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Cyrus Neshvad. “O lugar onde vivemos durante muito tempo acaba por se tornar a nossa casa”

Cyrus Neshvad. “O lugar onde vivemos durante muito tempo acaba por se tornar a nossa casa”

Cyrus Neshvad. “O lugar onde vivemos durante muito tempo acaba por se tornar a nossa casa”

Cyrus Neshvad. “O lugar onde vivemos durante muito tempo acaba por se tornar a nossa casa”


por Sibila LIND/ 01.08.2019

Foto: Sibila Lind

Fugiu do Irão em 1979, ano da revolução islâmica, e chegou ao Luxemburgo com cinco anos. A mudança para um novo país foi difícil, mas quando disse a primeira palavra em luxemburguês foi aplaudido pelos colegas na escola. Começou por estudar economia, mas foi pelo cinema que se apaixonou. Desde então, Cyrus Nashved já recebeu mais de 100 prémios, e a curta-metragem mais recente, “Portraitiste”, foi premiada no final de julho, no Stony Brook Film Festival, em Nova Iorque. O seu pai tem uma mala preparada para voltar para o Irão, mas para Cyrus o seu país é o Luxemburgo.

No documentário que realizou com os seus pais, há quase dez anos, “En dehors de l’eau”, surge uma imagem que marcou a fuga da sua família do Irão. Na fotografia, vemos a sua mãe, dois meninos e uma bebé que, para que todos coubessem no autocarro, foi colocada na mala de mão no meio do corredor, segundo nos conta a sua mãe no documentário.

Foi a última fotografia que tirámos no Irão antes de atravessar a fronteira. Foi o nosso dia de sorte. Apanhámos o último autocarro que havia para sairmos do país, caso contrário teríamos ficado presos lá.

E lembra-se desse dia?

Lembro-me de ir à casa de banho sem os meus sapatos e de as minhas meias estarem todas molhadas. Estava com frio e tinha fome. São as únicas coisas de que me recordo.

Porque é que queriam fugir do Irão?

Nós fazíamos parte da religião bahá'í [religião monoteísta não-islâmica, a maior minoria religiosa do Irão] e sabíamos que se o governo mudasse, a primeira coisa que ia acontecer é que os bahá’ís iriam ser perseguidos. Pensávamos que íamos embora do Irão por dois, três anos, e que as coisas iam melhorar e depois voltávamos. Mas fomos embora e nunca mais regressámos. Ficámos no Luxemburgo. Mas, mesmo depois de tantos anos, mais de 30, o meu pai ainda está à espera com a mala pronta para voltar para o Irão.

Como é que vieram parar ao Luxemburgo?

O meu pai era arquiteto e estudou em Itália, por isso queríamos ir para lá. Mas um amigo ligou-lhe e disse: “Estou num país pequeno, não sei bem onde fica, mas de uma coisa tenho a certeza: eles precisam de casas”. Então viemos para cá e o meu pai arranjou trabalho mesmo sem saber falar a língua, porque só precisava de desenhar.

Cyrus Nashved (à direita) com a mãe e os irmãos, antes de saírem do Irão
Cyrus Nashved (à direita) com a mãe e os irmãos, antes de saírem do Irão
Fotografia da família de Cyrus Nashved

Como foi crescer no Luxemburgo?

Num momento, estava numa escola iraniana, o alarme tocava e tinha de me esconder debaixo do banco. E, de repente - meses mais tarde - estava numa escola luxemburguesa. Como entrei a meio do primeiro ano, não sabia falar a língua e estava atrasado em tudo. Sentia que estava rodeado de monstros e que eu não era normal. Para não repetir o ano, o meu professor teve de traduzir tudo para inglês e depois os meus pais traduziam do inglês para persa, para que eu percebesse. Passado seis meses, disse a minha primeira palavra em luxemburguês na escola, “Moien”, e todos os meus colegas aplaudiram. A partir daí senti-me mais confortável para falar e com vontade de aprender a língua.

E como foi para os seus pais adaptarem-se a um país novo?

Para o meu pai foi fácil porque começou logo a trabalhar. Foi mais complicado para a minha mãe que, por não falar as três línguas [oficiais do Luxemburgo], não conseguiu estudar aqui para obter a equivalência do seu diploma em medicina. Mas no início era mesmo uma questão de sobrevivência. O salário do meu pai era baixo então a minha mãe comprava leite e fazia uma grande quantidade de iogurte para toda a semana, e também arroz. Assim sabíamos que tínhamos comida para o resto da semana.

Quando é que percebeu que queria fazer cinema?

Nunca pensei que queria fazer filmes. Começou como um jogo, ou seja, quando pegava numa câmara divertia-me a filmar. Comecei por estudar economia, mas era algo que não me dava gozo. Então disse aos meus pais: “Se terminar o ensino secundário especializado em economia no liceu Michel-Rodange, vocês deixam-me depois estudar cinema”. E fizemos um acordo. Acabei o ensino secundário e fui estudar cinema.

Onde?

