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Designer que criou imagem do Porto vai dar "cara nova" ao Instituto Camões no Luxemburgo
Cultura 2 8 min. 24.10.2015 Do nosso arquivo online

Designer que criou imagem do Porto vai dar "cara nova" ao Instituto Camões no Luxemburgo

O criador da marca "Porto ponto" está no Luxemburgo desde quinta-feira para trabalhar na imagem do Centro Cultural Português

Designer que criou imagem do Porto vai dar "cara nova" ao Instituto Camões no Luxemburgo

O criador da marca "Porto ponto" está no Luxemburgo desde quinta-feira para trabalhar na imagem do Centro Cultural Português
Foto: Marlene Soares
Cultura 2 8 min. 24.10.2015 Do nosso arquivo online

Designer que criou imagem do Porto vai dar "cara nova" ao Instituto Camões no Luxemburgo

O designer Eduardo Aires, que concebeu a marca "Porto ponto" para a cidade do Porto, está no Luxemburgo para dar um "novo rosto" ao Instituto Camões. A imagem gráfica do Porto ganhou vários prémios internacionais, e foi mesmo plagiada por Berlim, uma polémica que em Maio incendiou as redes sociais. No Luxemburgo, o designer português quer criar uma imagem "que dignifique" as futuras instalações do Centro Cultural Português e "ajude a elevar" a percepção que os luxemburgueses têm da comunidade portuguesa.

CONTACTO: Como é que surgiu esta sua colaboração com o Centro Cultural Português no Luxemburgo?

Eduardo Aires: Em Junho, vim fazer uma conferência ao Mudam, para apresentar a nova imagem do Porto, e por essa ocasião o senhor embaixador Carlos Pereira Marques teve conhecimento da minha presença cá e estabeleceu contacto comigo. Falou-me muito entusiasmado do projecto do Centro Cultural Português que tem entre mãos, e eu ofereci os meus serviços para, como designer, com o meu humilde contributo, tornar este projecto ainda mais digno além fronteiras. Esta visita já é com o propósito de me inteirar das obras do Centro Cultural Português e, na qualidade de designer, poder contribuir para que ele tenha uma presença visual diferente na cidade. Fiz uma visita prévia hoje ao espaço, e já estive também com o arquitecto da obra, o Jean-Paul Carvalho, no atelier, onde me esteve a mostrar em pormenor todo o projecto.

CONTACTO: Por onde é que vai passar essa mudança de imagem?

Eduardo Aires: A questão principal tem a ver com a construção de uma imagem que dignifique o espaço enquanto espaço português, e sobretudo ajude a elevar muito a leitura que a comunidade luxemburguesa tem sobre a comunidade portuguesa.

CONTACTO: Em que é que se vai traduzir esse trabalho?

Eduardo Aires: O que vamos fazer será uma intervenção com a maior parcimónia, com a assinatura de alguma coisa que seja português. Não nos queremos sobrepor em nada aos múltiplos actores que o Centro Cultural vai receber ao longo da sua vida, e estou a pensar em artistas, intervenções, workshops... Os organismos e os espaços têm que ter um nome, e nós vamos cuidar dessa aparência, desse rosto. Nós sabemos muito bem o que vale a comunidade portuguesa no Luxemburgo, mas também é minha função fazer com que a leitura da comunidade portuguesa seja diferente, contribuindo para que os luxemburgueses entendam melhor o que é a comunidade portuguesa. No fundo, é fazer as coisas bem feitas. Estamos a falar de um projecto que deve ser bem feito, e pelo que estou a perceber, estão a ser criadas todas as condições para que isso venha a acontecer.

CONTACTO: Na prática, o que é que vamos ver da sua intervenção?

Eduardo Aires: O trabalho mais exterior, mais visível, é a afirmação do espaço através do seu nome, nas fachadas e nos vidros. No interior, uma estratégia de comunicação que possa eventualmente marcar a acção do centro cultural. Dito por outras palavras, quem receber um convite vai perceber que esse convite faz parte de uma estratégia de comunicação, que inclui o catálogo, as legendas das obras... Portanto, vai haver coerência sob o ponto de vista de todos os artefactos de comunicação.

Foto: Marlene Soares

CONTACTO: Mas vai passar também por um logo, uma imagem?

Eduardo Aires: O Centro Cultural Português está inserido na estrutura do Instituto Camões. Nós temos que respeitar o manual de normas gráficas do IC, e tentar encontrar um elemento próprio que o identifique. Isto é uma identidade, é como se estivesse a nascer um novo bebé, que nós temos de acarinhar e vestir.

CONTACTO: O Instituto Camões tem sofrido de invisibilidade, porque fica no 1° andar. As novas instalações vão torná-lo mais visível?

Eduardo Aires: Basta passar do 1° andar para o rés-do-chão para que passe efectivamente a ter uma melhor visibilidade. Não conhecendo o anterior espaço – e não me cabe a mim criticá-lo, há que dar o mérito às pessoas que o sustentaram estes anos todos –, este tem uma grande vantagem, pelo que vi hoje: tem espaço livre à sua frente e um pequeno jardim ao lado, e isto dá-lhe uma moldura que o torna já por si bastante digno, e também vai estar num local bastante central.

CONTACTO: Quando é que o seu trabalho vai estar concluído?

