Escolha as suas informações

A menina que aprendeu a voar nas asas do sonho
Cultura 5 min. 12.09.2021
Dança

A menina que aprendeu a voar nas asas do sonho

Dança

A menina que aprendeu a voar nas asas do sonho

Foto: Vasco dos Santos
Cultura 5 min. 12.09.2021
Dança

A menina que aprendeu a voar nas asas do sonho

Vanessa CASTANHEIRA
Vanessa CASTANHEIRA
Na infância foi atropelada por um sonho. E não descansou enquanto não se fez bailarina. O amor trouxe-a até ao Luxemburgo. Em 2015 criou uma companhia de bailado com o marido. E deu à luz uma Matilda.

Não tinha mais de cinco anos. Ia de mão dada com a avô quando estendeu o tapete vermelho ao sonho. "Quero ser bailarina". disse. Estávamos na Póvoa de Varzim na década de 90. Teria sido mais uma menina com o sonho de ser bailarina como muitas meninas da época. Eram outros tempos. Na altura as meninas sonhavam com princesas e bailarinas e os meninos gostavam de bola e de carros.

Para Catarina aquele momento ficou tatuado na memória. O que viu e quem viu em frente à academia de dança arrebatou-a de tal maneira que foi para casa a dizer o que queria ser. Passaram-se dias e a ideia não caía em esquecimento. E todos sabem como as crianças são persistentes. Os pais, esses tiveram de levá-la à escola de dança para acalmar a inquietude da filha. Se Catarina sonhava com aquele mundo, nas primeiras aulas transformou-o também no dela. Ou ela no dele. Até hoje.

Hoje Catarina já não dança na Academia Gimnoarte com as professoras Joana e Odete Rios, onde é sempre bem-vinda. Durante 10 anos, a menina, que queria ser bailarina, dançou e fez-se notar. A paixão, entrega, expressão corporal e facilidade com que executava os movimentos mostravam que era uma balarina não só de sonho, mas sobretudo de corpo e de alma. Nunca mais parou de fazer pliés, adagios, grand battement e todos os outros passos obrigatórios do bailado clássico.

Aos 15 anos, sempre insistente, entrou no Conservatório Nacional em Lisboa com a particularidade de entrar apenas no 11° e 12° ano, algo muito raro para os alunos que querem seguir o bailado. Por lá interpretou peças do bailado clássico e mundialmente conhecidos como "O Corsário", onde lhe é atribuído um dos papéis principais, "Quebra-nozes" e "Don Quixote".

A insistência de Catarina Barbosa contrasta com tudo em si. Pequena, de sorriso fácil e de uma leveza e simplicidade que chegam a ser complexas, Catarina transforma-se em palco. Capta todas as atenções com a sua expressividade dentro e fora dele. A perseverança da jovem não a deixou parar quando lhe foi diagnosticada escoliose. O primeiro parecer foi para parar com a dança. Obstinada procurou outro parecer e foi-lhe explicado que o movimento e exercício seriam obrigatórios para não piorar a sua condição. Não parou.

Se até à data, a bailarina tinha uma formação totalmente de ballet clássico, em 2011 o seu percurso sofre uma mudança. Traída pela baixa estatura – se é que é traição -, o contemporâneo seria o mais adequado às suas características físicas. Assim, a jovem parte para a Suíça para a Ballet Junior de Genève. Conhece um novo mundo. Com a formação técnica de bailarina clássica, Catarina depara-se com um novo tipo de bailado, mais permissivo, livre e com outros desafios.

É na Suíça que conhece Baptiste Hilbert e o seu futuro começa a traçar-se e a cruzar-se com o Luxemburgo. No último ano de formação na Ballet Junior de Genève Catarina Barbosa divide-se entre a escola e a Compagnie Gilles Jobin com a qual entra em digressão mundial com o espetáculo "Quantum". Se a primeira digressão dura 15 dias, a segunda estende-se por dois meses e Catarina percebe a exigente vida de bailarina de companhia.

