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David Brazão assinala 20 anos de carreira com duplo CD
David Brazão.

David Brazão assinala 20 anos de carreira com duplo CD

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David Brazão.
Cultura 9 min. 26.11.2018

David Brazão assinala 20 anos de carreira com duplo CD

Henrique DE BURGO
Henrique DE BURGO
O cantor, compositor e produtor cabo-verdiano David Brazão acaba de apresentar o seu mais recente trabalho discográfico “Tudo é possível”, um duplo CD para assinalar os 20 anos de carreira.

O músico, natural da cidade da Praia e radicado há 15 anos no Luxemburgo, já começou a promover o novo álbum, através de concertos no estrangeiro e, nos últimos dias, também nas redes sociais. Em entrevista ao Contacto, David Brazão fala da sua carreira, do monopólio na indústria musical em Cabo Verde e do seu novo trabalho.

Como está a celebrar os 20 anos de carreira?

Com concertos ao vivo do meu novo CD. Foi o que fiz recentemente em Cabo Verde e São Tomé e Príncipe e vou fazer em fevereiro em Moçambique e Guiné-Bissau. Mas tenho ideia de também fazer um lançamento aqui no Luxemburgo com vários colegas, ao vivo, em palco e com parceria de empresas. É neste processo que estou.

Os artistas convidados são daqui?

Há alguns daqui, que temos de valorizar, e outros de fora.

Cabo-verdianos?

Cabo-verdianos e portugueses. Tenho o caso do Paulo Gonzo, que é um grande amigo meu. Tocámos juntos no ano passado no festival da Santa Maria, na ilha do Sal. Sou um grande admirador dele e é um dos convidados que gostaria de ter cá.

Mais algum nome?

Há vários. Beto Dias, Tony Fika e outros colegas.

E quando vai ser?

Em princípio, queria que fosse em dezembro, porque o CD ainda é novo. Tem dois meses e pouco tempo no mercado.

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E sala?

É nisso que estou a trabalhar. Tem que se ver as parcerias.

Então, os 20 anos de carreira estão e vão ser celebrados em palco, e diversos concertos...

Sim, é isso. Mas como o CD ainda é novo no mercado, não tenho aquela pressa em ter aqui um concerto já. As pessoas ainda não conhecem as músicas e vão ter então essa possibilidade antes do concerto.

Mas este lançamento é na verdade um duplo CD.

É isso e inteiramente dedicado a Cabo Verde. Mas tenho lá também, e pela primeira vez, uma música em português, que se chama “Casamento” e que está afazer sucesso em Cabo Verde e Portugal. Então, o CD n° 1 tem músicas com estilo coladera, cabo-love e zouk. O CD n° 2 tem músicas mais do estilo da ilha de Santiago, com tabanka, funaná, batuco e afro-beat.

As músicas são originais?

São todas. Letra e melodia de David Brazão, com participação de vários músicos.

Quanto tempo então levou a preparar este duplo CD?

Três anos. Três anos neste processo criativo, que comparo ao momento em que uma cria mãe cria o seu filho. Apesar de ser recente, algumas pessoas já têm o CD e já conhecem as novas músicas, mas há ainda um trabalho de divulgação a ser feito junto da comunicação social aqui no Luxemburgo.

Que balanço faz destes 20 anos de carreira?

Bastante positivo. Apesar de não poder agradar a toda gente, acho que é até agora uma carreira bem-sucedida.

Algum ponto alto que queira destacar?

Foi quando gravei o disco “Memória”, em 2003, que fez bastante sucesso. Faz agora 15 anos, praticamente no início de carreira. Esse CD foi incrível, deu-me um disco de ouro em Portugal, onde vivi cerca de 17 anos. Abriu-me as portas para vários concertos no país e também em muitos países de África. Depois disso foi gravação e mais gravação, com destaque para “Criola di Mindelo”. Mais recentemente, tenho estado em grandes palcos em Cabo Verde, nos principais festivais do país e sinto que as pessoas têm reconhecido o meu percurso.

E no Luxemburgo?

De vez em quando atuo em alguns festivais por cá. Estive recentemente em Rumelange, num excelente concerto, com músicos que vieram da Holanda para acompanhar-me, como Djoy Delgado, entre outros.

Também foi homenageado aqui pela comunidade e pelo primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva, em 2016.

Foi uma grande homenagem e um grande evento cabo-verdiano. Agradeço à organização porque reconheceram o bom trabalho das pessoas junto da comunidade. Fiquei bastante contente.

Olhando mais para trás e falando agora no seu percurso musical. Como é que tudo começou?

Eu encontrei a música em casa, porque tenho uma família de músicos, dos melhores em Cabo Verde. O meu tio Djedje Matias era um grande violinista de Cabo Verde. Tenho como primos, os grandes músicos Kim Alves, Caco Alves, Tó Alves e Djonzinho. Além deles tenho ainda o meu tio Duia, que é um dos fundadores do grupo Tubarões. É por isso que digo que encontrei a música em casa. Depois, passei a participar no concurso musical “Todo o mundo canta” e outros concursos, desde pequeno. Tinha já essa vocação para cantar. Em Portugal, passei por uma escola de música em Lisboa e aqui no Luxemburgo estive ainda quatro anos no conservatório de Esch-sur-Alzette.

O que aprendeu aí?

Notas, acordes, questões sobre o compasso, melodia e outras coisas. Passei a sentir-me mais firme na música, a conhecer melhor como a música funciona e isso tornou-me num artista mais completo. Digo também isso com um exemplo concreto. No Luxemburgo, as coisas não funcionam só pelo o que é dito de boca. Aqui é preciso documentos para provar as coisas e foi com esse certificado do conservatório que obtive o estatuto de artista profissional independente.