Eduardo Aires: Estamos a começar agora, mas eu penso que no espaço de um mês e pouco, dois meses. Mas uma das coisas em que eu gostaria de participar é no programa curatorial. O centro cultural vai ser um espaço digno, vai ser uma âncora, mas para mim um ponto fulcral é aquilo que vão mostrar. Isso é que vai realmente marcar o novo paradigma do centro. Eu sou apenas uma peça ínfima do processo, naquilo que diz respeito ao design, mas o design hoje em dia mexe com muita coisa. Estamos cada vez mais por dentro dos projectos e mais próximos de quem decide, já não somos os alfaiates que chegam a um sítio e lhes pedem um logo e depois se vão embora. Nessa perspectiva, eu estaria disponível para integrar uma equipa pluridisciplinar para desenhar o programa cultural num curto, médio prazo. Penso que seria interessante estabelecer aqui uma plataforma artística, e depois seleccionar criteriosamente individualidades, e eventualmente até montar pequenos projectos que pudessem ter vida própria, mostrando um pouco daquilo que é a nossa portugalidade, através das artes plásticas, da música, do design, da forma mais erudita possível, mas também mais próxima das pessoas – não vamos agora trazer para aqui obras conceptuais que só meia dúzia de pessoas conseguem descodificar... Tem é de haver uma estratégia.

"SOMOS MUITO PAROQUIAIS"

CONTACTO: Em Maio, a imagem da marca que criou para o Porto, o “Porto ponto”, foi copiada por um gabinete em Berlim. Como é que reagiu ao plágio?

Eduardo Aires: Acho que tenho de me sentir lisonjeado, não quero gastar energia nessa questão. Ao longo da minha vida tenho sido copiado muitas vezes, desta vez com mais visibilidade mediática. No meio disto tudo ressalta um outro problema, que é um certo carácter paroquial do país, porque esta questão do plágio surge inicialmente em Portugal com outra versão, por jornalistas de Lisboa, que é: “Os portugueses do Porto copiaram os alemães”. Quando começou esta questão do plágio não se sabia qual é que tinha sido o primeiro, e, na dúvida, concluíram que tinham de ser os portugueses a copiar os alemães. Confesso que essa doeu bastante, mais até que o próprio plágio, porque mais uma vez somos muito paroquiais – o que é ’tuga’ não é bom.

CONTACTO: O Porto vive actualmente um bom momento. Qual é o segredo?

Eduardo Aires: No Porto, há neste momento um alinhamento qualquer das estrelas que o torna cintilante. Mas há vários factores para que isso aconteça. Primeiro, sem desprimor para o anterior presidente da Câmara, o perfil que ele impôs à cidade limitou-a na sua criatividade. E o Porto é muito criativo na sua essência e na sua génese: tem tanto de rude, de autêntico e de coriáceo como de criativo. Atravessámos um longo período de crise económica, em que as pessoas estiveram muito tempo em contenção, e de um momento para o outro a cidade explodiu. Não nos podemos esquecer que ainda há 15 anos a Ribeira era o coração da cidade, onde toda a gente se encontrava, e hoje o Porto tem muitos corações, pulula por muitos sítios.

CONTACTO: A Faculdade de Belas Artes, onde ensina, e a de Arquitectura, de onde saíram dois prémios Pritzker, funcionaram como laboratório? O Eduardo Aires também ganhou o Graphis, uma espécie de Pritzker do design...

Eduardo Aires: O Público chamou-lhe um "mini-Pritzker". O design ainda é considerado menor em relação à arquitectura, o que é pena, mas toca num aspecto essencial. Está muito aí uma boa parte das sementes que foram lançadas no Porto. Nós temos dois prémios Pritzker na cidade, o que é incrível, e isso faz escola. E é uma cidade também muito empreendedora: não é a toa que os grandes negócios estão no Porto – Sonae, Millenium, tudo nasceu por ali, embora as sedes sejam em Lisboa e os impostos sejam pagos lá. Mas atenção: a cidade é atractiva porque muito daquilo que ela é, genuinamente, continua lá.

CONTACTO: Não há o risco de gentrificação, de a cidade perder autenticidade?

Eduardo Aires: Eu acho que o Porto ainda tem muitos quilómetros para cavalgar. Nós temos zonas ainda muito degradadas. É lógico que esta questão do turismo massivo já se faz notar em alguns pontos – eu nunca imaginei ver a livraria Lello com filas, ou o Majestic. Há ali pequenas partes que transpiram turismo, mas eu acho que o Porto ainda tem muito para crescer. E o turismo traz dinheiro, há uma injecção financeira na cidade. Sinceramente, acho que ainda estamos muito longe do efeito Barcelona. As pessoas estão agora a descobrir o Porto, estão agora a descobrir Portugal, e acho que temos de explorar esse interesse e não nos queixarmos dessa exposição, porque só temos a ganhar.

CONTACTO: É a segunda vez em pouco tempo que vem ao Luxemburgo. Está a pensar abrir aqui uma filial do seu estúdio?

Eduardo Aires: Olhe, é o que toda a gente me está a dizer. Já quando fiz a conferência em Junho, no Mudam, tive muito boa recepção por parte dos meus colegas locais, e já na altura me diziam: “Devias abrir aqui no Luxemburgo”... Eu cresci e fui educado aqui ao lado, na Alemanha, porque os meus pais foram professores de Português, e eu cresci aqui sempre tangente ao Luxemburgo, sem nunca cá ter vindo. Eu penso que o Centro Cultural Português é também um bocadinho um teste, uma semente...

CONTACTO: Um cartão de visita?

Eduardo Aires: Um cartão de visita. Percebo que há uma boa receptividade nas autoridades locais para o que foi feito com a imagem do Porto, mas há uma grande diferença entre essa receptividade e a capacidade para instalar aqui um estúdio. Como em tudo, não é chegar, ver e vencer, mas fiquei animado. E depois vir ao Luxemburgo é exactamente a mesma coisa que ir do Porto a Lisboa, são duas horas e pico de viagem...

Paula Telo Alves


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Blummennidderleen Inst. Camoes_pl. Leon XIII_Lux-Bonnevoie le 10.06.2011