Apaixonada pela dança e por Baptiste, a jovem entra num dilema. Antes de Baptiste queria ser bailarina, depois também. Mas questiona-se que tipo de bailarina quer ser. Questiona-se sobre a vida que quer levar. Questiona-se com o seu futuro. Questiona-se com os sonhos paralelos ao bailado. Juntos traçam um plano: fundar a própria companhia que lhes oferece a liberdade para criar e ter uma vida familiar paralela.

Os dois, certos da relação e dos projetos em comum, decidem-se pelo Luxemburgo. Baptiste é belga e a família mora em Arlon. O Luxemburgo reúne as condições para a criação da companhia. Assim nasce "As We Are", um projeto a dois, onde ambos têm a mesma liberdade, de igual para igual e que sobretudo os completa. Tão completa como é a relação, uma relação orgânica que se funde em casa e no palco. Por cá têm levado as suas composições a vários palcos. A várias pessoas. São artistas mas sentem uma responsabilidade quase que pedagógica. Querem apresentar a sua arte a quem nunca assistiu a um espetáculo de bailado contemporâneo.

A vida com Matilda

O ano de 2020, pandemia obliged, obrigou-os a suspender todos os projetos, inclusivé a apresentação de "Shoot the Cameraman" (projeto a dois, coreografado por Baptiste e interpretado por Catarina) no Grand-Theâtre. Mas deu-lhes, também a pequena Matilda, a filha. Catarina estava já obrigada a uma paragem pela gravidez, os cancelamentos obrigaram a uma paragem maior.

Mas voltou. Voltou e está a reaprender-se com um novo corpo e transformações resultantes de um parto recente. Está a reaprender a ser bailarina. Hoje não é a mesma Catarina. Sem melhores ou piores, Catarina descobre-se. Quem a conhece antes e agora garante que tem outra posição, maior, mais decidida, mais expressiva ou emotiva. Ganhou novos contornos e cresceu.


Pode uma fotografia trazer o vento do Alentejo para o Luxemburgo?
O fotógrafo luso-luxemburguês Daniel Fragoso passou o inverno a fotografar a costa alentejana. A sul, nos dias frios, encontrou uma absoluta sinceridade na paisagem e nas gentes. O seu olhar sobre o território mereceu destaque na imprensa portuguesa esta semana e estará, no próximo mês, em exposição no castelo de Bourglinster.

Hoje a três dividem-se entre Luxemburgo e Portugal, onde também têm uma casa. A três viajam para Londres, Lyon ou regressam ao Luxemburgo por breves dias como aconteceu no fim de semana passado, para Catarina interpretar "The Ephemeral Life of an Octopus" de Léa Tirabasso, espetáculo apresentado no quadro do festival Aerowaves. Baptiste e Matilda lá estavam. Sempre a três. Onde são precisos e quando são precisos, estão a três. Prova que o bailado é compatível com a vida familiar, uma vida que Catarina sempre quis ter.

Catarina é uma mulher igual a tantas outras mesmo sendo bailarina. Na adolescência dançava noite dentro nos bares e discotecas de Lisboa ou de Genebra com as amigas. Mesmo com a exigência do ballet, Catarina não tem a dieta rigorosa muitas vezes associada a bailarinos, atletas de alta competição ou que se vê nos filmes.

Habituados aos palcos e à pacatez e sossego da vida pessoal, Catarina Barbosa vê-se com uma pequena quinta transformada em Alojamento Local num futuro próximo. Um projeto onde cabem os três e o bailado. Onde será permitido à pequena Matilda viver experiências semelhantes às da mãe quando era criança na Póvoa de Varzim. Quem sabe se esta filha de de peixe também sabe nadar.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Os bailarinos principais da Companhia Nacional de Bailado (CNB) de Portugal, Filipa de Castro e Carlos Pinillos, participaram, este fim-de-semana, na quarta edição da “Gala des Étoiles”, que decorreu no Grand Théâtre, no Luxemburgo. A dupla ibérica espalhou magia e foi mesmo uma das mais ovacionadas da Gala.