É o único artista cabo-verdiano aqui com esse estatuto aqui.

Sim. Este estatuto, que é reconhecido pelo Ministério da Cultura, já o tenho há sete anos. Viajo muito, faço vídeos e não posso fazer isso enquanto amador. Então, declarei-me como profissional independente, pago uma quotização mensal e faço a minha vida.

Vive só da música?

Sim, sou artista declarado e não dá para fazer mais nada por causa dos espetáculos.

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Sobre o seu estilo musical, podemos defini-lo como música tradicional de Cabo Verde, com muito funaná...

Funaná, coladera, tabanka.

Mas também sons de outras origens, como o zouk, das Antilhas.

Sim, mas também sons da Guiné, Congo, África do Sul e outros países africanos. Já recebi várias mensagens a perguntar porque é que não vou tocar a esses países.

O que lhe falta?

Conection. Tenho de ter alguém para me levar até lá. Respeito a nossa cultura cabo-verdiana, que é musicalmente rica, mas sinto-me nómada e faço vários estilos de música, que também se identificam com os outros africanos.

Tem alguma influência musical?

Quando era criança, jogava basquete, coisa que ainda faço na equipa do Kayl.

Sim? Em que posição?

Base.

Federado?

Sim, federado. Mas para dizer que, quando era mais novo jogava basquete no ABC. Fui um dos fundadores desse grande clube em Cabo Verde, junto com alguns colegas que moram também aqui no Luxemburgo. Paralelamente a isso, tínhamos um grupo de break-dance e o meu ídolo era o Bobby Brown. Adorava imitá-lo. Mais tarde passei a seguir mais o Norberto Tavares e quando fui ao “Todo o mundo canta”, na década de 80, cantei uma música dele. Com o tempo passei a admirar os agora colegas Kino Cabral, Grace Évora, Beto Dias, Gil Semedo e este estilo mais moderno da nossa música. Foi isso que me levou a gravar o primeiro álbum, em 1998, “Interessera”.

Depois veio “Memória”, em 2003...

E que foi a grande explosão. Seguiram-se o terceiro disco “Nha Amada” (2008), um DVD/CD em 2010, com “Sinal de Paixão”. Em 2013 “Bo ta vive dento mi”, “Deus qui ta manda” (2015) e agora este. Sete álbuns em 20 anos.

Sobre a atualidade, Cabo Verde entregou este ano na UNESCO, o dossier de candidatura do estilo musical “morna” a Património Imaterial da Humanidade. A morna não é o seu estilo...

Qualquer música que os cabo-verdianos conhecem é morna, funaná, coleadera, batuku, colá San Jon e tabanka. Não temos muito mais e quanto à morna, eu comecei a ouvi-la desde o berço. Todos os cabo-verdianos ouviram morna e só lamento esta candidatura ter demorado tanto tempo, porque a morna é do melhor que temos em Cabo Verde. Veja, a Cesária Évora levou a nossa música tão longe e só agora é que avançamos com isto. Isto revela que temos de ter ainda mais garra quando trabalhamos com a nossa cultura.

Porque é que diz isso?

Não sei. Há grandes músicos que fizeram grandes sucessos, mas que hoje em dia estão quase desaparecidos. Quem é que os ajuda? Quem os propõe novas gravações? Não há ninguém. Depois há outra coisa: quando há grandes eventos, são sempre os mesmos que são convidados. Porque não pegamos noutros músicos e os levamos também para esses grandes palcos? Se pomos à mesa só arroz ou só peixe, toda a gente vai comer aquilo, porque não há outra coisa. Ou seja, quem manda não dá escolha.

Está a dizer que há algum monopólio na indústria musical cabo-verdiana?

Basta eu falar neste assunto que sou logo calado, mas há. Se um produtor não gosta de ti, não te convida, elimina-te. O mercado cabo-verdiano é um bocado sujo. Por isso é que há certos músicos que fizeram grandes sucessos, mas que depois desaparecem e ninguém ouve falar mais deles.

Mas, felizmente, há também nomes que estão a reaparecer, sobretudo grupos: Tubarões, Bulimundo, Livity, Rabelados...

Mas será que têm continuidade?

O que é que acha?

Falta alguém por trás para apoiar. Sozinho não se consegue nada. Dou o exemplo das salas. Como posso dar concertos aqui no Luxemburgo se as associações ou a federação das associações, que alugam as salas, estão cada um por si? Se estivessem unidas poderiam mais facilmente propor aos artistas grandes espetáculos. Sem união e organização não avançamos aqui no Luxemburgo.

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Voltando aos artistas que perderam um certo brilho, o que pode, por exemplo, o Ministério da Cultura de Cabo Verde fazer para ajudar a “reabilitá-los”?

Acho que podia ter representações nas embaixadas na Europa ou nos Estados Unidos, com gente que percebesse de cultura.

Um adido cultural?

Sim. O ministro dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades [Luís Filipe Tavares] já me disse, aqui no Luxemburgo, que o Governo tem essa ideia. Se eu ou o Zé Delgado, que é também um dos nossos mais conhecidos artistas daqui, tivermos um problema com quem vamos falar aqui? Nós também representamos a imagem de Cabo Verde, mas infelizmente os artistas cabo-verdianos estão abandonados à sua sorte.

Olhando para frente, que projetos para o futuro?

Este duplo CD está a ligado a um projeto que virá depois e que precisa também de apoios das entidades de Cabo Verde e do Luxemburgo.

Concretamente...

Filmar um DVD live, junto com vários artistas convidados. Mas preciso de apoio de empresários, associações e entidades culturais.

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