Fui estudar cinema na Sorbonne, em Paris. Quando terminei fiz a minha primeira curta-metragem e foi aí que percebi que ia ser mais difícil do que estava à espera. Tive uma má experiência com produtores e acabei por fazer um filme que não ficou aquilo que eu queria. Tive de ir para o psicólogo porque achava que talvez não fosse bom o suficiente para fazer filmes. E lentamente fui voltando e quis começar do zero. Então, em 2011, comecei a fazer a curta-metragem “L’orchidée”, com 2.500 euros. É a história de dois idosos que estão num quarto num lar de idosos à espera da morte e nasce uma amizade entre os dois. A curta passou em 30 festivais, esteve nomeada para o Lëtzebuerger Filmpräis e recebeu nove prémios. E isso deu-me confiança para seguir em frente, na mesma direção.

Não considerou ficar em Paris?

Não gostei muito de viver em Paris. Senti alguma discriminação e percebi que ia ser difícil triunfar. Preferi voltar.

Tive de ir para o psicólogo porque achava que talvez não fosse bom o suficiente para fazer filmes.  

E depois do sucesso da curta “L’orchidée”?

Comecei a juntar dinheiro com o meu segundo trabalho, como agente imobiliário, e investi 9.000 euros para fazer uma nova curta, “Antoine”. Passou em 103 festivais e ganhou 22 prémios, e no fim até acabei por ganhar algum dinheiro. Fui mais uma vez nomeado para o Lëtzebuerger Filmpräis. Voltámos a não ganhar, mas senti que estávamos mais perto.

Para continuar a fazer filmes, teve de arranjar um segundo trabalho?

Não sabia se alguma vez ia conseguir apoios do Luxembourg Film Fund, por isso tive de procurar um trabalho com um rendimento certo. Vim do Irão, sei o que é passar fome, e disse a mim próprio que não ia passar por isso outra vez. E o segundo trabalho tornou-me mais forte. Aprendi a saber lidar com pessoas e a conseguir fazer com que elas me ouçam, o que muitas vezes é preciso quando estamos a fazer um filme.

E qual é a opinião dos seus pais sobre ser realizador?

Acham que é uma perda de tempo [risos]. Porque eles sofreram muito. E não conseguem perceber o porquê de escolher um emprego que não traz dinheiro imediato. Acham que podia ser só agente imobiliário. Mas é normal. Eles passaram por um período de guerra, perderam tudo. Tinham casas e apartamentos no Irão que lhes foram tirados. Mas, para mim, escrever um guião é uma espécie de terapia. E é sobretudo um jogo, divirto-me a fazê-lo. Faz-me feliz. E isso é bom. No dia em que não me der prazer fazer isto, podem dar-me um milhão de euros que não vou fazê-lo.

Cyrus Nashved já recebeu mais de 100 prémios pelas suas curtas-metragens
Foto: Sibila Lind

Na maior parte dos seus filmes, a morte é um assunto que está sempre presente.

Várias pessoas já me disseram isso. Que a morte, a infância e a perda são sintomáticas nos meus filmes. E também o medo.

Porquê?

São sentimentos e conceitos que surgem. São temas tristes mas aos quais procuro dar uma luz no fim. Quando tenho uma ideia, escrevo-a, e no final é que percebo que ela está ligada às ideias anteriores. Não consigo racionalmente dizer se está ligado às minhas raízes ou a experiências passadas na minha vida. No fim, acabo por trabalhar sobre os mesmos conceitos, seja um filme de terror, um drama ou o que for. Há algo que está sempre lá.

Quando o coreógrafo israelita Hofesh Shechter veio ao Luxemburgo no ano passado, disse que para fazer uma peça começa por escrever tudo o que o incomoda no papel, para depois criar a partir daquilo que escreveu.

Para mim escrever um guião é um “ato” frio porque ele vai ser o esqueleto do filme. Tem de ser pensado com lógica, em vez de pôr tudo o que me incomoda lá dentro. Porque se fosse esse o caso estaria a fazer um filme para o meu psiquiatra. E eu tenho de fazer um filme para todos. E o importante é fazer algo que capte a atenção das pessoas. É por isso que é preciso trabalhar bem o guião para ter o esqueleto do filme. E só depois, nesse esqueleto, é que colocamos o nosso coração. E se ambas as partes estiverem equilibradas, o filme vai ter sucesso.

Como foi o caso de “Fils”, premiado no Lëtzebuerger Filmpräis.

Foi a terceira vez que fomos nomeados para esse prémio e dessa vez ganhámos. E a curta recebeu ainda mais 42 prémios. Queria fazer um filme de terror, adoro filmes de terror, desde que tenho 15 anos. Mais uma vez não consegui financiamento então investi do meu próprio dinheiro e a minha irmã também me ajudou.

E depois de “Fils”, realizou a sua curta-metragem mais recente, “Portraitiste”, que estreou em março no Luxembourg City Film Festival. Como é que surgiu a ideia para este filme?

