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"Deep Water". Debate sobre a idade da reforma
Opinião Cultura 1 3 min. 17.04.2022
Crítica de cinema

"Deep Water". Debate sobre a idade da reforma

Crítica de cinema

"Deep Water". Debate sobre a idade da reforma

Foto: Hulu
Opinião Cultura 1 3 min. 17.04.2022
Crítica de cinema

"Deep Water". Debate sobre a idade da reforma

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
(...) isto é razão mais do que suficiente para todos os casais verem este filme...

A relação que surgiu entre Ben Affleck e Ana de Armas durante as filmagens de "Deep Water" tornou o filme viral muito antes de sua chegada aos cinemas e às plataformas de streaming.

Mas as histórias e fotos do casal, e da sua separação, que se tornaram assuntos nos tablóides durante a pandemia podem ser apenas o começo, porque o filme tem material suficiente para lhe dará uma vida longa nas redes sociais.

"Deep Water" é um trabalho do homem que se tornou famoso a dirigir thrillers eróticos nos anos 80 e 90, Adrian Lyne. "9 ½ Weeks", "Fatal Attraction" ou "Indecent Proposal" fazem parte dos filmes de referência de Lyne, que, entretanto, já completou 80 anos. Este senhor tem ainda no seu currículo "Flashdance", o primeiro filme que me encantou numa sala e que me fez amar o cinema.

Adrian Lyne é uma referência, mas este filme mostra que por alguma coisa há idade para a reforma e que as exceções, como Manoel de Oliveira, são isso mesmo, exceções.

O problema com 'Deep Water' por longos períodos de tempo é que não é suficientemente sexy, suficientemente arrojado nem suficientemente inteligente.

Mas voltemos a 2022: em "Dark Water", Ben Affleck é Vic Van Allen, um rico e jovem reformado génio da informática que vive uma estranha relação de amor-ódio com a esposa Melinda (Ana de Armas).

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Logo no início descobrimos que a mulher tem o hábito de seduzir jovens e garbosos rapazes sem nunca se entender muito bem como é a relação do casal. O relacionamento será baseado numa suposta liberdade que Vic concede a Melinda? Será ela que exerce um controlo tóxico sobre ele? Ou Vic simplesmente gosta de a ver com alguém, excitando-se com isso? As hipóteses são muitas. A estranha relação abre a porta a possibilidades mais sinistras. Vic vigia os pretendentes da esposa e, de vez em quando, até solta ameaças casuais aos seus amantes.

A primeira meia hora deixa-nos a tentar descobrir se Vic está a falar a sério ou apenas a assustar os rivais. A história evolui e aquece com álcool, festas de ricos, provocações, jogos mentais e algum sexo. Adrian Lyne injeta claramente uma sensação de anos 80 na ação do filme, fazendo perguntas interessantes e manipulando todas as técnicas que bem conhece para criar momentos visualmente cativantes. No entanto, a realização é errática e parece desorientada, tal como o argumento que deixa a desejar, sobretudo quando sabemos que o romance original é de Patricia Highsmith.

O problema com "Deep Water" por longos períodos de tempo é que não é suficientemente sexy, suficientemente arrojado nem suficientemente inteligente. Já nem falo do ato final que faz pensar numa má cena de filmes de terror dos mais foleiros. Mas a força motriz do filme não é a intriga nem os momentos sensuais: quem desperta interesse são os protagonistas.

Ben Affleck utiliza com extrema contenção todos os meios de que dispõe para mostrar aborrecimento, ódio, hipocrisia ou vontade de bater em alguém. A capacidade de tornar a sua personagem imprevisível ajuda imenso a criar um forte ambiente de mistério. Affleck consegue manter-se quase sem emoções, o que é uma faceta importante do conflito entre Vic e Melinda: ela queixa-se da atitude passiva do marido, da sua falta de comunicação ou do facto de não demonstrar desejo por ela.

Talvez por isso, a tensão que deveria existir entre ambos, o amor tão forte que se transforma em ódio, está totalmente ausente. Os olhares de desejo são rotineiros e forçados. O trabalho de câmara poderia deixar subentender as relações sexuais, mas como todo o filme tem falta de sensualidade o resultado é fraquinho.

Ana de Armas encontra o equilíbrio ao construir um ser vulnerável, sensual e odioso – tudo isto ao mesmo tempo – e vai alimentando o mistério central. O que há em Vic que ela gosta? É o relacionamento tóxico que a excita? Até que ponto Melinda sabe o que Vic faz?

"Deep Water" apresenta um par de personagens desagradáveis, mas fascinantes, que tentam manter o seu casamento vivo através de ações cada vez mais desequilibradas. E isto é razão mais do que suficiente para todos os casais verem este filme...


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