência, de que se destaca, sem margem para qualquer dúvida, “Um homem na cidade” que, dias depois de chegar às lojas já tinha vendido 130 mil cópias, coisa nunca vista, até então.

E o homem na cidade - quem mais podia ser? - era o Carlos do Carmo, nascido e criado na Bica, feito homem no Bairro Alto e estabilizado em Alvalade, quando casou com a inseparável Maria Judite.

Os que gostavam dele, já perceberam que a morte é sempre injusta, é uma punição excessiva, para os que perdem alguém que amam. Uma punição excessiva também para o Carlos do Carmo que gostava tanto de cá andar.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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