Queria voltar a fazer um filme sobre emoções. E queria ter o apoio do Luxembourg Film Fund, que consegui. Uma parte da curta-metragem tem como base um romance de que a minha mãe me falou, sobre uma menina e uma árvore. E ficou-me na memória. A outra parte foi algo que me estava na cabeça: o que é preciso para uma pessoa fazer a sua maior obra? E percebi que tinha de estar disposto a sacrificar-me. Juntei estas duas partes e tinha um filme. Durante quatro meses vai ser exibido em festivais. Até ao momento, já recebeu 13 prémios.

Inclusive recentemente o prémio do público no Stony Brook Film Festival, em Nova Iorque.

Sim, mas não consegui ter o meu visto a tempo porque nos meus documentos está escrito que nasci no Irão. Então foi mais difícil. Fartei-me de procurar a papelada necessária e não fui. Quando me ligaram a avisar do prémio fiquei surpreendido mas também frustrado por não estar lá. Porque tento estar presente nos festivais. Há dois ou três meses, fui a um festival em Itália e o filme passou numa sala com 200 pessoas. Ganhei quatro prémios, entre eles o do júri e o do público. No final, uma mulher veio ter comigo e disse: “Não sei o que fez, mas em 30 anos nunca vi o meu marido neste estado”. E um homem começou a falar comigo em italiano, não percebi o que ele estava a dizer, mas agarrou-se a mim e chorou durante cinco minutos.

É mais importante para si o impacto que os seus filmes causam nas pessoas ou os prémios?

Estas emoções, reações, eu vou guardá-las para o resto da minha vida. Já os prémios tenho uma sala cheia deles, mas quando lá entro só vejo pó e algo morto. Não tem valor em comparação com as pessoas, com a partilha. Em Itália, estava lá no meio das pessoas e só queria aproveitar esse momento, é a única coisa que importa.

A maior parte das suas curtas-metragens são ficções, à parte de “En dehors de l’eau”, que conta a história da sua família, e de “Soheila”, em que ficamos a conhecer uma artista exilada no Irão. Prefere a ficção ao documentário?

Sim. Porque podemos criar uma história. Divirto-me mais. Pegamos em coisas da vida real e levamo-las para outro sítio. No documentário temos de ficar na realidade. É bom mas não é tão excitante. Tive muitos pedidos para fazer filmes sobre o Irão, mas nunca quis.

Porquê?

Não preciso de mostrar alguém que saiu do Irão e se sente perdido no novo país para falar de imigração. Se estivermos perdidos numa floresta e começar a escurecer, já estamos de certa forma a imigrar, porque estamos fora da nossa zona de conforto. A floresta pode ser uma metáfora para um país estrangeiro. Há um sentimento de abandono. Então vou fazer uma história sobre isso, que vai ser original, ao contrário dos vários filmes sobre a imigração, em que se contam muitas vezes as mesmas histórias. Mas há muito aquela ideia de que, por exemplo, um filme de terror não tem nada para contar. Num festival onde fui, ouvi um dos júris dizer: “Sim, é um bom filme, mas não muda nada”. Para mim, um filme não precisa de transmitir uma mensagem, mas sim emoção. São as emoções que unem as pessoas. Elas são universais. Para ajudar as pessoas ou mudar alguma coisa há sítios mais adequados do que o cinema.

Para mim, um filme não precisa de transmitir uma mensagem, mas sim emoção.  

E voltar para o Irão?

Já tenho medo de ir para os Estados Unidos quanto mais voltar para o Irão [risos]. Primeiro sou bahá'í, depois não fui para o exército, sou desertor e e por aí fora. Se o regime mudasse, ia, mas como está agora, não.

Os seus pais chegaram a voltar ao Irão?

A minha mãe foi uma vez porque a minha avó estava a morrer. Ela ligou para a minha mãe e disse: “Sinto que vou morrer. Não me resta muito tempo”. A minha mãe disse que ia vê-la e o meu pai chorou e não queria que ela fosse. Mas ela apanhou o avião e correu tudo bem. E enquanto lá estava a minha avó morreu. E a minha mãe voltou feliz por ter conseguido lá estar, ao pé dela. E disse que o Irão, para ela, já não era o mesmo. Estava tudo diferente e sentiu que era estrangeira no seu país. Para ela, a sua casa é no Luxemburgo. Ainda disse ao meu pai para fazer o mesmo, ir lá e perceber que aqui é que é o seu país, ao que ele lhe respondeu: “Estás louca?”

Isso quer dizer que já não se sentem imigrantes no Luxemburgo?

Acho que o lugar onde vivemos durante muito tempo acaba por se tornar a nossa casa. Não sei bem como explicar. Por exemplo, uma criança que é abusada pelo pai, foge de casa e acaba por encontrar um padrasto, que trata bem dela. No final, quem é o seu pai verdadeiro? O novo pai, porque é bom para ela. Nós estávamos num país que nos batia e fugimos para o Luxemburgo que nos acolheu. E agora, quem é a nossa família verdadeira, o Irão ou o Luxemburgo? Para mim é o Luxemburgo.