Django: Uma guitarra no tempo dos nazis
O último homem chamado Django que vi nos grandes ecrãs era preto e não gostava que lhe pronunciassem mal o nome. Tinha de ser Ddddjango, a insistir no “d”. Este Django, de apelido Reinhardt, não tem tantas manias com o nome mas exige ser respeitado como grande guitarrista. As semelhanças entre os dois filmes não se ficam pelo nome. No filme de Tarantino o racismo é omnipresente e no filme de Étienne Comar também: Django é cigano e desagrada aos alemães que, no período em que se passa o filme, ocupam Paris.
A escolha desta fase da vida do guitarrista cigano não é fruto do acaso. O público descobre Django Reinhardt quando este acorda a capital francesa com o seu inovador jazz swing. Os alemães – divididos entre a admiração e o repúdio – convidam o artista a dar um concerto em Berlim, mas as limitações que lhe são impostas fazem Django pensar se será uma boa ideia.
Até aí, o guitarrista pode até passar por ser colaboracionista: aparentemente nada o incomoda na ocupação de Paris pelos alemães. A atitude de Django Reinhardt muda quando a sua expressão artística começa a ser limitada pelos invasores. Daí até à decisão de fugir vai um pequeno passo. Django “pega” na família e tenta refugiar-se na Suíça. A viagem faz-se por etapas, e com a ajuda de uma admiradora de Django.
Este filme não mostra Django Reinhardt como um grande herói, mas como um homem normal, por vezes cobarde, que tem por objetivo por-se a salvo com a família.
Reda Kateb assina uma interpretação extraordinária de um homem cheio de talento mas assustado com tudo o que se passa à sua volta e que, aparentemente, teve dificuldade em assimilar as mudanças que a guerra provocou. Fica-se com a impressão de que o artista não queria acreditar nos horrores que o rodeavam.
Se Reda Kateb demonstra grande talento ao encarnar Django, os atores mais importantes à sua volta não falham no tom, nomeadamente Bimbam Merstein, que desempenha o papel da mãe do protagonista, e Cécile de France, a fã número um e amante do artista.
“Django”, de Etienne Comar, com Reda Kateb, Cécile De France, Antoine Laurent e Bimbam Merstein.
Raúl Reis
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