CRITICA DE CINEMA: “Juste la fin du monde”: O melhor filme (do fim) do mundo
CRÍTICA DE CINEMA, POR RAÚL REIS - O filme do canadiano Xavier Dolan baseia-se numa peça de teatro que se resume em poucas frases. Louis (Gaspard Ulliel) regressa à casa familiar depois de muito tempo sem aparecer, ocupado na grande cidade pelo seu trabalho como dramaturgo. Louis está doente, contraiu o vírus da sida e sabe que vai morrer. É por isso que visita a família, para lhes dar a notícia.
A sua mãe (Nathalie Baye) espera-o, nervosa, o que irrita bastante o irmão mais velho Antoine (Vincent Cassel). Por seu lado, a irmã mais nova de Louis (Léa Seydoux) acha graça à tensão que vai crescendo. O elenco completa-se com a mulher de Antoine (Marion Cotillard).
O filme passa-se num espaço fechado – a casa – sem grandes diferenças relativamente à peça de teatro. Toda a acção de “Juste la fin du monde” passa-se numa tarde de domingo, e quase em tempo real.
Quando os cinco membros da família se encontram até o espectador se sente pouco à vontade. As pessoas que temos diante de nós irritam-se mutuamente mesmo quando não dizem nada. Para o espectador pode ser doloroso observar tanto mal estar. Uma realidade que é tão difícil de viver como de testemunhar.
Louis parece mais vítima do que os outros na medida em que é acusado – sobretudo por Antoine – por ter decidido, um dia, partir. O confronto dos dois irmãos é um dos elementos mais poderosos do argumento de “Juste la fin du monde”. Antoine é permanentemente extrovertido, violento, enquanto que Louis se submete, em silêncio.
O realizador deixa bem claro que nada une estes dois irmãos a não ser o sangue. Vincent Cassel é talvez aquele que assina a mais prodigiosa interpretação. Como sempre, o actor francês é físico e brutal.
Gaspard Ulliel é mais comedido. A sua personagem não lhe facilita o trabalho por não ser tão efusiva como a de Cassel, mas o actor consegue encontrar um equilíbrio. Vê-se bem como Louis se vai fechando sobre si próprio à medida que a acção avança. Louis escolhe o silêncio e só o telefone o liga ao exterior e à sua vida na grande cidade.
Apesar de ser muito novo, Xavier Dolan, é um realizador com um currículo invejável e um estilo que foi desenvolvendo e afirmando. Esteticamente as suas obras são de elevado nível, fazendo muitas vezes pensar num produto televisivo como, por exemplo, um teledisco. Em “Juste la fin du monde” o realizador canadiano deixa essa tendência exprimir-se ainda mais livremente num momento de “flashback” cheio de sensualidade e beleza.
Xavier Dolan tem um exército de seguidores fiéis – entre os quais os seleccionadores do festival de Cannes – e um batalhão de gente que não o suporta. Logo depois da projecção de “Juste la fin du monde” no festival, o realizador defendeu que este seria o seu melhor filme de sempre (o júri de Cannes voltou a premiar Dolan em 2016). Dolan explicou que se trata de uma obra bem conseguida e que o facto de ter sido jurado no festival de Cannes muito contribuiu para que a sua forma de fazer cinema melhorasse muito.
As dúvidas sobre o génio de Xavier Dolan assaltam-me frequentemente. Os seus filmes, até “Juste la fin du monde” tiveram dificuldade em seduzir-me. Curiosamente, esta obra, tão diferente dos anteriores, até porque abandona o universo canadiano em que Dolan filmou no passado, tem elementos para convencerem alguns cépticos. A isso não serão alheias as interpretações excelentes dos cinco actores e diálogos que permitem manter o interesse e a tensão vivos num “huit clos”. Infelizmente para o realizador, nem os actores são ele, nem a peça que dá origem ao filme foi escrita por ele.
E se fosse por isso que este filme me agrada mais do que os outros?
Raúl Reis
“Juste la fin du monde” de Xavier Dolan, com Nathalie Baye, Marion Cotillard, Léa Seydoux, Vincent Cassel e Gaspard Ulliel.
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